Os Incríveis 2 (Incredibles 2, Brad Bird, 2018, 125 minutos)

Vamos ser sinceros: toda criança que viu ‘Os Incríveis’ (2004) em seu ano de lançamento esperou por sua continuação. A história de uma família de super-heróis que é obrigada por lei a se esconder nas sombras dialoga com um grupo gigantesco de espectadores em várias esferas diferentes. Eu não estou ileso dessa vontade. Talvez, essa tenha sido a única continuação que eu tenha realmente desejado de alguma franquia da Pixar — ‘Toy Story’ é uma exceção, pois cresci em meio a continuações. O meu nível de investimento com a franquia era tão grande que obrigou o jovem Pedro, que nunca foi um gamer, ir pedir emprestado o jogo ‘The Incredibles: Rise of the Underminer’ (2005) para o camelô mais próximo e jogá-lo compulsivamente em busca de uma pseudo-continuação. Por mais que o jogo realmente se passasse instantes após o término do filme e tivesse o Escavador (Underminer, no original) como vilão principal; ainda não era o que o Pequeno Pedro queria.

Pois bem.

Durante esses quatorze anos (!) que separam o filme original de sua continuação, a Pixar foi exemplar em baixar as expectativas de todos seus fãs em relação as continuações de suas obras. Vamos analisa-las: ‘Monstros S/A’ (2001) foi um filme que me marcou demais também. Contudo, foi uma surpresa para mim quando anunciaram uma continuação. Pior! Anunciaram um prequel. ‘Universidade Monstros’ (2013) por mais que tenha sido a forma mais segura de lucrar ainda mais com Mike e Sulley não se sustenta como filme solo e ainda cria algumas inconsistências narrativas com o original. Um desastre por mais que tenha o selo Pixar de qualidade e ainda seja bastante divertido.

Anos mais tarde, seria a vez de ‘Procurando Nemo’ (2003) ganhar sua continuação. A sensação que senti ao assistir ‘Procurando Dory’ (2016) foi a mesma que ocorria toda vez que o pequeno Pedro via as continuações mercenárias que a Disney lançava de seus filmes clássicos como ‘Tarzan e Jane’ (2002) ou ‘Mulan 2: A Lenda Continua’ (2004). Um filme que se importa mais em criar uma nova aventura e se esquece que existiu uma jornada original que a precedeu. Além de entregar um roteiro que beira o medíocre e aposta na apresentação de novos personagens e ambientações.

Não se deixe enganar pelas cenas fofas, ‘Procurando Dory’ (2016) não é tão bom.

Essas experiências ruins me fizeram indagar: será que a Pixar só conseguiria fazer continuações realmente boas de ‘Toy Story’? Nem comentarei sobre ‘Carros’ (2006) e seus derivados, pois é uma franquia que, confesso, nunca me despertou nenhum interesse. Talvez esse clima de incerteza tenha sido o principal responsável por ter me feito esperar até os 45 do segundo tempo para assistir a exibição de ‘Os Incríveis 2’ no cinema.


Seria um crime não reservar um espaço nesse texto para comentar sobre o curta-metragem que iniciou a sessão: ‘Bao’ de Domee Shi.

Tenho que deixar claro que não sabia da existência desse filme. Nenhum amigo meu que viu ‘Os Incríveis 2’ chegou a comentar sobre ele. Eu estava desprevenido e não esperava algo tão singelamente melancólico e real.

Para todos que tenham alguma dúvida que a Pixar costuma inovar em seus longas-metragens, eu indico que assistam seus curtas. Desde ‘Luxo Jr.’ (1986) que acabaria se tornando a mascote oficial da produtora, os filmes curtos da Pixar são um lugar de experimentação narrativa e estética. Ano passado, por exemplo, eles conseguiram humanizar objetos dos Achados e Perdidos em uma escola para tratar sobre bullying na gracinha que é ‘Lou’. Em 1987, eles também inverteram a expectativa de tudo que se espera de uma animação ao retratar a amizade entre o garotinho Melvin e um dinossauro em ‘A Story’.

Em ‘Bao’, um pão recheado da culinária chinesa é utilizado como metáfora de uma das maiores dores da maternidade. Somos apresentados a um casal chinês que parece ter uma relação distante. Um dia, a mulher descobre que um de seus ‘baozi’ havia ganhado vida e, ao cria-lo, começa a construir uma relação muito próxima a ele. É bom não comentar muito sobre o filme e deixar que o espectador vá absorvendo aos poucos sobre o que a história realmente se trata. É de se admirar um tema complexo desses ser retratado de forma tão lúdica e ser facilmente identificável por toda a audiência. Já assisti muitas tentativas de retratar em histórias o sofrimento da protagonista de ‘Bao’, mas quase nenhuma delas conseguiu fugir da pieguice ou lugar-comum.

Não me surpreenderia se, como ‘Lou’, o curta fosse indicado para o Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação desse ano. Mais que merecido.


Quando John Lasseter afirmou ao IGN que ‘Os Incríveis 2’ começaria instantes após os acontecimentos do primeiro filme, ele não estava brincando. A promessa é cumprida de uma forma que eu não conseguiria imaginar nem em meus maiores devaneios. Vemos o desenrolar da batalha da família incrível com o vilão Escavador atuando como um grupo de heróis pela primeira vez em público.

