A Pedra Mágica (Shorts, Robert Rodriguez, 2009, 89 minutos)

‘A Pedra Mágica’ é um achado: tanto na filmografia infantil do diretor Robert Rodriguez, quanto ao compararmos a outros exemplares do gênero. Com sua narrativa episódica e fragmentada, o filme poderia ser considerado como um ‘Pulp Fiction: Tempo de Violência’ (1994) para baixinhos. Por essa razão, penso que a tradução do seu título no Brasil desloca desnecessariamente a importância da obra para outra questão. Shorts no original em inglês, não pretende ser um filme sobre uma pedra mágica, mas, sim, sobre personagens e suas condutas peculiares.

Através de narrativas curtas (shorts films, curtas-metragens) acompanhamos os defeitos de cada um de seus protagonistas e o quanto essas imperfeições dominam os seus maiores desejos. Com o desenrolar de suas histórias, os espectadores compõem a narrativa macro que o filme pretende abordar. Em nenhum de seus momentos a obra se esquece de qual o seu público-alvo, conseguindo desenvolver tudo o que pretende através de histórias (um pouco) didáticas e com uma paleta constituída basicamente de cores quentes e contrastantes.

As gravações de ‘A Pedra Mágica’ ocorreram durante a primavera e o verão de 2008. Contudo, a pós-produção levou tanto tempo que o filme só veio a ser lançado no ano seguinte. Sua história é dividida em 5 capítulos (+ 1: o zero) com cada um deles dando o protagonismo para um grupo de personagens específicos. Iremos analisa-los a partir da ordem em que são apresentados.


Episódio 0: Os Piscadores

Em seu prólogo, o filme consegue demonstrar e desenvolver duas indicações importantes: a) seu viés infantil e, muitas das vezes, non-sense; e b) sua gag visual mais longa. Através de dois irmãos e uma competição entre eles para descobrir quem ficaria mais tempo sem piscar, o diretor consegue construir uma surpreendente sequência de tensão. Essa competição entre os “piscadores” é constantemente pontuada e lembrada durante o filme, mesmo que os personagens não possuam nenhum desenvolvimento mais profundo durante a narrativa e nem entrem em contato direto com a pedra do título.

Como disse no começo do texto, o filme não é construído ao redor da pedra mágica e nem dos desejos feitos a ela. O foco está sempre nos personagens e suas escolhas, assim como nas consequências dos desejos que reverberam em seu cotidiano.


Episódio 2: O Alienado

Através de um interlúdio, somos apresentados à comunidade suburbana de Black Falls, seus excêntricos habitantes e a indústria que movimenta a região: a Black Box. O narrador e protagonista é Toby Thompson, um menino de 11 anos, que também é o personagem principal desse episódio. Descobrimos que os pais do menino, assim como a grande maioria (se não todos) dos adultos do município, trabalham na Black Box para o Sr. Black, seu proprietário. Eles são responsáveis pela produção de um aparelho que, literalmente, tem 1001 utilidades. Contudo, o trabalho é desgastante por conta das ordens e vontades extremas de seu dono. O aparelho e seus problemas, inclusive, lembram bastante um iPhone, assim como a empresa fictícia provoca um paralelo quase instantâneo com a Apple. Na reunião de negócios que acompanhamos nesse interlúdio, o Sr. Black comunica que pretende lançar a versão X do aparelho multitarefas (uma previsão de Nostradamus Rodriguez!) e divide os pais de Toby em dois times opostos de desenvolvedores. O time que desenvolver menos melhorias para o lançamento será demitido, assim como seus cônjuges; o que deixa os pais do menino em uma situação muito estranha.

Ao acompanharmos o cotidiano de Toby em sua residência, descobrimos a rivalidade com sua irmã mais velha (e os constantes comentários do menino sobre o namorado de 23 anos dela que ainda mora com os pais, o que me atingiu pessoalmente, confesso); e a distância e desinteresse que parece existir entre os filhos e seus pais, assim como entre os próprios pais. Ao chegar a sua escola, Toby é perseguido por uma horda de valentões comandada por dois irmãos: Cole e Helvetica Black, filhos do patrão de seus pais.

