Black Mirror ( 4ª Temporada, 2017)

Nunca fui um grande fã de Black Mirror. Havia assistido alguns episódios nos idos de 2014, mas a irregularidade da primeira temporada me desanimou — confesso. O segundo episódio (‘Fifteen Million Merits’) sobre o reality show de cantores continua me dando arrepios cada vez que eu me recordo de quão difícil foi chegar até o final. Uma experiência traumatizante. Contudo, quando a Netflix resolver salvar o seriado e produzir sua terceira temporada, eu decidi correr atrás do prejuízo e fiz essa maratona. Não foi nem tão ruim quanto eu imaginava e nem tão bom quanto as outras pessoas estavam dizendo.

Contei tudo isso para deixar claro uma coisa que as pessoas que são fãs da série esquecem: Black Mirror é uma série irregular — assim como todas que seguem o modelo de uma história separada por episódio, nos mesmos moldes que Twilight Zone. Você pode amar um determinado episódio, enquanto no seguinte olha para o relógio querendo que acabe a cada três minutos. É o ônus e o bônus de um seriado em formato de antologia: podem ser muito bons, podem ser muito ruins; mas o importante é que eles não serão nunca a mesma coisa duas vezes (em teoria).

Durante essa quarta temporada, Charlie Brooker (criador da série e roteirista de todos os episódios dessa temporada) resolveu interligar ainda mais o universo que conectava os episódios anteriores. Nos novos, conseguimos ver referências diretas a fatos e personagens de histórias passadas, e não só ás tecnologias ou tímidas menções de nomes. Além disso, uma questão recorrente é tratada em, ao menos, metade dos episódios: uma cópia digital de um ser-humano merece um tratamento como o amontoado de códigos binários de que é constituída ou merece ser considerada como um ‘ser vivo’?

Logo em seu início, a temporada já apresenta sua questão-chave sobre o código de ética para com uma cópia digital através de uma narrativa bem inventiva e de uma forma bem original. Através de uma homenagem feita a Star Trek, somos transportados para um jogo de realidade virtual onde Robert Daly, o recluso programador e cofundador de uma empresa de entretenimento, se torna o capitão magnânimo de uma nave espacial. A inversão de expectativa se dá quando percebemos que o personagem que acompanhávamos até ali se trata de um sádico que transporta clones digitais das pessoas presentes ao redor de sua vida para o seu mundo virtual. A partir daí, acompanhamos a jornada da mãe de How I Met Your Mother (ou, ao menos, o seu duplo espacial) em sua frenética busca pela ‘liberdade’.

‘USS Callister’ é o maior episódio da temporada, não só em termos de duração, mas em questão da grandiosidade de seus eventos. A maior parte do episódio ocorre dentro da nave que flutua eternamente pelo hiperespaço programado pelo antagonista — com direito a monstros espaciais e explosões interplanetárias. Além disso, é a narrativa que demarca para todos os que ainda não haviam entendido que a série não possui nenhuma obrigação com qualquer noção de realidade ‘sci-fi’, o que pode decepcionar alguns. Você precisa aceitar que, com apenas o DNA de alguém, o programador conseguia fazer um clone idêntico fisicamente E com a mesma personalidade e memórias. Muito longe da dificuldade encontrada pela protagonista de ‘Be Right Back’ ao tentar “ressuscitar” um ente querido durante a segunda temporada. É isso.

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Talvez a maior decepção dessa temporada pra mim, o episódio dirigido pela Jodie Foster poderia ter escolhido por diversos caminhos narrativos, mas opta pelo mais medíocre. A primeira metade da narrativa desenvolve vários pontos interessantes: o desespero materno frente ao desaparecimento da filha; o fato do sistema Arkangel ter uma opção de anular a violência dos olhos das crianças; o acompanhamento do crescimento de Sara e seu intensivo contato com a violência; etc. Contudo, a história resolveu por focar em como a mãe dela a observou transando e cheirando cocaína — o que fez com que a mesma interferisse inadvertidamente na vida da primogênita.

Tenho que destacar que algumas sequências são magistralmente dirigidas como, por exemplo, a câmera na mão que vai acompanhando Marie enquanto a mãe caminha desnorteada pela rua a procura da filha. Também devo dizer que curti (ao menos, um pouco) a narrativa circular, onde a mulher se vê no fim “perdendo” sua filha novamente, mas por causa do Arkangel. Contudo, eu esperava mais, principalmente por todos os pontos levantados durante a primeira metade do episódio.

