Pequenos Espiões 3: Game Over (Spy Kids 3-D: Game Over, Robert Rodriguez, 2003, 84 minutos)

Já no ano seguinte de ‘A Ilha dos Sonhos Perdidos’, Robert Rodriguez lançou o que fora inicialmente idealizado como o capítulo final da franquia Pequenos Espiões — o que, para todos nós habitantes desse futuro distópico de 2018, sabemos não ser o que realmente ocorreu. A narrativa, entretanto, fora adaptada de outra ideia que o diretor texano possuía na época: uma ficção-científica infantil ambientada dentro de um videogame. Essa adaptação talvez tenha sido um dos elementos que contribuíram para a falta de personalidade do filme. Vamos analisar a aventura em terceira dimensão dos Cortezes (the guy!) para compreender melhor a razão desse filme ser um eficiente final de trilogia, mas uma obra standalone medíocre.


Através de um início pautado em elementos de filmes noir descobrimos que Juni realmente se aposentou de sua vida de espião. Ele desenvolve sua carreira de investigador particular autônomo através de pequenos casos — vale lembrar que era exatamente pelo que os irmãos haviam batalhado arduamente contra no filme anterior. Durante esse começo, além da primeira aparição de uma pequena Selena Gomez, nós descobrimos que a OSS tenta entrar em contato com o menino inúmeras vezes e que o mesmo se mantem distante do resto de sua família espiã.

Uma jovem Selena Gomez em ‘Sin City: A Spy to Kill For’.

Ao ser convocado por Devlin, atual presidente dos EUA e ex-chefe da OSS, Juni descobre que sua irmã teve sua mente aprisionada em um jogo de realidade virtual chamado ‘Game Over’ — alô, Tron: o Legado! Sua missão, então, consiste no resgate de Carmem e na desativação do jogo ainda em versão beta para impedir que Toymaker, seu criador, domine a mente de milhares de crianças atraídas pelos prêmios e riquezas infinitas para aquele que alcançar o final do videogame — alô, Jogador Nº 1!

Tenho que começar destacando minha decepção a todo o desenvolvimento de personagens que ocorre durante esse terceiro filme. Eu lembro que isso incomodou demais o pequeno Pedro quando foi ao cinema, por mais que ele não entendesse a razão tão claramente quanto agora. Todos os personagens são relegados a pequenas participações especiais ou a descaracterizações totais do que se havia construído na franquia até o momento. O cerne do filme, inclusive, a dupla de irmãos Cortez, tem menos de meia hora juntos em tela. Personagens importantes, como os pais, são relegados a meros Deus ex machinas ao final da projeção. O roteiro, ao contrário de seu anterior, parece mal acabado e com reviravoltas forçadas.

Talvez, se formos analisar a franquia baseada nesses três filmes, o personagem que possua a curva dramática mais desenvolvida seja Donnagon Giggles. No primeiro filme, ele é apresentado apenas como um pequeno coadjuvante; um refém a ser libertado. Já no segundo longa-metragem, entramos em contato com outro lado do homem: um vilão que é promovido a chefe da OSS. No fechamento da trilogia, ele é responsável por um dos importantes setores da organização e auxilia Juni em sua missão. Sobre a OSS e Donnagon, eu encontrei a seguinte curiosidade:

A organização de espionagem apresentada nos filmes é chamada de OSS. As iniciais parecem ter sido derivadas do Escritório de Serviços Estratégicos (Office of Strategic Services, no original), uma antiga organização de inteligência americana que atuou durante a Segunda Guerra Mundial e que mais tarde evoluiu para a CIA. Note que há um personagem chamado Donnagon Giggles, referente a William Joseph Donovan, o diretor do OSS real. O que as iniciais significam no universo do Spy Kids nunca é especificado na tela, mas, de acordo com um dos livros, elas representam a Organização de Super Espiões (Organization of Super Spies).

Outra coisa que me incomodou bastante enquanto eu revia o filme foi o papel relegado às personagens femininas. O número delas na história é irrisório. É tão baixo que podemos contar nos dedos de uma mão. Pior! No ÚNICO diálogo que temos entre duas dessas personagens (Demetra e Carmem), elas falam sobre HOMENS. Sobre o Juni, mais especificamente. Muito diferente de toda a relação construída entre Gerti e Carmem no filme anterior. Isso só serve para intensificar ainda mais a falta de representatividade em todos os filmes — não somente os pertencentes a franquia, mas em todos os filmes infantis do diretor analisados.

Pra piorar ainda mais, o protagonismo é dado inteiramente para Juni. O filme o transforma em um personagem que está sempre sem rumo e só consegue descobrir o óbvio quando alguém aponta pra ele — geralmente, o avô. Eu convido todos a observarem quantas vezes alguém o manda fazer algo e isso acarreta a sua vitória. Um protagonista que não possui nenhuma mudança importante ao fim da narrativa e que perde espaço para o seu avô (Montalbán utilizando uma armadura feita em CGI) sempre que contracenam. Parecem esquecer que um dos pontos altos dos filmes anteriores era a dinâmica existente entre os dois irmãos.

