¡Primaria! (Iván Noel, 2010, 107 minutos)

‘Primaria’ me surpreendeu de todas as maneiras possíveis. O choque inicial se deu, é claro, em decorrência do gênero do filme. Após as duas últimas obras de Ivan Noel que havia assistido, eu estava esperando mais um drama intimista. Contudo, ‘Primaria’ está bem longe de ser um drama e, por mais que o diretor ainda consiga traçar uma narrativa bastante pessoal, possui um catálogo de inúmeros personagens.

A história do filme foi escrita por Ivan Noel após ele decidir ensinar arte para alunos pertencentes a faixa-etária dos 7/8 anos de idade durante o período de um ano. Ele condensou toda essa sua experiência em um roteiro e chamou as mesmas crianças para as quais havia dado aula para atuarem em seu filme. Noel diz que todos os fatos presentes na obra não foram inventados por ele, mas que aconteceram. Na realidade, isso é o que menos importa para o filme. O aspecto fundamental é que as características da direção de Noel e suas câmeras na mão acrescentam e muito a esse aspecto documental almejado por ele.

‘Primaria’ é uma típica comédia que passaria na sessão da tarde — e faria sucesso. Seu protagonista, interpretado mais uma vez por Francisco Alfonsin, é um educador com várias distinções acadêmicas e que resolve voltar a lecionar Artes para uma turma do primário. A narrativa se passa, então, dentro do ambiente da instituição escolar. O que, para mim, foi uma sacada de gênio. Durante todo o filme, vemos apenas relances da vida “exterior” dos personagens — assim como é a realidade na escola. Descobrimos somente pequenos detalhes sobre os responsáveis das crianças através das atividades feitas pelas mesmas em sala de aula. Sobre os trabalhadores do colégio paira uma persistente aura misteriosa.

O quadro de funcionários dessa escola possui as conhecidas figurinhas carimbadas: uma diretora relapsa, mas que exige uma mudança de postura do professor sempre que recebe alguma reclamação por parte dos responsáveis; uma educadora que tenta aplicar uma didática de ensino mais personalizada para as especificidades de cada turma, mas que enfrenta resistência da direção; uma orientadora educacional com uma visão da psicanálise bastante distorcida; uma professora com bastante tempo de ensino e que parece já estar desacreditada na profissão; entre outros. Vemos durante toda a projeção esses arquétipos serem desconstruídos (mas só por pequenos momentos), enquanto temos o vislumbre do que habita por baixa da fachada carrancuda desses funcionários.

Sobre os alunos, eu prefiro guardar a surpresa para a projeção. Posso adiantar que todos são “personagens” carismáticos e podemos perceber a delicadeza da direção em cada um dos planos. As crianças parecem estar se divertindo durante todas as sequências ao encenarem uma versão mais caricata das próprias personalidades. As melhores sequências do filme pra mim, inclusive, são decorrentes dos devaneios desses personagens-mirins. O melhor exemplo disso é quando o nariz de um menino que possui hiperatividade começa a sangrar e ele imagina toda a situação com uma proporção bem mais grave do que realmente é.

É um filme realista em mostrar como ocorre a troca de conhecimentos em sala de aula. Não se utiliza dos clichês dos filmes do gênero que mostram a grande transformação feita horizontalmente pelo professor aos seus alunos. Pelo contrário, percebemos conforme a narrativa se desenrola que o processo é verticalizado e que um professor aprende tanto com os alunos quanto eles aprendem com o educador. Uma das visões mais realistas sobre a sala de aula que eu já vi — ao menos, em uma ficção.

Das três obras do Noel, essa sem sombra de dúvidas é a minha favorita.

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