Super Dark Times (Kevin Phillips, 2017, 100 minutos)

Esse foi um dos raros casos onde eu assisti um filme sem saber a sinopse, nem ver nenhuma still; só pelo título. Podemos concordar que Super Dark Times é um nome que faz você ver o filme, nem que seja só pra comentar “isso nem foi tão dark assim” ao final da projeção, certo? Contudo, o longa-metragem de estreia do Kevin Phillips é um dos maiores achados do ano.

Super Dark Times segue o cotidiano de dois amigos pré-adolescentes vivendo em um período pré-celular e internet — por mais que o filme nunca explicite a década exata onde a história se passa. A primeira metade da narrativa foca nesses dois jovens (e, mais pra frente, em dois outros amigos) vivendo aventuras da juventude pertencente a uma típica cidadezinha norte-americana. Tenho que confessar que só por essa primeira linha da história, eles já tinham me conquistado. A direção do Kevin Phillips não tenta provar a todo instante sua presença em sequências megalomaníacas, ao mesmo tempo em que consegue compor enquadramentos maravilhosos. Além disso, o roteiro consegue criar diálogos bastante verossímeis (alô, segunda temporada de Stranger Things!) e extrair um valor narrativo de situações banais do cotidiano dos protagonistas tentando subverter clichês do gênero.

Os dois protagonistas longe de serem os típicos personagens idealizados possuem seus erros que, conforme o filme avança, vão gradualmente interferindo mais e mais no cotidiano deles em uma crescente que você testemunha sem que consiga acreditar. As atuações também convencem e conseguem transpor sem problemas do roteiro para a tela todo o clima nostálgico da juventude durante as décadas passadas.

Já na segunda metade, a narrativa destrói tudo que já havia estabelecido e faz você esquecer de vez toda a narrativa coming-of-age que possa ter subconscientemente projetado. Da vibe de Conta Comigo, somos puxados por um torrente de violência que mais lembra Psicopata Americano. Os protagonistas vão se transformando diante dos olhos arregalados do espectador até parecerem irreconhecíveis. Um enredo que surpreende e prende a atenção do espectador a cada nova sequência.

As construções mais sutis são o ponto forte do filme para mim. A relação do protagonista com a mãe; o desenvolvimento do interesse amoroso dele por uma amiga durante a narrativa que culmina no maravilhoso (e melancólico) último plano do filme; a construção geográfica da cidadezinha que acaba se tornando um personagem-chave para o desenrolar do clímax do filme, a relação que o subconsciente do protagonista faz entre violência e sexualidade; etc. Super Dark Times pode não entregar tudo que o título promete, mas consegue construir um enredo surpreendente e conciso através de uma direção acertada.

Like what you read? Give Pedro Alves a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.