Matéria-prima

Texto originalmente publicado por um jovem Pedro em 2 de setembro de 2013.

Se você tem 9 anos na Europa, é provável que tenha filhos. Prometeram-lhe coisas que não se poderão cumprir. E como foi prometido tudo, você também prometeu. E, agora, você sabe que os que lhe prometeram coisas não poderão cumprir nunca e você, também, não vai poder cumprir aquelas coisas com as quais se comprometeu. Eram coisas importantes. Coisas que iam mudar o mundo. E você não vai poder cumprir.

Olá caro leitor,

Hoje gostaria de relatar uma experiência magia e transcendental que eu tive a oportunidade de viver no sábado passado (31 de agosto).

Para que você a entenda com precisão, eu terei que voltar até o dia anterior, sexta-feira. Como eu continuo sem o facebook, como comuniquei nessa postagem, minha rotina tem se resumido a: estudo para o vestibular, entrar no site do correio brasiliense, twitter, e-mail e mais estudo. Naquela manhã de sexta-feira, contudo, ao abrir o site do correio (importante jornal aqui de Brasília), eu me deparei com o seguinte título de notícia: “Cia de teatro coloca quatro garotos no palco encenando conflitos de adultos”. Não pude resistir ao impulso de clicar para saber mais sobre aquilo. A razão disso, eu conto: eu sou um escritor. Mais do que isso, a maioria das minhas obras incompletas tem como fio condutor personagens jovens enfrentando situações extremas. Somado a isso, muitos dos meus filmes favoritos como Stand By Me, Where the Wild Things Are, Moonrise Kingdom ou Pixote, a Lei do Mais Fraco partem da premissa de “colocar jovens encenando conflitos de adultos”.

Enfim, eu tenho essa teoria na minha mente (assim como muitas outras) de que dificilmente algo que se utilize dessa premissa consiga resultar em algo abaixo do espetacular. Abri a notícia e fiquei sabendo que se tratava de uma peça de uma companhia espanhola de teatro chamada “La Tristura” que fazia parte da programação do Cena Contemporânea. Cena Contemporânea, para aqueles que não sabem, é o nome dado ao Festival Internacional de Teatro de Brasília. E isso bastou para me convencer a juntar coragem para ir ao espetáculo. Eu explico, também: desde que eu vim morar na capital, há um pouco mais de três anos, virei um aficionado por todo e qualquer festival ou mostra. Retrospectiva Lars Von Trier, estou dentro! Hitchcock? Me beija CCBB! Mostra do Filme Livre? Diga quando você vai que eu vou atrás. Tarantino? Hell Yea! E, como fator agravante, eu não me lembrava de quando havia sido a ultima vez que eu tinha ido ver uma peça de teatro. O ingresso estava 10 reais, então, a hora era essa.

A peça: Matéria prima. De acordo com o jornal, a trama acompanhava quatro atores nascidos após o ano 2000 interpretando jovens adultos. Os medos, as angústias, os questionamentos, inerentes àqueles que rondam os 30 anos sendo trazidos à vida por símbolos da inocência. Um trabalho delicado. Em todos os aspectos.

No sábado de manhã, peguei meu vira-tempo e logo me arrumei para o dia longo a seguir. Aula de bateria, um encontro e a peça, em seguida. Eu não estava nem me preocupando com a peça durante a tarde, para falar a verdade. Estava me divertindo muito no meu encontro e, antes disso, já havia adquirido o ingresso. Quando anoiteceu, quase cheguei atrasado para o horário marcado. De fato, eu cheguei atrasado. Sorte a minha que houve minutos de tolerância e o espetáculo foi começar minutos depois de eu já ter me acomodado.

Minha experiência já começou no momento em que me sentei na poltrona. Das caixas de som, saia uma melodia hipnótica que servia ao propósito de transportar a plateia ao microcosmo onírico onde o espetáculo se passaria. No palco, apenas existia uma cama e nada mais. De quatro em quatro minutos, uma fumaça era jogada no cenário, deixando o ambiente com uma aura mais misteriosa.

Fonte: Instagram

No banco a minha frente, um menino de seis, sete anos, se mexia inquieto esperando o começo do espetáculo. Sua mãe tentava acalmá-lo em vão oferecendo uma garrafa de água. Eu fiquei impressionado de haver alguém dessa idade na plateia. A peça, por ser encenada em espanhol, era auxiliada por legendas. Fiquei pensando se aquele menino iria aproveitar o mesmo tanto que sua mãe ou eu.

Foi quando, após um áudio comunicando os patrocinadores do festival, as luzes diminuíram e minha experiência teve sua expansão. De início, um menino surgiu no palco através da fumaça e se deitou no chão (em uma espécie de cama imaginária feita pela iluminação). A luz criava um ambiente escuro e fúnebre. Sem camisa e parecendo indefeso, o menino começava seu monólogo sobre a vida virado de costas para o público. À medida que ele ia falando, eu tomava o primeiro choque (de muitos). Havia ali, um menino de 11, 12 anos, discorrendo sobre a efemeridade da vida e sobre a depressão de separações e amores. A cada palavra dita por ele e mostrada já traduzida por um projetor em um painel superior, a plateia (e eu) ia sendo levada pela aura melancólica e real do que o discurso dizia.

Após completar sua fala, o garoto ficava mudo. Os outros três intérpretes entravam e o outro ator do quarteto o pegava do chão e o carregava para a cama “real” como uma figura paternal. As duas atrizes o acompanhavam. Todos os quatro se acomodavam na cama e, após alguns instantes, uma das meninas se levantava e preparava dois golzinhos de rua com sapatos, voltando para o conforto da cama com os outros, em seguida. No painel, onde anteriormente havia aparecido a legenda, surge a palavra AMANHECER e as iluminação cavernosa dá lugar a luz clara de raios de sol.