Também é na escola do garoto que temos outro vislumbre dos irmãos “piscadores” ainda no meio de sua competição, assim como conhecemos Loogie com seus bolsos com estoque de chocolate infinitos. Após ser perseguido e atacado pelo grupo de bullys durante a volta para sua casa, Toby encontra a Pedra Mágica e faz seu pedido: amigos tão interessantes e especiais quanto ele. O que ele ganha é um grupo de alienígenas em naves minúsculas, mas que são capazes de fazer tudo para ajuda-lo — desde limpar seu quarto até a lutar contra os valentões da escola na manhã seguinte.

A dificuldade de fazer amigos de Toby, assim como seu costume de conversar com seus amigos imaginários servem até como um contraponto ao garoto Max de ‘As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl em 3-D’ (2005). Durante o filme, a missão mais importante do personagem será conseguir fazer amizades reais.


Episódio 1: A Pedra Mágica

Talvez, esse seja meu episódio favorito do filme.

Centrado em Loogie e seus dois outros irmãos, Lug e Laser, descobrimos como a Pedra Mágica começou a afetar aquela comunidade. Além disso, ainda descobrimos como o menino conseguiu um estoque infinito de chocolate em seus bolsos e de que maneira um crocodilo comeu sua lição no dia anterior. Aqui, assim como em ‘Pequenos Espiões’ os irmãos precisam aprender a trabalhar em equipe. Por conta de suas desavenças, os garotos perdem a posse da Pedra Mágica e precisam se embrenhar em um cânion guardado por crocodilos e serpentes venenosas.

A maior vontade do trio de irmãos, principalmente de Loogie, é viver uma aventura real, longe dos videogames. Por essa razão, a missão dos três, assim como os seus desejos (um forte, um cânion de proteção, “telefonisia”), orbita por essa ânsia. Durante esse processo ainda esbarramos com um exército de crocodilos bípedes, um pterossauro (?) e com a irmã recém-nascida dos garotos conseguindo se comunicar mentalmente com eles após atingir o nirvana do conhecimento.

A Pedra Mágica, assim como o ‘Um Anel’, tem suas próprias vontades e, logo após os garotos darem indícios de terem encontrado o equilíbrio entre eles, desaparece e encontra um novo dono que, cronologicamente, viria a ser o Toby Thompson.


Episódio 4: O Melecão

O episódio 4 é o segmento que aposta mais em um humor escatológico ao qual eu não sou muito fã. Contudo, sua sátira a pais que ficam muito preocupados com o contato de seus filhos com sujeira e bactérias, surpreende. Ele quase trata de misofobia em alguns momentos.

É protagonizado por “Nose” Noseworthy, um garoto que tem aulas particulares com a irmã de Toby e nunca sai de casa por conta da fobia de germes de seu pai. Ele entra em contato com a pedra mágica e, ao desejar que uma das invenções de seu pai cientista funcione, acaba ocasionando a criação de uma criatura criada a partir de sua meleca. Uma criatura que, de acordo com o pai, precisa estar constantemente se alimentando para se manter viva.

A dificuldade a ser superada tanto por “Nose”, quanto por seu pai, é clara: sair de casa. A vontade do garoto de ir para o lado de fora, assim como seu medo de entrar em autocombustão em contato com o ar puro, são as únicas coisas que descobrimos de sua personalidade e vontades durante o desenrolar do episódio. Por conta de sua curta duração, a maior parte do segmento consiste nos personagens fugindo da criatura-meleca. Contudo, ao final, “Nose” e seu pai conseguem sobrepujar o medo que possuíam — em decorrência de um medo ainda maior, é verdade, mas conseguem.


Episódio 3: Os Descomunicadores

A palavra-chave que define esse segmento é: aproximação. Não à toa, ele é protagonizado pelos pais de Toby. Contudo, eles não são os únicos a se aproximar.

O episódio se desenrola em uma festa a fantasia entre os funcionários da Black Box, onde o Sr. Black pretende demitir um dos grupos responsáveis pelas melhorias o equipamento. A Pedra Mágica é levada para a festa pela mãe de Toby que, sem saber de seu caráter mágico, acaba a colocando em sua bolsa e realizando um pedido acidentalmente — o que literalmente a une ao marido e os obriga a se aproximarem um do outro.

Toby também vai para a festa com o objetivo de impedir que algo de ruim ocorra após perceber que a Pedra Mágica foi levada por sua mãe. Contudo, ele chega tarde demais (ao menos, em relação aos seus próprios pais) e acaba revelando sem querer para Helvetica e seu irmão as propriedades fantásticas do artefato. Durante esse episódio, podemos acompanhar aos poucos a aproximação da menina com Toby. Helvetica, além de uma música-tema só para ela, trava uma briga interna entre ajudar Toby ou deixar o seu pai orgulhoso. Não conseguindo se decidir por nenhuma das alternativas, ela foge com a pedra.