Sobre o antagonista do filme, eu só posso dizer que, em nenhum outro lugar, veremos novamente o Sylvester Stallone sendo o vilão (!) além de fazer cinco (!!) personagens diferentes. O(S) papel(eis) renderam ao ator uma Framboesa de Ouro como ‘Pior Ator Coadjuvante’ — o que o torna um dos maiores vencedores da anti-premiação com 10 prêmios.

Stallone no método.

Falaremos agora sobre o maior chamariz utilizado pela campanha de divulgação do filme na época do lançamento: o 3D.

A ideia embrionária da técnica surgiu em 1838 com o aparelho idealizado pelo cientista Charles Wheatstone: o estereoscópio. Reza a lenda que a primeira incursão do 3D no cinema fracassou em seu objetivo de impressionar a audiência — o longa-metragem silencioso e em preto e branco ‘The power of Love’ exibido apenas duas vezes em 3D no ano de 1922. Na década de 1950, o cinema 3D iniciou sua primeira era de ouro com o lançamento do filme independente ‘Bwana Devil’ (1952). Odiado pela crítica, o filme despertou a vontade do público em assistir mais filmes em 3D. ‘A casa de cera’ de 1953 também foi um marco por ser considerado o primeiro filme 3D colorido e com som estéreo. O interesse do grande público não durou por muito tempo em decorrência da diferenciação de preço dos ingressos para as sessões (chegando a custar o dobro de uma sessão normal!), a náusea aliada à dor de cabeça como efeitos colaterais das exibições e o crescimento das televisões nas casas das famílias.

Na década de 1980, houve um ressurgimento de filmes 3D devido, em grande parte, a descobertas de novas formas de projeção como o IMAX. A maioria dos filmes que se utilizavam dessa técnica ficava reservada a exibições em parques temáticos dos grandes estúdios como a atração da Disney ‘Captain EO’ (1986) dirigida por Francis Ford Coppola, tendo George Lucas na produção executiva e estrelada por Michael Jackson.

COPPOLA + GEORGE LUCAS + MICHAEL JACKSON + 3D = ?

No início do novo milênio, apenas 1 ano antes de ‘Pequenos Espiões 3D: Game Over’, foi lançado o curta documental ‘Space Station 3D’ que também é considerado um marco no desenvolvimento dessa tecnologia por ser o primeiro filme 3D em live-action rodado no espaço.

O processo utilizado por Robert Rodriguez em ‘Game Over’ foi o mesmo usado pelo diretor James Cameron em ‘Fantasmas do Abismo’ (2003), longa-metragem em IMAX, embora a projeção seja diferente entre os dois. Cameron usou a projeção polarizada que, na época, somente poderia ser exibida em um número reduzido de cinemas pela necessidade de um projetor especial. Rodriguez optou pela tradicional projeção anáglifa (notável por seus óculos com lentes vermelho-escarlate e azul-ciano) e, por conta disso, alcançou uma plateia muito maior.

Com o diretor ainda em posição de aprendiz na feitura desse tipo de filme, o espectador consegue perceber facilmente o caráter experimental de alguns planos ou sequências. Nem o fato de estar desbravando uma “nova” tecnologia faz com o diretor evite o acumulo de funções rotineiro e sua esperada equipe reduzida. Penso que, por priorizar o entretenimento da nova tecnologia ao invés de uma narrativa concisa como vistas nas outras obras, o filme perde bastante do que poderia ser.

Nas referências visuais, o diretor volta a trazer marcos de filmes de ação da década de 1980. Dessa vez, ele traz para o universo infantil o longa-metragem ‘Fuga de Nova York’ (1981) e o relógio com a contagem regressiva usado pelo personagem do Kurt Russell.

‘Fuga de Nova York’ (1981) e ‘Pequenos Espiões 3: Game Over’ (2003): relógios parecidos.

Todavia, não podemos reclamar de que a obra entrega mais do mesmo para sua audiência. Assim como a sequência passada, ‘Pequenos Espiões 3: Game Over’ guarda um frescor e encantamento advindo de novidades — tanto narrativamente quanto tecnicamente. Assim como a ilha habitada por híbridos de animais era completamente diferente da missão de resgate parental do primeiro longa-metragem, o jogo de realidade virtual que as crianças desbravam aqui é diferente de tudo que já havia sido apresentado na franquia até então. Como disse lá em cima, o filme consegue cumprir o seu papel como encerramento de uma trilogia. Todos os personagens apresentados nos dois primeiros filmes retornam para o confuso clímax e a moral familiar que une as obras da franquia volta a ser sublinhada.

Nas cenas pós-créditos, como se para atribuir um tom definitivo de conclusão para saga, são mostradas as audições dos dois protagonistas para o primeiro filme. Um final certeiro carregado de nostalgia.