Colheita Maldita 2: O Sacrifício Final ( Children of the Corn II: The Final Sacrifice, David Price, 1992, 92 minutos)

‘Colheita Maldita 2’ poderia ser um filme mais politizado que seu antecessor.

Você pode me indagar: “Você está dizendo que um longa que termina com seus quatro protagonistas brancos entrando em um conversível vermelho e indo em direção a Nova York — além de ter uma narração de um fantasma-indígena vestido de forma caricatural — poderia ser um filme mais politizado?” E eu respondo pra você, meu amiguinho: sim.

A sequência não ignora o filme original, mas destrói o cânone sempre que possível. A história começa com vários adultos sendo encontrados mortos em Gatlin (que voltou a ser uma cidade populosa como qualquer outra) e seus filhos sendo enviados para lares adotivos temporários em Hemingford (a cidade vizinha para qual os sobreviventes do filme anterior fugiram). Aquele-que-anda-por-detrás-do-milharal não só está vivo como mudou de plantação de milho e foi para Hemingford junto com as crianças.

Os protagonistas são John Garrett, repórter do jornal World Inquirer, e Danny, seu filho adolescente. John, ao que tudo indica, foi um pai relapso que estava tentando passar as férias com o filho, mas, por conta do trabalho, acabou sendo obrigado a viajar para Gatlin/ Hemingford. Danny, por sua vez, perde o avião que o levaria para o conforto da sua residência e é obrigado a acompanhar o pai, por quem tem uma postura totalmente passiva-agressiva, em sua pesquisa por uma matéria.

Bem, vamos aos elementos.

Logo em seu início, a impressa é mostrada como sanguessuga de tragédias. Os personagens-repórteres todos são mostradas com assustadora indiferença frente a cobertura da notícia — visto que a matéria que estavam cobrindo era de um massacre de dezenas de adultos, o que provocara dezenas de crianças órfãs. Uma das personagens, inclusive, critica diretamente essa postura para o John Garrett. Contudo, isso é melhor explorado? Não.

Temos um professor universitário que calha de ser descendente indígena: Frank Redbear (!). Ele faz umas críticas aqui e acolá sobre a colonização dos nativos pelos homens brancos e a forma de sociedade consumista que está sendo criada. Ele também é responsável por dar uma backstory para aquele-que-anda-por-detrás-do-milharal (coisa que não temos nem no filme original e nem no conto onde o filme foi baseado) — um momento que testa bastante a vergonha-alheia do espectador, diga-se de passagem. Esse personagem é responsável, inclusive, pelo próximo tópico que iremos debater. Contudo, no fim, ele apenas é um estereótipo de indígena que até tentou fugir dos estigmas presentes na história do cinema do povo nativo norte-americano, mas acaba tendo um desenvolvimento um pouco estranho — para se dizer o mínimo.

Frank aparentemente tem um embate eterno entre a tradição dos seus antepassados e os conhecimentos acadêmicos adquiridos, pois além de ser o responsável pela história pregressa da criatura pela visão dos índios; ele também é responsável por dar uma explicação racional sobre os estranhos acontecimentos de Gatlin e Hemingford: o fungo presente nos milhos — provavelmente advindo do uso de agrotóxicos. Aqui, o filme apresenta outro ponto/crítica que se perde: tem o xerife que tenta matar tanto Redbear quanto o jornalista Garrett para silenciá-los, mas, quando você menos espera, ele é morto junto com o resto dos adultos da cidade (incríveis 12 pessoas) de acordo com o filme.

Percebeu que eu não comentei mais nada sobre o Danny, filho do jornalista? A razão é que toda a gordura narrativa do filme e tramas inverossímeis foram dedicadas a ele. Tem o romance de verão clichê, o recrutamento dele para o grupo de crianças demoníacas realizado por Micah (uma versão genérica e mais afetada de Isaac), os encontros convenientes dele com os garotos no milharal durante a madrugada, a rebeldia juvenil a máxima potência personificada no personagem, etc. Não merece muita atenção, não.

A direção de David Price poderia passar batida se não fosse a sequência da igreja — de longe, a melhor coisa do filme. Price segue a escola de direção do terror genérico na maior parte do tempo e, no restante, sem nenhuma razão, ele coloca sons aleatórios até quando um faixo de luz transpassa pela tela — provavelmente pretendendo tencionar um jump scare no espectador.

‘Colheita Maldita 2’ não é nem a pior sequência de terror que eu vi (cemitério maldito 2!), nem a mais desnecessária (a bruxa de blair 2!). Ela se encontra no limbo das obras medíocres, onde, pra mim, é o pior lugar para um filme ser alocado. Tendo diversos elementos interessantes, a narrativa opta pelas saídas mais esdrúxulas e fáceis. Por mais que tenham críticas várias a pontos importantes como a impressa e sua cobertura de tragédias, a indústria de agrotóxicos, a forma como todos os indígenas e seus decentes são tratados pelos norte-americanos — todas aparentam ter sido jogadas ao acaso. Redbear, por exemplo, além de ter uma das “mortes” mais tragicômicas da história (acertado por uma flecha, mesmo estando dentro de uma cabine de uma colheitadeira); tem que se prestar ao papel de ressurgir como um espírito ancião e sábio trajando um arremedo de roupa típica para finalizar as pinturas rupestres da sua tribo com uma representação dos homens brancos de quem tanto abominou. Um destino que, para mim, é pior que a própria morte.