Em Tua Ausência ( En Tu Ausencia, Iván Noel, 2008, 100 minutos)

Ironicamente, o primeiro longa-metragem de Iván Noel, ‘En Tu Ausência’, talvez seja sua obra mais reconhecida até hoje. Já haviam me indicado o filme há muito tempo e, como geralmente acontece com o emaranhado de indicações que recebo através de listas da internet, ela acabou sendo subterrada em alguma gaveta do meu inconsciente perto de indicações de seriados de televisão que preciso ver e indicações de curtas que revolucionarão minha vida.

Pois bem.

Fiquei bastante feliz pela minha decisão de ver os trabalhos do diretor em ordem de lançamento, pois começaria assistindo seu trabalho mais famoso. Contudo, por toda a expectativa criada por mim ao redor da narrativa, eu tenho que confessar que foi bastante decepcionante.

O filme segue a trajetória de Pablo, um garoto de treze anos (onze? treze! onze? treze!) que vive com sua mãe em um sítio próximo a um tranquilo povoado. O menino carrega com ele um grande trauma que envolve a morte de seu pai, ao mesmo tempo que atravessa o conturbado período da puberdade. Sua solitária vida provinciana sofre uma mudança brusca após a chegada de Paco, um misterioso homem, que rapidamente ganha a simpatia do menino — e talvez algo a mais que isso.

‘En Tu Ausência’ tem uma aura única e incômoda, isso é verdade. O estilo de direção e a (parca) fotografia me incomodaram bastante em muitos momentos. Após ler mais sobre o processo de produção do filme, entretanto, descobri que o diretor de fotografia original foi demitido após tentar matar o diretor com uma garrafa de vinho — o que fez com que Noel se tornasse diretor de fotografia, além de diretor geral. Nada me chamou mais atenção de maneira negativa, entretanto, que a estrutura narrativa e seus personagens. Pela sinopse que eu construí acima, percebe-se, até mesmo para quem ainda não viu a película, os diversos subplots bem destacadas e em evidência. Não espere por isso quando for ver o longa.

O eixo central da história focaliza sempre no relacionamento de Pablo e Paco. Temos, em certos momentos, alguns vislumbres de outros personagens que se mostram importante na vida do garoto. Entre eles, temos o estereótipo mais nocivo do filme: a amiga Julia. Ela é mais velha que Pablo e possui escancaradamente, desde os primeiros minutos de projeção, o papel de dar início ao despertar da sexualidade do menino. Percebemos isso através do nada sútil figurino que faz com que a garota destoe das locações e dos outros personagens sempre que se encontra em quadro. Julia realmente me incomodou em todos os minutos que surgia em tela, principalmente no arco final do filme onde se é criada uma pesada trama envolvendo o abuso dela e, logo em seguida, descartada — assim como sua personagem.

O problema mais aparente durante toda a narrativa é o surgimento de tramas e, em apenas poucos instantes depois, seu descarte. Chegando ao extremo de, em seu ato final, o roteiro se empenhar para que você engula uma virada narrativa completamente repentina e inverossímil. Muito disso se deve ao fato do filme inteiro ter sido rodado sem roteiro e através da improvisação dos atores. Além da equipe técnica inteira ser composta por 5 pessoas.

Todavia, não é só de defeitos que é composto o filme.

A direção de Iván Noel acerta em muitas vezes em sua sensibilidade e incrível sutileza. Em muitos momentos, a direção consegue fazer você compactuar com inverossimilhanças narrativas pela forma que orquestra a sequência. Vale ressaltar algumas ótimas composições feitas pelo diretor em alguns planos-sequências ao longo do filme. Ainda assim, vale ressaltar que essa sensibilidade se digladia a todo momento com planos que beiram o mal gosto: existe um inexplicável plano fechado de Paco colocando uma foto no bolso de trás de sua calça, e outro que se dá dentro de um cemitério, onde a composição de quadro faz com que toda empatia seja descartada.

O filme guarda todo seu ouro para seus vinte minutos finais, onde estão presentes suas sequências mais ‘elaboradas’ e que tocam em questionamentos mais complexos. Minha sugestão é que o espectador se mantenha firme até o final para descobrir o que terá acontecido durante o verão da adolescência de Pablo — aproveitando no processo a atuação do jovem Gonzalo Sánchez que consegue administrar de maneira incrível o papel complexo de Pablo. A direção de Noel no longa-metragem talvez cause estranhamento, mas pode surpreendê-lo positivamente em algumas de suas escolhas.