Sinistro (1ª Temporada, 1999)

Assisti ao primeiro filme de “terror” da minha vida quando eu era muito novo. Foi ‘A noiva do Chucky’ (1998). Tudo bem que, hoje em dia, eu riria na cara de quem se atrevesse a considerar a obra pertencente ao gênero. Contudo, para um menino de 5 anos, foi um choque acompanhar cenas como o boneco arrancando o piercing do mamilo de alguém. Esse primeiro contato com o terror fez com que minha cabeça explodisse e eu me transformasse em um aficionado em obras semelhantes.

Corta a cena. Estou morando em uma vila de residências no município de Manaus. Meus pais haviam acabado de assinar uma novidade de outro mundo para nossa residência: a televisão a cabo. Por conta dela, agora nós possuíamos vários canais. Um deles em específico era o responsável por um ritual que eu realizava diariamente e que consistia em: esgueirar-me durante a noite para a sala, ligar a televisão no volume mais baixo possível para não acordar ninguém e ver três programas seguidos. Esse canal era o saudoso Fox Kids — transformado em ‘Jetix’ e, depois, em Disney XD. Esses meus três programas favoritos consistiam na faixa de terror do canal: ‘Goosebumps’, ‘O Colégio do Buraco Negro’ e ‘Sinistro’. Eu possuía dois problemas com ‘Sinistro’: a) ele era o último que era exibido e, com isso, na maioria das vezes eu dormia antes dele começar; e b) o canal tinha a péssima mania de repetir os mesmos episódios sempre.

Antes de entrar propriamente no seriado, eu queria destinar esse parágrafo aqui para falar um pouquinho sobre terror direcionado para crianças. Atualmente, eu estou acompanhando uma masterclass com o R.L. Stine — autor de livros de terror para o público infantil, incluindo os que deram origem ao seriado ‘Goosebumps’. Em seus vídeos, ele dá excelentes dicas, mas duas delas me ajudaram a pensar nas características específicas que funcionam para esse público-alvo. A primeira e mais importante é: a morte não preocupa tanto as crianças quanto os mais velho. Em um terror rotineiro, a iminência da morte do protagonista faz com que nos coloquemos em estado de tensão e medo. Essa reação não ocorre com as crianças. A segunda se refere aos finais: sempre crie um final feliz. R. L. Stine compara seus próprios livros a montanhas-russas, onde a criança sabe que enfrentará doses altas de adrenalina, mas será deixada sã e salva ao final. Ele, inclusive, conta o causo que ocorreu quando criou um livro com um final onde a protagonista terminava injustiçada e foi obrigado, através das centenas de cartas que recebeu de seus pequenos leitores, a escrever uma continuação para “concertar” o estrago cometido.

Dito isso, vamos falar sobre ‘Sinistro’.


Dois irmãos viajam através das terras norte-americanas enfrentando seres sobrenaturais e tentando reencontrar o pai deles. Parece familiar? 6 anos antes de ‘Supernatural’, a Disney resolveu produziu seus primeiros seriados em live-action para o seu canal de televisão. Nessa primeira leva de produções, o lar do Mickey Mouse investiu em uma série com um tom peculiar envolvendo espíritos, alienígenas e uma banda de rock. Foi assim que, em 1999, ‘Sinistro’ estreava no Disney Channel.

Sua primeira temporada composta por 13 episódios é protagonizada por Fiona Phillips, uma menina ligada ao paranormal e que mantém um site/fórum na internet onde busca por lendas e acontecimentos estranhos ocorridos nos lugares onde passa. Ela vive em um ônibus, onde acompanha a sua mãe rockstar durante sua turnê pelos EUA. Com ela também viajam Jack Phillips, seu incrédulo irmão mais velho; e Clu Bell, amigo leal e filho do roadie e da empresária da banda, mas não muito esperto. Uma tragédia envolvendo a morte do patriarca em um acidente de carro também persegue cada um dos membros da família da menina que preferem lidar com o luto cada um a sua maneira.

Logo em seu episódio piloto, a série já mostra seus pontos fortes. Nele, a protagonista é atormentada por um fantasma que habita o galpão onde sua mãe realizará sua apresentação. Fiona descobre que a assombração possui alguma relação com as centenas de mortes decorrentes do naufrágio (real!) do SS Eastland. A narrativa consegue construir uma ótima apresentação de cada um de seus personagens, além de um desenvolvimento bastante acertado da criatura do episódio. Por mais que possua uma atmosfera envolta em baixo orçamento, a direção creditada ao Shawn Levy, responsável pelos melhores episódios de ‘Stranger Things’, consegue manter a audiência interessada em toda a história referente ao drama real da família envolta em luto, ao mesmo tempo em que consegue manter a atmosfera de tensão durante os momentos sobrenaturais.

O tema que permeia essa temporada inicial é, sem sombra de dúvidas, o desaparecimento de uma pessoa amada. Por esse ser o medo que a protagonista, sua mãe e irmão são obrigados a lidar após a morte de seu pai; as criaturas e aventuras vividas por ela orbitam o problema com o objetivo de auxiliá-la a superá-lo. De e-mails que preveem um terrível acidente de carro a uma triste história envolvendo a amizade entre um humano e o Pé Grande, todas as aventuras vividas por Fiona possuem paralelo com sua dor mais profunda.

O catálogo de criaturas e eventos sobrenaturais ocorridos durante a série também é bastante variado. Entramos em contato desde fantasmas, alienígenas e gremlins; até anjos da morte, buracos de minhoca e will o’ the wisp. Essa última criatura (que só conheci pelo seriado) é, inclusive, responsável pelo último episódio da temporada e um dos meus favoritos da série. Nele, Fiona e seu irmão são obrigados a confrontar o luto que possuem pela morte do pai. Além de um excepcional desenvolvimento de personagens, ainda entramos em contato mais profundamente com a história macro da série; dando a entender que o acidente envolvendo o falecido pai da garota possui alguma relação com as criaturas sobrenaturais que a Fiona entra em contato durante suas aventuras.

‘Sinistro’ se mostra, até sob uma ótica contemporânea, como uma aposta arriscada feita pela Disney. Seus temas pesados e sua atmosfera incômoda podem deixar alguns pais assustados. Contudo, talvez seja exatamente esses diferenciais que fizeram com que a série alcançasse tanto sucesso em sua época e criasse uma legião de fãs fieis — continuam conversando sobre ela até hoje. Os princípios do R. L. Stine se encontram presentes aqui também. Contudo, muitos dos episódios da série possuem um final agridoce fazendo com que, através do desenrolar da trama, os personagens possuam cada vez mais coisas a perder em suas jornadas.

Assim que terminei a primeira temporada, eu já corri para ver a segunda. Talvez isso seja um ótimo indicio para deixar claro nesse texto o quanto gostei dela — visto que não curto tanto seriados. ‘Sinistro’ acima de tudo é uma série divertida que não menospreza a inteligência de seus espectadores. O que possibilita ser uma ótima diversão até para mim que teoricamente estou bem longe do seu público-alvo.