Nesse momento, nos é revelada a dinâmica da peça. A história se passa durante um dia na vida daquelas quatro crianças.

Após o amanhecer, vemos os quatro atores levantando e começando a jogar bola como o que eles realmente são: crianças. Inclusive, está lá o menino que havia feito o monólogo inicial, se divertindo com os outros. A trilha sonora também está lá. Ela, auxiliada pela iluminação e cenografia, é o quinto personagem da história devido a sua grandiosa importância.

As cenas da peça se intercalam entre momentos infantis lúdicos e reflexões que funcionam como um soco no estômago do espectador.

Em um momento, vemos uma dupla de crianças pulando na cama e brincando de guerra de travesseiros. No outro, ouvimos (e lemos) um discurso sobre a origem da civilização e a inconstante psique do ser humano. Vemos as crianças brincarem com tintas, mas também vemos o isolamento de uma delas após servir o propósito das outras ao lavá-las. Em um momento, temos uma criança dançando ao som de uma música imaginária (cena que muito me lembrou de Little Miss Sunshine). No outro, um discurso sobre a construção de grandes expectativas que não são atendidas pela vida. Uma das atrizes canta Bird Of Prey do The Doors (ou você pode conhecê-la pela versão do Fatboy Slim, como preferir). Em seguida, sua companheira, vestida como a inocente chapeuzinho vermelho, discorre sobre a razão de não devermos ser coniventes com nenhum tipo de injustiça. Além, é claro, de dar uma aula sobre autoritarismo e ditadura. E tudo, é claro, embasado no mundo infantil em que presencia diariamente.

E tudo, é claro, dito por crianças.

Ao ENTARDECER, acompanhamos uma festa. Um casamento, na verdade. Onde os noivos e noivas são esses mesmos meninos e meninas. Uma mesa é acrescentada ao cenário. Acompanhamos um discurso sobre o amor e a vida. “Não posso dizer para você como viver sua vida. Contudo, posso garantir que há dias em que tudo parece funcionar do jeito que deve ser. E nele existe a música e nada mais”, nos é dito. Logo em seguida, uma dança entre as crianças. Os quatro loucos como nos são apresentados. Vemos ainda uma apresentação individual e ingênua que nos faz lembrar que, apesar de tudo, ainda estamos vendo crianças no palco. Nessa parte a música é essencial. Embalados por Tonight We Fly do The Divine Comedy, nós a vemos darem estrelinhas, fazerem poses autoritárias e dançarem sozinhas.

Ao ANOITECER, vemos um jantar. O jantar que nos apresenta a preocupação com o futuro, com o desconhecido. Essa parte da peça foi a que mais me tocou. Sou um vestibulando e sei do que eles trataram. Quando as crianças divagam sobre onde estarão daqui a dez, vinte anos; se ainda fazendo a peça ou separadas cada qual em seu emprego; nós as entendemos. Eu as entendi. O assunto aqui é tratado com um viés mais cômico, já que o tema é sério até para os próprios intérpretes da peça. Contudo, não deixou de dar um aperto no meu coração.

Eu sentia que a minha experiência se aproximava do fim. Já havia anoitecido. Contudo, já naquele momento, eu me sentia um ser humano mais completo.

Para coroar e finalizar aquela experiência quase de maneira transcendental, atingindo o próprio nirvana, a barreira entre atores e plateia, que foi confrontada durante toda a duração da peça, é quebrada. A parede que nos separa deles some nos minutos finais. Ao som de Perfect Day de Lou Reed, os atores nos encaram e, ao mesmo tempo, se despedem. Somos convidados a darmos uma ultima olhada naqueles rostos e, também, nos despedirmos. “Talvez devêssemos voltar a nós ver daqui a 100 anos”, fica o convite final.

Confesso que um suor hétero desceu pelos meus olhos. Fiz a única coisa que poderia fazer, que eu deveria fazer, juntei-me a plateia e aplaudi o que havia visto de pé. Durante três minutos.


Quero ressaltar o grande preparo que os quatro intérpretes receberam por parte da companhia para poder atuar. Se vocês derem uma lida na reportagem do Correio Brasiliense que, inclusive, conta com uma entrevista bem bacana com as quatro crianças; perceberão os problemas que a trupe teve que enfrentar até chegar ao que eu presenciei. Afinal de contas, quando a peça estreou, os atores possuíam apenas nove anos de idade. Uma das atrizes me surpreendeu. Consegui até fazer uma associação entre seus trejeitos e os da Fernanda Torres. Puta elogio.

Como já mencionei, essa peça me mudou não só como contador de histórias, mas como pessoa. Eu entrei um Pedro e sai outro. Eu queria que todas as pessoas pudessem ter a oportunidade de apreciá-la, mas, infelizmente, sei que isso não será possível. A companhia de teatro, La Tristura, veio aqui somente para três apresentações na Cena Contemporânea e mais duas para o Festival Filo de Londrina. Contudo, os ingressos para as apresentações do Filo já estão esgotados.

Quando eu fui comprar o meu, somente havia um lugar disponível. Eu dei sorte. Devo ter vivido o dia, mencionado por eles, onde tudo parece funcionar. Posso garantir que ouvi a música. Ah, ouvi.

Quem sabe após essa monstruosa aprovação por parte da plateia brasileira eles não voltem para mais alguns dias? Não custa sonhar.

Não tem o garoto que estava com sua mãe no banco em frente ao meu? Durante a peça, dei uma olhada de relance nele. Pela sua boca aberta e os olhos vidrados no palco, não foi somente eu que sai transformado daquele teatro.

Oh, it’s such a perfect day! I’m glad I spent it with you.

(Ah, é um dia tão perfeito! Fico feliz de ter passado esse dia com você).