A Casa de Ana ( Clara Ferrer e Marcella De Finis, 2017, 20 minutos)

Existe um complexo macro-gênero que eu sou aficionado. O que une todos os filmes pertencentes a ele é o fato de sua narrativa tratar de protagonistas que estão passando pela conturbada passagem da infância/pré-adolescência para a vida adulta. Eu chamo de macro-gênero pela quantidade de obras distintas que são englobadas: da saga fantástica Harry Potter até Boyhood, passando ainda por Tomboy, Conta Comigo e It (ao menos, o remake lançado esse ano); todas são produções que se encaixam no coming of age.

Um dos meus maiores problemas com os filmes coming of age é o fato da maioria esmagadora dos protagonistas serem meninos. O que faz com que sempre exista uma determinada visão sobre a descoberta da sexualidade, da forma que os personagens lidam com problemas do universo dos adultos e — via de regra — a inexistência de personagens femininas que não sirvam ao proposito romântico ou materno. Sei que isso não é uma problemática específica desse conjunto de filmes, mas no campo das artes como um todo — e, se ainda é necessário que façam listas de obras que passam pelo Teste de Bechdel é porque a realidade não é tão diferente assim nos outros gêneros cinematográficos. Sei também que isso é algo que vem sendo mudado com o lançamento de obras mais diversificadas e que lentamente vão deixando de serem consideradas exceção. E A Casa de Ana é um desses pontos fora da curva.

O filme trata de Ana, uma menina de 11 anos, que inesperadamente passa a viver com sua irmã mais velha e as amigas dela em uma república. A partir dessa convivência da protagonista com garotas mais velhas e com sua irmã, Ana vai amadurecendo e aprendendo a lidar com os altos e baixos que surgem em sua vida.

A paleta de cor do curta-metragem é composta majoritariamente de cores pasteis, o que deixa tudo que presenciamos bem próximo do olhar infantil de Ana. A proporção quadrada que o filme se apresenta consegue caminhar entre a sensação de aprisionamento que a protagonista sente durante a história ao ter que passar a maior parte do tempo vivendo dentro da república, e a sensação de liberdade nos planos em ambientes externos.

Um dos pontos que mais chamou a minha atenção é a direção acertada que faz com que as mudanças entre sequências, ou até mesmo entre planos, ocorra de forma suave sem nunca perder o ritmo. A história flui de maneira impressionante enquanto seguimos a jornada de amadurecimento da protagonista, e isso ótimo. Vale pontuar também o elenco como um todo que está ótimo, e a direção de arte que casou perfeitamente com a proposta narrativa — incluindo todo o trabalho sensacional de Figurino feito por uma das melhores pessoas que esse mundo conhece: Lua Guerreiro.

Ao fim da projeção, ficamos com a sensação de sermos velhos conhecidos das personagens apresentadas e com uma grande vontade de continuar observando a vida de cada uma daquelas meninas. Entretanto, como em todo coming of age, vivenciamos o quão efêmero é esse pequeno momento de amadurecimento da infância para a vida adulta.

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