As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl em 3D (The Adventures of Sharkboy and Lavagirl in 3D, 
Robert Rodriguez, 2005, 94 minutos)

Tudo que existe ou existiu, começou com um sonho.

Dos filmes infantis do Robert Rodriguez, ‘As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl’ é, sem sombra de dúvidas, o que mais tem me acompanhado durante a minha vida. Eu ainda me recordo de que a sessão marcou bastante o pequeno Pedro — de forma positiva, diferentemente do terceiro ‘Pequenos Espiões’. Um dos meus passatempos favoritos até hoje, inclusive, é rever o filme em 3D com todos os meus amigos que não tiveram essa oportunidade na infância. Preferencialmente, em um estado alterado. Por conta desse meu hábito de rever, eu consegui organizar a melhor sessão possível do filme para uma plateia de alunos do jardim de infância. Ao final dessa exibição, os alunos provaram pra mim que existia alguma coisa na narrativa que dialogava perfeitamente com a infância e que ia além do 3D, das cores fortes, das gags corporais ou dos personagens-título.

Talvez, o processo de criação e desenvolvimento da narrativa possa explicar essa identificação por parte das crianças. Logo em seus créditos iniciais, o filme mostra aos espectadores ‘A Rodriguez Family Movie’, o que é uma forma concisa e chata de explicar um processo criativo incrível que ocorreu nos bastidores.

Robert Rodriguez e Racer Max, um de seus filhos, estavam planejando um livro infantil ilustrado baseado na maior paixão de ambos: tubarões. Um dos produtores de Rodriguez fez um pedido por outro filme infantil em terceira dimensão após o sucesso estrondoso de ‘Pequenos Espiões 3D: Game Over’. Aparentemente, eles haviam encontrado uma mina de ouro baseada em óculos 3D, crianças e objetos sendo atirados em direção à plateia. Uma mina de ouro decorrente da novidade que seria banalizada pouco depois com o lançamento de ‘Avatar’ em 2009 e a adequação da maioria das salas de cinema para a exibição polarizada (o 3D contemporâneo). O diretor fez uma espécie de pitching da criação do filho para seu produtor sobre as aventuras de um menino criado por tubarões e uma garota com poderes de fogo. A ideia foi vendida. Na época, Racer Max possuía sete anos de idade.

O processo de criação foi baseado principalmente em sessões de desenhos — não só com a contribuição de Racer Max, mas também de seus outros irmãos. As crianças foram sugerindo ideias tanto conceituais como personagens e lugares, quanto de diálogos e viradas narrativas. Um processo de criação que foi intrinsicamente familiar. Um filme familiar feito pela família Rodriguez. O resultado final, em minha visão, reflete essa ingenuidade e inventividade que só poderiam sair da mente de um conjunto de crianças.

O roteiro em processo de elaboração.
“Well, well, well. If it isn’t Sharkboy and Lavagirl”.
O escorregador de gelo.
Sr. Elétrico e seus capangas.

A narrativa é uma espécie de ‘A História Sem Fim’ (1984) mais surtada. As duas tramas tratam de um menino e sua tentativa de salvar um reino mágico; tendo um importante livro como guia; sendo auxiliado por uma princesa; e, ao fim, conseguindo lidar com seus problemas reais após sua viagem por um reino encantado. Tudo bem que o Reino de Fantasia e o Planeta Baba guardam diferenças gritantes em sua história e elementos visuais, mas o cerne das duas histórias é muito parecido.

Em ‘As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl’ acompanhamos a trajetória de Max (Racer Max, alguém?) que é mostrado como um menino que possui uma imaginação bastante fértil. Após um encontro com o garoto-tubarão e a menina-lava, ele é intimado para acompanhá-los até o planeta de origem deles e auxiliá-los em sua salvação. Nesse planeta, eles encaram o vilão Sr. Elétrico que parece ser controlado por uma mente ainda mais maligna por trás. Os paralelismos entre realidade e fantasia são personificados na narrativa através do confronto entre os personagens do mundo real versus os do planeta baba. Excetuando por Sharkboy e Lavagirl (ou as Lalas), todos os personagens possuem um duplo fantástico (ou até mais de um).

Antes de começarmos a dissertar sobre cada um desses duplos, podemos conjecturar sobre a real razão para a existência de uma mente tão fértil no protagonista e sua recusa proposital para compreender a realidade. Um motivo pode ser o principal responsável por isso (além do fato de todos os adultos do filme serem um lixo): o fato de seus pais estarem em processo de separação e viverem constantes brigas. Desde sua redação-prólogo, o garoto chama a atenção para essas brigas. Isso fica explícito quando Max conta que levou Sharkboy escondido para sua casa “quando meus pais estavam muito ocupados para notar”.

O personagem que possui o maior número de interpretações pelo subconsciente do menino é seu professor, Sr. Electricidad. Durante a narrativa, nós vemos todas às três impressões que Max possui dele: maligno, sábio e possessivo. A face maligna é a primeira, e mais óbvia, a surgir através do Sr. Elétrico e seus capangas. Muito dessa interpretação se deve pela postura do professor em sala de aula quando perde o controle. Somente presenciamos um desses descontroles emocionais durante o filme, logo antes da aparição de Sharkboy e Lavagirl na sala de aula, quando o homem grita aos alunos que: “vocês estão na minha aula, não o contrário! Eu sei tudo e vocês não sabem nada!”. A segundo interpretação é a do sábio que surge através do robô Tobor (Robot, de trás pra frente). Tobor possui o papel de auxiliar Max em suas maiores dúvidas durante a história. A terceira faceta, mas não menos importante, surge personificada como o Guardião que impede a Princesa de Gelo de sair de seu castelo. Mostrando o quanto o diálogo do professor pedindo para que Max se afastasse de sua filha marcou o garoto. Todos os quatro personagens são interpretados ou dublados pelo ator George Lopez.

