Dando asas à imaginação (Arthur Felipe Fiel e João Marcos Nascimento, 2017, 14 minutos)

Sou um entusiasta de filmes infantis, e isso é bem claro para todos que tenham me adicionado nas redes sociais. Vez ou outra, eu sou a pessoa que desenterra algum clássico obscuro desse nicho (assistam Zokkomon!) ou faz maratona para rever os quatro Pequenos Espiões e provar que A Origem é uma cópia de As aventuras de Sharkboy e Lavagirl em 3D (o que realmente é!). Em um (consideravelmente longo) momento durante a minha graduação, cheguei a pensar que o tema da minha monografia seria sobre esse gênero ‘marginalizado’ e estudei um pouco sobre ele — até me encontrar academicamente e perceber que os filmes que dão um calorzinho no meu coração são de outro grupo. Durante essas leituras, eu me deparei com dois conceitos que mudaram minha visão de tudo: filme familiar e filme infantil. Não são a mesma coisa, acredita?

Filme familiar é basicamente aquela obra que pode até possuir uma criança como protagonista e tratar de temas leves e ao alcance de todos, mas o seu foco não é o público infantil. Geralmente a criança desse filme perpassa por problemas do “mundo real” e aparenta ser um estereótipo ambulante advindo de reminiscências da infância do roteirista/diretor. O filme familiar é uma ramificação do coming of age por assim dizer. Já o filme infantil é — usando uma definição que não é minha (é do Cary Bazalgette e do Terry Staples), mas é a melhor que li:

Aquele que oferece principalmente ou inteiramente um ponto de vista infantil. Eles tratam de interesses, medos, apreensões e temas da criança em seus próprios termos.

Você me pergunta: “qual a razão desse prólogo imenso antes da crítica do curta?”. Eu queria deixar bem claro as nuanças que existem dentro do que comumente chamamos de “cinema infantil”, porque não quero mais ver comparações de filmes que não tem como serem comparados. Não me compare filme infantil com E.T. do Spielberg!


Dando asas à imaginação foi uma das razões de eu ter me deslocado do meu país San Gonça e ido até o Odeon para a sessão do Elipse. É um filme infantil (!) universitário (!!) que mistura live-action com animação (!!!). Não sei o que costuma geralmente animar o cinéfilo interno de vocês, mas isso é o que costuma dar uma balançada interna no meu. Sou defensor de cinema de gênero na universidade e sou uma das pessoas que mais torce pra dar muito certo — ainda quando está tão em fase de pré-produção que só existem boatos da existência.

Pois bem. O filme segue a trajetória de três amigos que vão para a escola contar uma história para os colegas de classe. Nunca fui fã de ler sinopse de curta, por isso não vou falar mais do que isso sobre a narrativa em si. Quero salientar, porém, que a história deu um abraço no pequeno Pedro que se sentiu vendo um dos filmes que ele tanto gostava.

Uma das funções mais importantes de um filme infantil — além de tentar apresentar a moral da forma menos didática, mas ao mesmo tempo didática possível — é a escolha do que mostrar como referência para o seu público. Enquanto no filme familiar vemos alusões a outras obras (via de regra adultas) e piadas de duplo sentido para o deleite dos maiores presentes na sessão, no infantil as referências servem ao propósito maior de aumentar o repertório da criança. De plantar uma semente de algo que ela pode não reconhecer, mas que atiçará a curiosidade de pesquisar e descobrir mais sobre tal personagem ou objeto que aparece, e isso Dando asas à imaginação faz com maestria. Quem fazia isso maravilhosamente bem era o Monteiro Lobato em seu Sítio do Pica-Pau Amarelo que, não à toa, recebe uma alusão em um dos momentos da história. Assim como o submarino do Capitão Nemo.

Achei que a direção e a edição foram bastante competentes em captar esse olhar das próprias crianças sobre a infância, principalmente nas transições entre as cenas com pessoas reais para as animações. O trio de atores protagonistas foi bastante carismático e demonstrou o entrosamento necessário para acreditarmos em sua amizade.

As animações são ótimas! Só queria dizer isso nesse parágrafo. Próximo.

Dando asas à imaginação capta esse olhar curioso e imaginativo da infância. Além de conseguir se comunicar com seu público-alvo de igual pra igual, talvez o maior trunfo de um filme infantil.