Children of the Night (Limbo, Iván Noel, 2014, 105 minutos)

‘Limbo’, sem sombras de dúvida, é a obra mais difícil de Ivan Noel. Ele passou de uma comédia familiar (‘Primaria’) para um drama travestido de thriller (‘Vuelve’), e finalmente descamba em uma obra que não tem medo de se definir como pertencente ao gênero terror — com todos os clichês e regras narrativas necessárias.

O filme acompanha a história de Alicia, uma repórter que é convidada a visitar o Limbo — um lugar onde crianças que possuem uma doença desconhecida recebem tratamento. Ela resolve se aventurar e vai em direção ao desconhecido. Logo em sua chegada, coisas estranhas começam a ocorrer conectando o passado da personagem com o insólito lugar. Existe também seu colega de trabalho com o qual ela tem um estranho relacionamento amoroso e que parece saber mais sobre o Limbo e seus habitantes do que aparenta.

Roteirizado por Noel, a trama se desenvolve de forma tão complexa — e por vezes confusa — quanto seu filme anterior. Não por conta dos simbolismos presentes ou por metáforas visuais (por mais que possua algumas sobre as quais escreverei mais a frente), mas por toda a desconhecida narrativa que precede a trama principal e que o diretor insiste em ocultar durante a maior parte do tempo.

Ivan Noel segue se distanciando cada vez mais da direção semidocumental de suas primeiras obras. O que enxergo como uma mudança necessária, ainda mais quando se trabalha dentro de gêneros já estabelecidos sem nenhuma pretensão de subverte-los. Contudo, sinto falta desse estilo de direção que se harmoniza tão bem com a direção de atores feita por ele — quase como um Larry Clark latino-americano. Por conta disso, suas últimas obras vistas por mim— Limbo, principalmente — acabam perdendo o que as fazia serem tão únicas e se tornando filmes genéricos.

A partir daqui, revelarei detalhes da trama.


Ao passar alguns dias vivenciando o cotidiano do Limbo, Alicia acaba descobrindo que seus habitantes são, na realidade, crianças-vampiro. Além disso, o lugar está sendo ameaçado por homens vestidos de preto que parecem ter o único propósito de acabar com todas as criaturas da noite que lá habitam.

Eu me sinto muito conectado a narrativa desse filme. O curta-metragem que estou tentando realizar (e que tem a maior pré-produção da história dos curtas-metragens) possui essa mesma vontade de dar um novo ponto de vista para a temática vampiresca. Enquanto escrevia o roteiro, eu me perguntava diversas vezes como abordar temas mais complexos consequentes da “vampirização” de personagens tão novos. Como seria esse amadurecimento de uma criança que está fadada a nunca envelhecer?

Minha linha criativa caminhou para uma rota completamente diferente da seguida por ‘Limbo’. Ivan Noel não tem medo de mesclar tramas intimistas com grandiosas batalhas regadas a banhos de sangue. Isso fica bastante evidente durante a batalha final entre as crianças-vampiro e os seus caçadores, fazendo com que, em algumas sequências, eu me lembrasse do polêmico clipe da banda Yeah Yeah Yeahs dirigido por Spike Jonze: Y Control.

Tenho que confessar a minha incompreensão pela relação de Alicia com o menino Siegfried e a forma com que foi construída. Por conta dos diálogos secos de Noel, a cada conversa entre os dois um tremendo incômodo se instaura no espectador — alguns até de forma mal desenvolvida, na minha opinião. Eu chego a pensar que determinados acontecimentos envolvendo os dois somente estão ali para chocar e nada mais. Mesmo que, ao final da película, o garoto Siegfried consiga concretizar o seu desejo ao fincar os seus dentes no pescoço de Alicia.

Erda é uma de minhas personagens favoritas por mais que sua construção seja bastante caricata. Desde que vi a versão sueca de ‘Deixa Ela Entrar’, uma coisa que sempre me impressionou foi como o amor carnal entre os protagonista se tornaria paternal conforme apenas um dos lados envelhecia. Assim como ocorreu com o homem que cuidava da Eli no começo do filme e como seria com o Oskar com o passar do tempo, ocorreu com Erda que acabou repassando sua função para Alicia ao final de ‘Limbo’. Um personagem decidir viver (ou morrer) em função da sobrevivência de outros indivíduos é uma coisa que sempre me fascina quando ocorre em narrativas — de uma forma verosímil, é claro. Além disso, Erda ainda é uma religiosa fanática que utiliza interpretações distorcidas da bíblia para conseguir lidar com as consequências de cuidar das crianças-vampiros.

Devo ressaltar sobre a construção de “mocinho” e “vilões” que provavelmente irá desagradar aos fãs mais xiitas do universo dos vampiros. O “herói”, também conhecido no filme como “Conde”, se trata do neto de Drácula. O “vilão” é o filho do Bram Stoker. Se você não se importar com essa heresia, o filme seguirá sem maiores surpresas ou desconstruções do cânone vampiresco.

‘Limbo’ consegue se manter divertido na maior parte do tempo, pecando em poucos momentos ao se levar a sério demais e ameaçar a aura de humor negro que paira pelos acontecimentos. O filme possui sequências grandiosas e que merecem ainda mais congratulações por conta do orçamento quase irrisório de 120 mil dólares — com o qual, Iván Noel ainda conseguiu distribuição internacional. Deveria ser o meu filme favorito dele, mas eu fui arrebatado demais por ‘Primaria’.