A Bruxa (The Witch, Robert Eggers, 2015, 92 minutos)

O ano é 1630. O fanatismo religioso do patriarca William resulta na expulsão dele e sua família da comunidade ultraconservadora onde viviam. Eles se estabelecem em um vale afastado onde tentam voltar ao seu cotidiano habitual. Contudo, após o sumiço de um dos filhos, a família começa a suspeitar que está sendo assombrada por uma suposta bruxa que vive na floresta. A bruxa foi vencedor de vários prêmios, entre eles, o de melhor direção no Festival de Sundance.

Este é um filme de terror que surpreende tanto aos fãs febris do gênero quanto aos cinéfilos que possuem alguma desconfiança sobre o mesmo. Ao construir pouco a pouco uma crescente paranoia entre os membros da família, a narrativa consegue criar um perfeito equilíbrio entre o sobrenatural e a pura superstição religiosa. Essa inquietação advinda da dúvida entre o real e o fantástico se torna quase palpável conforme a película nos fornece explicações que conseguem abarcar ambos os pensamentos.

Dois personagens são emblemáticos e merecem destaque pelo caráter alegórico nesse microcosmo familiar: William, o pai, e sua filha mais velha, Thomasin. William com uma mentalidade recheada de misticismos consegue influenciar diretamente cada membro de sua família. Sua função como o dito homem de fé é constantemente reafirmada durante o desenrolar da trama. Já Thomasin se mostra como a subversiva da família, visto ser a única que contesta as figuras paternas de autoridade; ao mesmo tempo em que consegue dosar suas ações e conclusões nos aspectos religiosos. Ela é vista por quase todos os integrantes de sua família como sendo a anormal, o patológico — quase como uma bruxa. Todos os conflitos que ocorrem com Thomasin ilustram os flagelos sofridos pelas mulheres na Idade Média, onde a sociedade tentava transformar a qualquer custo o feminino em algo impuro e perverso. Consequências disso podem ser observados até os dias atuais.

Robert Eggers, o diretor, constrói um filme coeso que opta por construir uma atmosfera pulsante de horror e não por dar sustos gratuitos nos espectadores através de jumpscares. Em muitos momentos, a maneira com que conduz o longa-metragem evoca o estilo narrativo de Michael Haneke — especificamente o ótimo A Fita Branca [Das weiße Band, 2009], onde alguns planos são “esticados” seja para salientar a ação que acabara de ocorrer ou criar a tensão necessária. Além disso, a forma com que cria inquietação na banalidade como, por exemplo, na caça de um coelho contribui para uma atmosfera imersiva nos confins mais profundos do horror. A bruxa consegue subverter todas as convenções do gênero, o que pode causar um estranhamento inicial em um espectador desavisado. Contudo, dada uma chance ao filme, ele pode te surpreender… E te deixar com medo.

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