Logo nesse início, eu quero frisar a dificuldade reservada aos realizadores ao optarem por essa escolha. Em seu livro ‘Save the Cat! The Last Book on Screenwriting You’ll Ever Need’ (2005), o roteirista Blake Snyder dedica um capítulo inteiro para discorrer sobre a expectativa da audiência. Ela é resumida em uma frase que eu considero bastante efetiva: “Give me the same thing… only different!” [Me dê a mesma coisa… só que diferente!] Ao começar uma narrativa onde a conclusão da anterior havia acabado, os roteiristas correm um grande risco de minimizar as conclusões do filme anterior além de descaracterizar personagens construídos tão efetivamente na história pregressa. Sobre isso, eu quero dizer que eles foram muito eficientes. A continuação mantém uma coesão moral (a qual discorrerei mais a frente), além de servir como um contraponto temático a aventura original; expandindo o universo narrativo do mundo dos super-heróis sem ignorar tudo que já havia sido mostrado anteriormente.

Uma decisão que eu achei bastante importante foi considerarem o universo expandido criado pelo curta-metragem ‘Ataque do Zezé’ (2005). Todo o diálogo inicial da continuação envolvendo o interrogatório com Toninho é bastante familiar para todos que acompanharam a babá Karen.

Queria escrever sobre três pontos que considero importantes sobre o filme.

O primeiro, e talvez o mais facilmente perceptível, é o papel crucial da mídia durante a narrativa. Não é um elemento novo, já havia sido apresentado anteriormente e tido sua importância para a história. Contudo, em ‘Os Incríveis 2’, ela é mostrada como um instrumento (de manipulação da opinião pública, é verdade!), mas que pode ser usada de acordo com ideais particulares — sejam eles benéficos para a maioria ou não. Assim como ‘Homem de Ferro 3’ (2013), o vilão principal aqui serve apenas como um ator para modelar a opinião da população sobre algo. A política aqui também é algo intrínseco tanto na solução do problema-mor (legalização dos heróis novamente), quanto em menor escala para a mudança de visão que os humanos possuem sobre os heróis (os salvamentos feitos pela Mulher-Elástica da embaixadora e do prefeito).

O segundo ponto importante é relacionado a toda a trajetória do Sr. Incrível e seus filhos. Durante o primeiro filme, acompanhamos o Sr. Incrível fugindo de sua função paterna para atuar ilegalmente como herói e se distanciando de sua família. Nada mais justo que, durante esse segundo filme, sua trajetória seja inversa. Aqui, ele precisa se transformar no herói de seus próprios filhos ao acompanhar o crescimento do Zezé, compreender os problemas amorosos da Violeta e auxiliar nos problemas escolares do Flecha. Isso é um dos pontos mais incríveis do filme para mim por dialogar diretamente com o cerne da franquia. Os protagonistas d’Os Incríveis nunca precisaram aprender a ser heróis. Eles possuem superpoderes e lutam contra o crime, eles já se encaixam nessa categoria. A jornada deles sempre foi sobre aprender a serem uma família com membros superpoderosos. Nada exemplifica mais isso do que a jornada do Sr. Incrível e filhos nesse filme.

O terceiro ponto é sobre a representatividade feminina durante a narrativa. Diferentemente das outras continuações da Pixar que eu citei no começo do texto, ‘Os Incríveis 2’ conseguiu acompanhar as mudanças dos últimos anos e acrescenta-las em seu enredo sem que, para isso, precisasse descaracterizar o cerne de sua narrativa. A Mulher-Elástica, desde o princípio, demonstrava ser uma feminista de carteirinha. É dela uma das melhores frases ditas durante a entrevista inicial do primeiro filme: “Deixar o mundo ser salvo pelos homens? Claro que não! ”.

Contudo, o seu espaço e importância na trama diziam muito sobre a época e sociedade em que o filme havia sido lançado. Essa narrativa não iria dialogar, graças a deus, com o mundo em que vivemos contemporaneamente onde as mulheres tem recebido o protagonismo merecido. Assim como o Sr. Incrível necessitou fazer uma jornada inversa nesse filme, a Helena precisa de sua própria caminhada para acreditar nos heróis novamente. Nessa rota de descobrimentos, ela se vê como uma potência importante de reconhecimento para as outras mulheres — tanto dentro de tela (como é o caso da Void) quanto fora de tela (por ser a única a bater de frente com o Sr. Incrível de igual para igual e ser um espelho para a platéia feminina).


SPOILERS A SEGUIR!

Esse terceiro ponto ainda pode englobar a verdadeira vilã. Por qual razão eu acho tão incrível (e corajosa) a escolha da Evelyn? Bem. Penso que os criadores possuíam total ciência da obviedade da surpresa desse plot que funciona quase como uma repetição da estrutura utilizada no Gurincrível/Síndrome do original. Durante o filme inteiro, ainda mais durante a captura do Hipnotizador pela Mulher-Elástica (em uma sequência que lembra bastante a captura do Buffalo Bill em ‘O Silêncio dos Inocentes’ (1991)), os realizadores jogam na cara da audiência essa resposta — nessa sequência específica, por exemplo, é possível ver a foto da falecida mãe de Evelyn fixada em um quadro na parede. Contudo, assim como o primeiro filme seguia a máxima It’s a man’s man’s world onde — do protagonista até o vilão — todos eram homens, acho benéfico a representatividade ser estendida até a antagonista. Melhor que isso! A forma como Evelyn se mostra sempre ofuscada por seu irmão até o ponto onde percebemos que, na realidade, ela havia se cansado e feito o vilanesco plano sem seu conhecimento — detalhe que surpreende até a própria Mulher-Elástica.

‘Os Incríveis 2’ se mostra uma eficiente continuação além de se mostrar consciente nas mudanças sociais contemporâneas. O filme consegue desenvolver ainda mais seu plot principal entre os membros superpoderosos da família Pêra sem deixar de ser um entretenimento de primeira. E se o Michael Giacchino não ganhar um Oscar de Melhor Trilha Sonora esse filme, eu não respondo mais por mim!