It: A Coisa (It, Andy Muschietti, 2017, 135 minutos)

Durante o tempo em que morei em Brasília, eu possuía algumas pequenas alegrias cotidianas. Uma delas era a Biblioteca Demonstrativa e toda a sua maxicoleção de obras do Stephen King. Foi nesse período que conheci e tive a oportunidade de ler a maior parte das obras dele, incluindo A coisa. Já posso antecipar que a edição que li era bastante diferente do relançamento da Suma das Letras — era dividido em dois livros, capa dura e estranha.

Algum cidadão havia desaparecido com o volume 1. Eu sempre chegava na estante dos livros do King, não via o volume 1 e levava outro livro. Isso aconteceu durante um período maior do que eu gostaria, mas, em um belo dia, o volume 1 e o volume 2 estavam lá. Assim que eu terminei de ler, A coisa havia se transformado em uma das minhas obras favoritas da vida.

Devo dizer que não sou muito fã do filme de 1990 como adaptação. Amo Tim Curry como Pennywise, é verdade. Entretanto, sempre achei que a história merecia mais do que um telefilme com um orçamento quase irrisório.

2015. É anunciado que IT ganharia um remake. Melhor ainda! IT ganharia um remake dirigido e roteirizado por nada mais, nada menos que o Cary Fukunaga — diretor da primeira temporada de True Detective. Desde 2015, eu fui aumentando minhas expectativas em relação a esse longa. Mesmo quando o Fukunaga saiu, chamaram dois diretores e ambos recusaram, parte do elenco foi mudado (incluindo o Will Poulter que iria viver o Pennywise), houveram atrasos na gravação e regravações posteriores. Não compararei o filme que chegou aos cinema com o longa de 1990 ou com o que poderia ter sido nas mãos do Fukunaga — mas caso você queira ver o roteiro original desse homão, clique aqui.

Chegamos em Andy Muschietti. Ele teve um trabalho bem ingrato em pegar a direção quando tudo a sua volta estava ruindo — Peyton Reed substituindo Edgar Wright em Homem-Formiga, alguém? Eu fui com meus dois pés atrás para ver o tal IT que ele dirigira.

E o Muschietti arrebentou.

Para você que não sabe do que se trata IT, eu faço uma sinopse. Após o desaparecimento de inúmeros crianças na provinciana cidade de Derry, no Maine, um grupo de amigos se unem para tentar descobrir a verdade por trás dos sumiços. A investigação os leva em direção a um rastro de sangue que termina em Pennywise, um palhaço que parece ser o responsável por todos os desastres que estão acontecendo na cidade. Desde séculos atrás.

Em relação a direção, reminiscências do Fukunaga são perceptíveis na condução de Muschietti. Do plano-sequência de apresentação das crianças na escola até toda a sequência final onde as crianças vão até a toca do Pennywise, tudo lembra bastante o seriado de investigação da HBO. Contudo, sem Guillermo del Toro o avaliando como fez em Mama, Muschietti teve mais liberdade criativa. Sua direção ainda tem uma pegada de fábula de terror, o que pode não agradar a todos. Acho que é um acerto para o filme, ainda mais focado durante a infância dos protagonistas.

O que nos leva a um dos principais trunfos do filme. A fotografia de Chung-hoon Chung, principal colaborador de Park Chan-wook. Ele consegue transitar perfeitamente entre uma sequência de terror absoluta para outra onde as crianças curtem uma tarde em um lago. Nas suas sequências, ele consegue mostrar o mal personificado no Pennywise e a pureza nos protagonistas em um mesmo plano. Talvez seja ele o responsável por conter todas as oscilações na narrativa de drama para terror, de terror para comédia, e de comédia para romance sem que a obra perdesse sua própria verossimilhança.

Juntos, Muschietti e Chung, conseguem construir sequências inteiras onde eles desconstroem e brincam com clichês do jump scare. Eles utilizam das sombras, luzes piscando, escuridão e, talvez o elemento que Chung mais utilize em suas obras, água. Essas sequências somadas ao estilo de direção fazem com que os expectadores se apeguem a todos os protagonistas e fiquem sempre com medo de sua abrupta morte, além de serem assustados momentaneamente pela aparição de alguma criatura.

Sobre o elenco, não há um que eu não queira destacar, porque todos estão incríveis. Do Bill Skarsgård que deu uma leitura completamente novo ao Pennywise até a Sophia Lillis que conseguiu dar o tom a única personagem feminina em um grupo de meninos, assim como a Elle Fanning em Super 8. Temos que falar também de Finn Wolfhard que está irreconhecível como o desbocado Richie, muito diferente de seu personagem em Stranger Things. Ele consegue produzir um dos elementos mais difíceis do gênero: o alívio cômico.

A trilha sonora original feita pelo Benjamin Wallfisch é um achado. Caso, você não lembre, escute novamente aqui. Uma versão satânica do The Langley Schools Music Project, contando com elementos como piano, violinos e um coral de crianças.

O resultado final de IT superou as minhas expectativas. Conseguiu mostrar o cerne da questão de Derry, onde as crianças tem que se virar por conta própria por conta de seus pais e mães relapsos. Pennywise seria uma manifestação do descaso dos responsáveis de cada um dos protagonistas. Por mais que tramas mais complexas do livro tenham sido apenas reduzidas como o todo o racismo sofrido por Mike ou a relação de Bill com sua bicicleta (por mais que tenham variados closes na Silver), eu acho que foi uma adaptação bastante fiel. Não sei como eles estão planejando a estrutura do segundo filme, ainda mais sem o Fukunaga para ajudar no roteiro, mas estou bastante otimista.

Afinal, a coisa deve ser revivida de 27 em 27 anos.

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