De longe o meu episódio favorito dessa temporada, ‘Crocodile’ escolhe sair da fórmula básica utilizada pela esmagadora maioria dos episódios composta por ‘hardware que deveria facilitar a vida humana, mas que acaba sendo um problema ao ser usado de forma incorreta’. Aqui, o problema não está na tecnologia em si, mas na humanidade. O niilismo barato que perpassa todo o seriado encontra seu episódio definitivo. Vemos Mia Nolan (Andrea Riseborough em uma das melhores interpretações de sua carreira) descendo de tobogã em direção ao seu inferno particular quando o reaparecimento de um amigo de seu passado pode colocar em risco toda a sólida carreira que ela construiu.

Um episódio que, por mais que não possua muitas reviravoltas mirabolantes, consegue ir subvertendo todas expectativas que você tenha com a personagem e com a própria narrativa. Belissimamente dirigido (e fotografado), ‘Crocodile’ ainda presta homenagem a um curioso filme: Bugsy Malone. Uma homenagem que acentua toda a ironia presente no arco da personagem. O que deixa a sequência final ainda mais devastadora.

Sobre qual seria a razão para o nome do episódio, eu encontrei a seguinte informação:

Quando o crocodilo está digerindo um animal, a passagem deste pode pressionar com força o céu da boca do réptil, o que comprime suas glândulas lacrimais. Assim, enquanto ele devora a vítima, caem lágrimas de seus olhos.

‘Hang the DJ’ veio para suprir o episódio sobre relacionamentos amorosos presentes em todas as temporadas. A narrativa segue dois personagens que começam a utilizar uma companhia digital para encontrar seu ‘par ideal’. É um episódio pra se ver sem muitas informações e aproveitando o desenrolar cirúrgico do roteiro para que você consiga se envolver com os dois personagens. Novamente está presente a questão-chave da temporada sobre a cópia digital, mas sem todo o maniqueísmo narrativo de bem contra o mal. Nesse episódio, a reflexão pode até não ocorrer por parte do espectador, já que a narrativa não entrega tudo mastigado como ocorre em ‘USS Callister’, mas continua tão pertinente quanto. Até onde iríamos para conseguir encontrar nosso ‘par ideal’?

Foi um dos episódios que eu mais gostei.

Tem seus momentos com a direção e, durante a sequência final onde explicitam a razão do título, eu já estava entregue totalmente a história.

Tenho que confessar que é difícil escrever sobre ‘Metalhead’ por ser o episódio que eu menos curti a atmosfera. O que foi uma tristeza para mim, pois estava muito ansioso para descobrir o que haviam feito com uma paleta totalmente preta e branca. Aparentemente, a narrativa consiste em uma luta pela sobrevivência em um futuro pós-apocalíptico. Isso pode mudar através do pós-conceito utilizado nas próximas temporadas, mas não há indícios no próprio episódio que seja muito mais do que isso (e nem precisa ser) — por mais que ‘Black Museum’ possa ter dado uma dica.

Contudo, se analisarmos apenas sob a ótica de uma corrida pela sobrevivência, a protagonista oscila entre ser uma das piores habitantes de sua própria realidade, e ter muita força interior ao estar disposta a atravessar seus próprios limites. A fotografia em preto e branco consegue combinar com o tom do episódio, já que ‘Metalhead’ a despeito de seus poucos personagens vai se tornando gradativamente o episódio mais sanguinolento da série. Se for visto sem compromisso por uma narrativa mais desenvolvida, pode até agradar pela sua aura soturna semelhante a um filme de zumbi.

Talvez ‘Black Museum’ seja o aleta vermelho para a netflix não deixar mais todos os roteiros do seriado encarregados pelo Charlie Brooker. O episódio tem uma boa estrutura que serve ao seu propósito para o twist final, mas o esqueleto narrativo é bastante similar ao episódio ‘White Christmas’ onde o expurgo da verdade (por mais que não seja feito de maneira voluntária) libertará o personagem penitente. A narrativa episódica, onde vamos descobrindo a história por trás de cada um dos dispositivos, é divertida e tem um quê de Twilight Zone. Contudo, senti falta de algo mais inovador ou, ao menos, melhor desenvolvido. Uma reviravolta final e alguns easter eggs dos episódios anteriores não são o suficiente para contentar o espectador.

Devo deixar aqui ressaltado, todavia, que a protagonista desse episódio foi uma das que mais se destacou nessa temporada (juntinho com a de ‘Crocodile’) por conta de seus sacrifícios pessoas em prol de seu objetivo. Além disso foi interessante ver como alguns conceitos apresentados no próprio episódio foram colocados em prática em seu final — como o compartilhamento de consciência, por exemplo. Ainda acende uma fagulha de esperança ao descobrirmos a existência do ursinho que armazena consciência humana. O que pode atribuir um novo significa ao último plano de ‘Metalhead’ e provar que o episódio não foi somente uma historinha que se passa em um futuro pós-apocalíptico.