Contudo, por ser contrária a ideia de posse, a pedra acaba sendo perdida novamente. Esse detalhe será importante para o desenlace do clímax. Dessa vez, a pedra desaparece em decorrência de Toby que prefere que a mesma se perca para sempre ao invés de ficar na posse do Sr. Black e da Black Box. Cronologicamente, ela acaba sendo achada pela sua irmã e dada para “Nose”. Contudo, é nesse momento que percebemos o quão efetiva é essa estruturação. Uma narrativa que somente faz sentido dramaticamente se contada dessa forma.


Episódio 5: O final

Já posso dizer que é o segmento com a melhor piada. Dita por “Nose” para Helvetica Black: “Not even you, typeface”. Helvetica Black. Type. Fonte.

No clímax, acredito que a última pessoa que necessitava aprender algo era o Sr. Black e sua ganância. Por conta dessa ganância, a bebê telepata informa que todos os habitantes haviam deixado a Pedra zangada. O que condiz com toda a aversão que o objeto mágico demonstrou por posse e desejos egoístas, nunca se deixando aprisionar e sempre em constante movimento. É do Sr. Black a mudança mais rápida e brusca. De um momento para o outro, após o desaparecimento definitivo (?) da Pedra Mágica, o magnata decide transformar a Black Box em uma indústria sustentável.

Os outros personagens, todavia, já haviam aprendido suas lições durante seus respectivos episódios: Toby já conseguira fazer amigos de verdade; “Nose” conseguira sair de sua casa; Loogie e seus irmãos já haviam vivido uma aventura real; os pais de Toby já haviam se aproximado; e até os “piscadores” já haviam encerrado sua acirrada competição.


As referências audiovisuais que eu percebi perpassam desde ‘Os Caça-Fantasmas’ (1984) até uma ligação com outra obra do diretor.

Tanto os irmãos “piscadores” quanto o Toby Thompson comem um cereal chamado ‘Great White Bites’. Assim como ‘Big Kahuna Burger’ de Quentin Tarantino, a marca de cereal do filme é fictícia e foi criada pelo próprio diretor texano. A outra aparição dela foi em ‘Planeta Terror’ (2007) sugerindo que, talvez, as duas obras se passem no mesmo universo — o que seria uma pedra mágica para um apocalipse zumbi, não é verdade?

Great White Bites em dois universos: ‘Planeta Terror’ (2007) e ‘A Pedra Mágica’

Em seu episódio, o menino Toby pergunta para os seus novos amigos alienígenas se poderiam ajuda-lo a limpar o seu aparelho de dentes. O plano que se sucede, com a câmera posicionada “dentro da boca”, me fez recordar bastante do plano do dentista em ‘A Pequena Loja dos Horrores’ (1986).

‘A Pequena Loja dos Horrores’ (1986) e ‘A Pedra Mágica’ (2009)

Nesse mesmo episódio, ao ser confrontado por Helvetica na sala de aula, Toby pronuncia a famosa frase de ‘Scarface’ (1983): “Say hello to my little friend(s)”.

‘Scarface’ (1983) e ‘A Pedra Mágica’ (2009)

O monstro meleca, assim como sua captura pelo Dr. Noseworthy, lembra bastante Geleia e sua sequência de aprisionamento em ‘Os Caça-Fantasmas’ (1984).

‘A Pedra Mágica’ (2009) e ‘Os Caça-Fantasmas’ (1984)

Um dos planos finais do filme me fez associar a turma de amigos de ‘A Pedra Mágica’ a trupe de ‘Deu a Louca nos Monstros’ (1987).

‘A Pedra Mágica’ (2009) e ‘Deu a Louca nos Monstros’ (1987)

Ao final, o quinto longa-metragem infantil de Robert Rodriguez parece possuir um amadurecimento em termos de forma. Ao mesmo tempo, o diretor parece ainda tentar entender a melhor maneira de apresentar o conteúdo pretendido ao seu público-alvo. Sua visão de núcleo familiar também parece estar mudando com a presença do Dr. Noseworthy, um pai solteiro. Para alguns adultos, ‘A Pedra Mágica’ pode parecer um filme intragável, mas, realizado o recorte necessário, observamos ser um filme infantil eficiente e ousado em muitos momentos.