Liga da Justiça (Justice League, Zack Snyder, 2017, 120 minutos)

Ainda me lembro de como foi a minha ida ao cinema para assistir Batman vs. Superman, e toda a decepção que me atingiu durante toda a projeção. Talvez eu seja uma das pouquíssimas pessoas que ainda defenda Homem de Aço — o que eu ainda continuo pensando ser um excelente começo de um universo cinematográfico compartilhado entre os heróis –, mas não há como defender Batman vs. Superman. A cada segundo do filme é quase palpável o desespero da DC em tentar acompanhar todo a construção do Universo Cinematográfico Marvel que vem sendo desenvolvido durante anos. O resultado: queimou a largada. O desperdício de uma trama tão boa quanto o confronto do vigilante de Gotham contra o salvador alienígena é diluído em plots desinteressantes e resoluções medíocres (martha? o meu também é martha!).

Antes de começar a focar no filme da Liga da Justiça, gostaria de deixar dois pontos claros: 1. Não me venha falar que a versão estendida de 3 horas de Batman vs. Superman lançada em Home Video salva o filme, porque não salva; 2. Não comentarei sobre Esquadrão Suicida, porque pra mim esse desastre nuclear não merece nenhuma menção aprofundada.

É lançado Liga da Justiça. O filme que passou por vários problemas de produção como a necessidade de remoção digital do bigode de Henry Cavill e a regravação de um grande número de sequências por Joss Whedon. O filme é bom? Não. Contudo, as variadas mãos que foram moldando o filme durante seu conturbado processo acabaram formando um híbrido agradável, mas sem nenhuma personalidade.

Por conta da pressa do estúdio em apresentar seus heróis o mais rápido possível, o filme sofre com uma falta de ritmo e foco na maior parte inicial de sua projeção. Aquaman, Flash e o Cyborg são apresentados às pressas frente a ameaça iminente de um vilão que não consegue transmitir nenhum senso de perigo. Inclusive, toda a tentativa de tentar aprofundar esse novo trio de heróis que são jogados na trama só serve ao propósito de deixar a narrativa mais enfadonha.

Sabe as piadinhas que existem a todo instante nos filmes da Marvel e o pessoal reclama? Prepare-se. Sabe todo o senso de consequência das ações decorrentes da batalha final de Homem de Aço que foi mostrado em Batman vs. Superman? Esquece. Contudo, durante o ato final de sua narrativa, Liga da Justiça consegue ser um bom entretenimento — que é mais do que a DC havia proporcionado em seus últimos filmes. Devem ter aprendido com Patty Jenkins e sua Mulher Maravilha.

(fiquem pra cena pós-crédito, por favor!)


A partir daqui haverá spoilers.

Preciso falar sobre o que mais me incomodou dentre todas as falhas desse filme. O ponto mais fraco e que conseguiu mostrar para mim que esse universo cinematográfico da DC está tomando todas as opções equivocadas que eles podem. Sim, estou falando sobre o retorno dele próprio, o Superman.

Não sei se alguém ainda lembra do final de Batman vs. Superman e o velório do Clark Kent com a areia flutuando de forma cafona em direção aos céus. Estava ali a saída mais fácil para o retorno do super-homem. Contudo, o que eles construíram durante a narrativa de Liga da Justiça foi bem pior.

A humanidade entra em colapso após a morte de super-homem e, em um momento do filme, os heróis entram em consenso — há, todavia, a mulher maravilha no papel de voz da sabedoria entre eles — em trazer o super-herói de volta a vida. Essa decisão pode trazer uma aberração que pode destruir todo o planeta, caso algo dê errado; mas ainda parece ser a melhor escolha para os personagens visto que, aparentemente, o Super-Homem (dessa vez com letras maiúsculas) serve como bússola moral da sociedade.

Ok. Tudo bem. Vamos lá, então.

Eu havia aguentado todo o paralelo que eles haviam feito do super-homem ser considerado como o messias nesse mundo, onde ele é praticamente um deus invencível. Contudo, essa decisão meio que caga na cabeça da definição de herói como um pombo recheado de doenças acompanhado de uma risada maléfica.

Na minha visão, os super-heróis não podem ser bússolas morais para a humanidade. Eles podem, no máximo, dar início a uma conscientização e/ou mudança de atitudes individual. Tudo bem que estamos falando da DC Comics que possui como um dos principais heróis um vigilante milionário que sai pela cidade que controla e banca o justiceiro. Contudo, até na trilogia do Nolan que o Batman é utilizado, a moral de que a ideologia de um herói (por mais que, nesse caso, seja reacionária) vai além do indivíduo vestido de morcego é utilizada.

Mas não para a Liga da Justiça.

Usarei como exemplo duas HQs. Uma é do Deadpool — que nem super-herói é, vejam vocês. Em uma edição, o problema que o mercenário precisa resolver é impedir que uma mulher cometa suicídio. Vocês podem ler clicando aqui. A ideia de que um super-herói só serve para resolver problemas megalomaníacos contra super-vilões interplanetários vem sendo descontruído pouco a pouco nesses universos cinematográficos, mas ainda persiste. A DC cagou na Liga da Justiça, mas até em Batman vs. Superman eles haviam ilustrado tal ideia. A Marvel também vem contestando isso com seu novo Homem-Aranha.

A outra é a Superior escrita por Mark Millar. É pequeníssima (tem 7 edições) e tem como pedir emprestado para a internet. O seu protagonista é um garoto de 12 anos que sofre de esclerose múltipla e está na cadeira de rodas. Após o encontro com um macaco falante alienígena, ele acaba fazendo um pedido para se tornar o Superior (uma clara referência ao super-homem). Durante as edições dessa revista, o menino vai aprendendo o que realmente é ser um herói; e isso para mim que é o ponto alto da narrativa — por mais que o final dela seja excepcional também.

O mundo precisa aprender a não depender de heróis.