Big Mouth ( 2ª Temporada, 2018)

Eu sou a pior pessoa para acompanhar seriados. Eu já tentei e ainda tento, mas ter uma rotina para acompanhar os episódios recém-lançados não é a minha praia. Por outro lado, gosto bastante de todo o ritual envolvendo conversar durante semanas sobre o último capítulo e minhas expectativas para o futuro. Estou em um limbo de expectador. Dito isso fica fácil entender a razão de ter sido uma das últimas pessoas a tomar conhecimento da estréia dessa segunda temporada de ‘Big Mouth’. Fiquei bastante feliz quando a animação foi renovada, mas não acompanhei nada do processo e recebi com bastante surpresa seus novos episódios.

Durante a narrativa dessa nova temporada, um paralelo passou pela minha cabeça: ‘Big Mouth’ é uma versão complementar de ‘Anos Incríveis’. Ambos os seriados acompanham a trajetória dos seus protagonistas da infância para pré-adolescência e dela para a vida adulta. As diferenças maiores seriam o tom — bem mais dramático em ‘Anos Incríveis’ do que ‘Big Mouth’ — e a época que foram feitas — por mais que possua uma aura progressista, ‘Anos Incríveis’ ainda carrega diversos estereótipos e valores morais de sua época no arco de seus personagens. Ao assistir episódios intercalados dos dois seriados, essa aproximação ficou ainda mais evidente para mim. Boa parte disso é resultante da crescente evolução que a animação transpassou ao compará-la a sua temporada inicial.

O machismo dos episódios passados, por mais que bastante velado, é confrontado diversas vezes durante o decorrer de seus novos episódios. Personagens secundários conseguem seus próprios desenvolvimentos de arcos. Ícones das temporadas passadas retornam para irresistíveis cameos — A VOLTA DA JOANINHA! Em síntese, os criadores parecem ter entendido o cerne da série e, mais do que fazer a audiência rir das esquisitices da puberdade, oferecem questionamentos mais aprofundados sobre a juventude contemporânea. Assuntos como cyberbullying, virgindade na idade adulta, depressão e (veja você!) bissexualidade (!) são tratados de maneira orgânica sem que a essência da animação seja alterada. O desenho deixa um pouco de lado o clima ‘American Pie — A Primeira Vez é Inesquecível’ (1999) e foca em algo mais próximo de uma obra do John Hughes.

Abaixo, comentarei mais aprofundadamente sobre alguns acontecimentos da temporada. Caso ainda não tenha visto e queira evitar tomar spoilers, eu aconselho que você volte aqui quando tiver terminado de maratonar.


Eu já havia comentando no meu facebook, mas tenho que externalizar aqui também: a abertura dessa animação é uma delicinha! Uma das poucas que sempre assisto e fico encantado. Nada define melhor o clima dos episódios que Charles Bradley entoando “I’M GOING THROUGH CHAAANGES”, enquanto observamos pêlos nas axilas, mamilos e os próprios personagens crescerem. A puberdade por uma óptica engraçada, honesta e, na medida do possível, sensível.

Mesmo começando exatamente de onde a temporada anterior havia concluído, a série consegue — logo no episódio inicial de seu novo ano — transmutar todos os quatro protagonistas para direções completamente diferentes das apontadas previamente.

Jessi e Jay, por exemplo, descobrem no meio de sua fuga que ambos não eram nada parecidos com o que haviam idealizado do outro. O que faz com que cada uma das crianças pare de fugir e seja obrigada a encarar seus verdadeiros problemas: a separação dos pais (com o acréscimo de um romance lésbico), e a ausência de afeto por parte de seus familiares, respectivamente. Já Nick precisa se adaptar ao seu deficiente monstro dos hormônios, reflexo direto de sua puberdade tardia; enquanto seu melhor amigo, Andrew, precisa lidar com problemas mais complexos dessa vez do que sua compulsão pela masturbação — como, por exemplo, um romance inesperado da bruta Lola ou com o surgimento do vilão dessa temporada: o Mago da Vergonha.

Nos episódios iniciais, Missy não possui tanta importância na narrativa; reflexo direto do relacionamento fracassado com Andrew. Contudo, assim como o apagado Treinador Steve, a garota terá grande importância para o decorrer do arco principal.

Novos personagens são apresentados em função de expandir o caleidoscópio de problemas enfrentados pela juventude. Gina é um deles que, além de lidar com a atenção indesejada decorrente do crescimento abrupto dos seus seios, enfrenta boatos espalhados sobre ela através de mensagens virtuais.

O Mago da Vergonha é, de longe, um dos melhores vilões possíveis para essa temporada. Uma evolução natural do que havíamos acompanhado até então. Depois de se adequarem, na medida do possível, com as mudanças corporais impostas pela puberdade; todos os protagonistas precisam lidar com algo muito mais tenebroso: o conservadorismo da sociedade que os rodeia — personificado no desenho nesse Mago (ou lagarto!). O clímax decorrente da superação do antagonista vem, assim como em ‘Festa da Salsicha’ (2016), beirando o surrealismo entendendo ‘surrealizar’ como “fazer o máximo esforço para libertar o homem da mediocridade dos tempos” (AIDAR e MACIEL, 1986).

Os momentos protagonizados pelas garotas são os pontos altos dessa temporada. A sororidade compartilhada entre Jessi e Missy é, sem sombra de dúvidas, um dos desenvolvimentos mais inesperados (por conta do rumo que a narrativa estava tomando) e, ao mesmo tempo, mais necessários feitos na série. Toda a sequência das garotas aceitando os seus próprios corpos e que resulta na canção ‘I Love My Body’ é de aplaudir de pé. Principalmente, se considerarmos que o público que assiste essa animação é formado majoritariamente por adolescentes que compartilham das mesmas inseguranças vividas pelas personagens. Algo que seria INCONCEBÍVEL até poucos anos atrás quando todos gozavam do politicamente incorreto, mas apenas utilizavam seu humor para perpetuar preconceitos e ridicularizar minorias marginalizadas.

Com essa segunda temporada, os criadores parecem ter encontrado o tom ideal entre comédia e um desenvolvimento espetacular de personagens. Eles conseguem aproveitar da liberdade concedida por um serviço de streaming com o porte da Netflix para contar de diferentes maneiras as dificuldades da adolescência contemporânea. Ao mesmo tempo em que pode ser categorizada como uma clara narrativa de amadurecimento, ‘Big Mouth’ serve ao propósito de mostrar a todos que, por mais que as inadequações com as mudanças corporais sejam as mesmas, a vergonha advinda de velhos tabus, não são. Os tempos mudaram e resta para gente acompanhá-lo junto à juventude! Afinal, “WE GOING THROUGH CHAAANGES!”.