Colheita Maldita (Children of the Corn, Fritz Kiersch, 1984, 92 minutos)

Baseado em um pequeno conto de Stephen King, ‘Colheita Maldita’ consegue construir muito bem a tensão entre o extremismo religioso e a maldade advinda do sobrenatural. No filme, acompanhamos a viagem de volta do casal Burton Stanton (Peter Norton) e Vicky ‘sem sobrenome’ (Linda Hamilton) para sua vida cotidiana. Burton, recém-formado no curso de medicina, está preocupado com a residência que começará no começo da semana. Vicky ‘sem sobrenome’ tenta balancear o nervosismo de seu parceiro sendo despreocupada e adepta ao carpe diem. Após um acidente, o caminho do casal esbarra na cidadezinha-fantasma de Gatlin, onde todos os habitantes parecem ter desaparecido de suas casas.

Bem, quase todos.

O roteiro tem sacadas excepcionais. A narração introdutória do menino Job para explicar como aconteceu o expurgo dos adultos de Gatlin é um elemento que funciona em razão de vários propósitos narrativas, ao mesmo tempo que apresenta o personagem e torna crível vários acontecimentos futuros. Podemos entender, por conta desse voice-over do garoto, como que se estrutura a comunidade de crianças através desses pequenos momentos — onde, inclusive, Job mente enquanto conta a sua história, o que é um detalhe maravilhoso.

A questão crucial que permeia boa parte do filme é a alienação religiosa. Ao contrário de ‘A Aldeia dos Amaldiçoados’ (1960), onde o mal existe inerentemente dentro das crianças; vários momentos de ‘Colheita Maldita’ deixam claro que os crimes cometidos pelos pequenos habitantes de Gatlin são decorrentes da capacidade argumentativa de seu líder Isaac Chroner (John Franklin sendo um dos pontos mais marcantes do filme). Podemos perceber que a cidade já era controlada pelo pastor local antes mesmo do expurgo por conta dos nomes bíblicos das crianças: Malachai, Israel, Isaac, Joseph, Rachel, etc. Conforme o filme avança, há um embate entre o líder religioso (Issac) e o reacionário sulista (Malachai), e a capacidade do líder de alienar seus seguidores vai gradualmente diminuindo. Em certo momento, Burton chega até a fazer um discurso “paz e amor” sobre a importância de respeitar as religiões e que nenhuma deveria pregar ódio — contudo, nada é mais persuasivo que um demônio-fumaça que encarna em Issac para abrir os olhos das crianças.

A direção de Fritz Kiersch tem seus erros e acertos bem demarcados. Seus maiores defeitos são consequências de uma direção datada e que não envelheceu bem como outros clássicos do gênero. Observando a obra como um todo, o estilo de direção de Kiersch parece oscilar entre a indecisão entre a direção de filmes trash da década de 1980 (como os primeiros capítulos de ‘Sexta-Feira 13’) ou uma direção que se leva a sério demais em alguns momentos. O filme acaba sendo um híbrido entre os dois durante a primeira metade da trama, mas consegue achar seu tom quando o casal começa a ser perseguido pelas crianças. Destaque para os planos bastante abertos mostrando as crianças correndo pela cidade abandonada e os zooms estilosos que surgem inesperadamente.

Muito se comentou comigo do longa ‘Os Meninos’ ( 1976) que conta a história de um casal de turistas que chegam a uma ilha que é dominada por crianças assassinas. Pelos comentários, a obra parece ter um caráter menos fantasioso do que a adaptação de King — e suas eventuais sequências futuras. Todavia, as similaridades são evidentes entre ambas. Pela minha pesquisa, eu não encontrei nenhuma declaração do autor norte-americano sobre as semelhanças entre as narrativas. É de se observar, entretanto, que o conto ‘Children of the Corn’ foi publicado em 1977 em uma coletânea de contos, enquanto o filme de Ibáñez foi distribuído em 1976 — e, por sua vez, também baseado em um livro: ‘El juego de los niños’ (1976) de Juan José Plans. O filme está presente no epílogo da minha maratona de ‘Colheita Maldita’.