Peter Pan (Pan, Joe Wright, 2015, 111 minutos)

Sabe aqueles fãs chatos da terra média? Aqueles que gritam no cinema por qualquer mudança, por menor que ela seja, de alguma informação ocorrida durante a transposição do livro para a tela do cinema? Esse sou eu com Peter Pan. Desde o dia em que eu li o livro há alguns anos e resolvi saber um pouco mais sobre o escritor, o livro original virou um cânone. Nesse cânone haviam coisas que, eu sabia, nunca iriam ser adaptadas não importando o quão legais eram — como toda a relação do Peter Pan com os garotos perdidos onde ele matava um deles toda vez que os garotos excediam um número estipulado de indivíduos — e haviam coisas básicas que eu admirava como a rivalidade do Peter e o Capitão Gancho.

Pois bem.

Quando ouvi falar dessa tentativa (imoral?) de reinvenção da origem do garoto que não queria crescer, eu dei dois passos para trás. Enquanto por um lado era um absurdo, pois iria mudar tudo que estava lá, lindo, bonito e eficiente (sem que ninguém houvesse reclamado por décadas e décadas); por outro, era uma tentativa corajosa e (bem ou mal) necessária. Existem incontáveis adaptações da mesma história em desenhos animados, peças de teatro (a história surgiu assim, né?), living actions, minisséries, quadrinhos, etc. Algo novo é sempre bem-vindo.

Por que eu escrevi isso tudo? Só para afirmar que quando entrei na sala de cinema para ver o novo filme de Joe Wright, eu estava com o coração aberto. Eu estava totalmente receptivo para qualquer coisa que ele me jogasse na cara. Contudo… Lá vamos nós.

A película inicia dando todo o pano de fundo para a famosa história do herói escolhido, predestinado. Uma mulher deixa um bebê na porta de um orfanato junto a uma carta. Mais a frente na trama, ao sabermos o conteúdo da mesma, tomamos conhecimento que o menino estava destinado a fazer coisas grandiosas, salvar pessoas e todo esse mumbo-jumbo que nos dias atuais é intragável. Antes do primeiro ponto de virada, o roteiro já me fez contorcer um pouco na poltrona. Eles até tentam concertar isso no decorrer da narrativa ao mostrá-lo se tornando um personagem destemido, mas o estrago já havia sido feito. Peter (Pan!) é um herói predestinado a ser herói.

A história do filme se passa, ao menos no mundo real, no período da Segunda Guerra Mundial. BAM! Como assim? Podemos supor que a Terra do Nunca tem propriedades que podem acarretar em uma viagem temporal. Contudo, se isso realmente for se encaixar em algum momento com a história já conhecida da Wendy, implicaria que Peter é de um período posterior cronologicamente aos dos irmãos Darling. O que implicaria que ele teria mais conhecimentos sobre a logística (tanto tecnológica quanto social) do mundo real do que a menina. O que faria com que ele não ficasse surpreso a cada fato que a Wendy contasse sobre a sociedade de fora da Terra do Nunca. Todavia, podemos ignorar esse fato específico supondo que o Peter é um psicopata (o que ele realmente é no livro), ou que ele acabou esquecendo de tudo da sua antiga vida ao passar anos longe da civilização. Mas isso tiraria todo o peso da espera de Peter pelo crescimento da filha da Wendy ao final do livro original. Uma coisa irrelevante? Acho que não.

O conflito Peter vs. Capitão Gancho é totalmente posto de lado aqui. No entanto, dos males o menor. Eles começarem como aliados contra o Barba Negra pode ser adicionado a trama sem maiores complicações. O fato de não colocarem nenhuma dica de que ele fora imediato do Barba Negra e, pior, o transformarem em um marinheiro inexperiente; não. Quando digo que esse tópico é o menor dos males, muito se deve ao esforço do elenco ao dar vida ao seus personagens. Levi Miller dá a luz a um carismático Peter (não ao Peter Pan, apenas a um Peter); Garrett Hedlund está bem à vontade em seu papel de Gancho, e Rooney Mara consegue extrair leite de pedra com as falas que dão para Tiger Lily. Contudo, eu queria saber quem foi o indivíduo brilhante que ouviu Hugh Jackman cantar em Os Miseráveis e achou uma excelente ideia o colocar para cantar novamente? Ao vermos o Barba Negra na exibição temos a impressão que o ator ficou entediado na metade do cronograma e largou de mão atuar.

Tenho que pontuar duas coisas excepcionais no filme, entretanto: o departamento de direção de arte e de efeitos visuais. Eles conseguiram ter uma união perfeita. O filme tem inúmeras texturas que funcionam de forma surpreendentemente boa, uma surpresa em uma produção onde nada parece entrar em harmonia (ou você acha que os piratas cantando Smells Like Teen Spirit e Blitzkrieg Bop não destoou nem um pouco do resto da obra?) Destaque para quando o passado é mostrado tanto no tronco da tribo quanto no lago dos crocodilos. Coisa belíssima de se ver.

Ao final da projeção, fica aquela sensação de que eles imaginaram o filme como uma trilogia que, após o atual fracasso de bilheteria do longa, pode nunca acontecer. O que acabou ocultando certos detalhes da trama, acrescentando outros (o que foi o romance da Tiger Lily com o Gancho? Alguém me explica?), e transformando o filme em um híbrido maldito que não agrada nem as crianças que não sabem da história original do Peter, nem os adultos que já sabem.

(haviam comentado comigo que Pan seria equivalente ao Mad Max para crianças. Só esqueceram de comentar qual Mad Max que era. Esperei um Estrada da Fúria e o que eu vi estava mais para Além da Cúpula do Trovão).

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