Brecha (Iván Noel, 2009, 89 minutos)

Em seu segundo longa-metragem, Iván Noel tem um perceptível salto de qualidade técnica, ao mesmo tempo em que burila as particularidades presentes em sua direção cinematográfica. O diretor não tinha nenhum dinheiro para orçar e produzir esse filme. Então, ele fez um acordo com o canal de televisão local para conseguir o equipamento para a gravação e todo dia ele ia ao supermercado local e roubava as fitas miniDV necessárias para a diária.

Desanimado após minha sessão de ‘En Tu Ausência’ , eu fui sem muito expectativas para essa obra. Logo nos primeiros instantes, percebe-se alguns elementos característicos trazidos do filme anterior. O ator Francisco Alfonsin — o enigmático Paco do longa anterior — retorna aqui no papel de Andrés, um detento recém-liberto que se vê obrigado a se adaptar a uma nova realidade ao ter que conviver com seu filho, José Ramón.

Ao contrário da outra narrativa com seus plots surpresas que desapareciam sem nenhuma explicação, Brecha se mantem consciente em seu propósito de retratar a relação pai-filho entre Andrés e José Ramón. Nessa obra, felizmente, a direção possui sua sutileza na maior parte do tempo: esticando a duração de planos com proposito estético e narrativo; aumentando o número de planos fechados tanto no garoto quanto de seu pai intensificando suas performances; e utilizando das paisagens não somente por uma questão estética, mas também narrativa.

Outro ponto que melhorou de forma incomparável entre a obra atual e sua predecessora foi o desfile de personagens excêntricos. Enquanto que na história de Pablo, nós tínhamos a existência de personagens desastrosamente mal aproveitados como sua amiga Julia, o carteiro ou a dona do bar; aqui, temos desde um gato preto chamado Satã até uma estranha menina chamada Jesus. Todos servindo ao propósito de exteriorizar a psique sombria do personagem infantil da narrativa.

Em seus bons momentos, Brecha faz lembrar de alguns trabalhos de Larry Clark (em especial o frenético ‘Wassup Rockers’ de 2005) e de como a juventude é tratada nesse mundo real de “problemas adultos” que insiste em não lhe dar espaço para conseguir se expressar. Ao meu ver, Noel aprendeu com os erros de sua história anterior e se decidiu por dar mais importância a desenvolver seus personagens, ao invés de usar o tempo de tela em decorrência de uma reviravolta. Ainda conseguimos ver personagens que dão a entender que serão relevantes e que desaparecem durante a narrativa como é o caso de uma mãe que perde o filho atropelado e de uma dona de bar, mas nada que tire o brilho do drama que está sendo contado.

Por mais que não possua muitas oportunidades para se destacar durante a narrativa, o jovem José Ramón (que tem o mesmo nome na vida real) consegue entregar uma atuação esforçada — principalmente durante o terceiro ato, onde o filme começa a cobrar mais dele. Já Francisco Alfonsin se destaca como um homem atormentado pelos erros do passado, enquanto se vê na difícil tarefa de educar o filho que parece cada vez mais distante.

Brecha é um daqueles filmes que retrata a tristeza humana em seu caráter mais simples e natural. Você não vai ouvir os personagens se lamuriando ou fazendo complexas metáforas para exemplificar o que estão sentindo (talvez, a menina Jesus), mas verá essa tristeza palpável em cada uma das ações e rumos que tomam. Uma relação real entre pai e filho contada através de um sensível olhar.