Sr. Electricidad e suas facetas no Planeta Baba.

Falando sobre a Princesa de Gelo, essa é a persona que Marissa, filha do professor Electricidad, assume no Planeta Baba. A associação da menina sempre estar resfriada por sentar embaixo da saída de ar da sala de aula com a soberana de uma fortaleza de gelo no Planeta Baba é ótima. Melhor ainda se considerarmos que foi a própria menina que conseguiu incluir essa versão de si mesmo no subconsciente de Max.

Marissa e seu inception muito antes do filme do Nolan.

Minus é a forma que o bully Linus se manifesta no subconsciente do protagonista. Uma versão (mais) maléfica do garoto que tem quase tanto controle sobre o subconsciente de Max quanto o próprio Sonhador. Podemos compreender a forma que ele controla o Sr. Elétrico no Planeta Baba como a percepção de Max da maneira como ocorre a manipulação do professor pelo valentão na vida real — o que o filme já demonstra alguns indícios.

Como a força-motriz dessa válvula de escape imaginativa, os pais de Max não poderiam ficar de fora do Planeta Baba. Eles são os habitantes da ‘Terra do Leite e dos Biscoitos’ em uma clara referência ao acidente ocorrido no primeiro diálogo deles com o garoto onde acusam injustamente o filho de ter comido os biscoitos gigantes feitos pela mãe — mesmo com um copo de vidro derretido e marcas de mordidas que não pertencem a uma mandíbula humana nos biscoitos. Na imaginação do menino, a relação dos pais é pacífica e amorosa. Nesse momento, existe um diálogo entre Max e Lavagirl que vem sublinhar ainda mais a importância desse conflito entre os seus pais:

- Eles parecem felizes juntos. É esse o seu sonho? 
- Nós tínhamos o sonho de ser uma família. Não tem se tornado realidade nos últimos tempos.
Biscoitos gigantes e os pais de Max.

Ao insistir na mesma moral de que a sua franquia de espiões-mirins, Robert Rodriguez acaba construindo um discurso potencialmente conservador ao idealizar uma formação de família única e atribuir uma proporção muito maior do que a realidade ao divórcio. Inclusive, ao fim, os pais de Max decidem não se separar em uma resolução de arco que pareceu mais forçada do que tudo visto até o momento na trama. Talvez esse seja o ponto mais problemático do filme — além da falta de representatividade já levantada na postagem passada ou a construção problemática de figuras femininas que ainda persiste.

Ao final, a narrativa se mostra bastante semelhante a outro clássico infantil: ‘O Mágico de Oz’ (1939). As semelhanças vão muito além de um furacão que manda nosso protagonista a um mundo mágico ou de paralelos entre personagens reais no mundo da fantasia. Ao invés do Technicolor da terra de Oz, no Planeta Baba somos recebidos com 3D e cores bem vivas. Ao contrário de Dorothy também, Max não precisa bater seus calcanhares, mas, sim, piscar seus olhos três vezes para voltar ao mundo real. No clímax de ‘As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl’, a fantasia invade o mundo real e Max consegue provar a todos que estava certo — o que daria um tom completamente diferente a fábula protagonizada por Judy Garland.


Vamos agora para a parte mais divertida: as referências audiovisuais utilizadas por Rodriguez no filme.

Logo no começo do filme, temos duas referências bem interessantes. O cais onde Max está pescando e encontra o Sharkboy pela primeira vez é o mesmo onde acontece uma sequência-chave em ‘Sin City — A Cidade do Pecado’ (2005). O menino também está comendo um sanduíche de uma rede de fast food fictícia muito conhecida pelos fãs de Tarantino e seu ‘Pulp Fiction: Tempo de Violência’ (1994).

The Docks em ‘Sin City — A Cidade do Pecado’ (2005) e em ‘As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl’ (2005).
Big Kahuna em ‘Pulp Fiction: Tempo de Violência’ (1994) e junto ao menino Max.

Quando tenta desenhar um mapa até o Planeta Baba, Sharkboy faz referência a uma icônica cena de ‘Tubarão’ (1975) produzindo uma citação metalinguística maravilhosa.

‘Tubarão’ (1975) e Sharkboy.

‘As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl’ é um filme que levanta muitos questionamentos nos fóruns na internet até os dias atuais como: seria uma versão infantil de ‘A Origem’ (2010) ou a ‘A Origem’ seria a versão adulta de ‘As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl’? Ou ainda embasa teorias macabras como essa que afirma que Max terminou o filme preso no limbo do mundo dos sonhos. Uma coisa é certa: o fascínio que ainda evoca nas crianças até os dias atuais; seja por seu non-sense ou por seu viés extremamente fantástico. Ter sido idealizado por outras crianças talvez seja a razão que possibilite esse diálogo de igual para igual com o público infantil até os dias de hoje.

‘As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl’ se mostra um entretimento infantil indiscutível que consegue desenvolver seus personagens de forma bem eficiente em sua simplicidade narrativa. E sobre Racer Max, ele continua contribuindo com as produções do pai. A nova parceria deles, um curta chamado ‘Red Eleven’, será lançado ainda esse ano. De acordo com a sinopse, a história irá se basear nas pesquisas hospitalares as quais Robert Rodriguez se submeteu para conseguir financiar o seu primeiro longa-metragem.