The End of the F***ing World (1ª Temporada, 2018)

Quando acabei o oitavo e último episódio de ‘The End of the F***ing World’, eu só consegui pensar em como a Netflix tinha sido extremamente efetiva em criar sua versão tumblr de Fargo. Certeza que, assim como o SBT percebeu o nicho lucrativo e pouco explorado de telenovelas infantis com o remake de ‘Carrossel’, o serviço de streaming descobriu um público bastante específico (e lucrativo) com ‘13 Reasons Why’.

Baseada na série em quadrinhos The End of the Fucking World de Charles Forsman — que eu não li, diga-se de passagem –, a coprodução entre o Channel 4 e a Netflix cria um eficiente road trip de humor negro. A narrativa acompanha a viagem/fuga de James, um garoto que pensa ser um psicopata, e Alyssa, uma menina com elevado grau de transtornos psicológicos, que decidem deixar sua rotina pra trás e visitar o pai da moça. Por mais que o título e algumas imagens promocionais tentem passar a impressão de que o seriado seja algo como ‘Bonnie e Clyde’ (1967) ou o recente ‘Deus Abençoe a América’ (2011), a série não permite que a índole de seus personagens fique turva em nenhum momento. O “bem” e o “mal” sempre estão bem definidos em tela.

A direção e roteiro possuem um dinamismo que faz com que os episódios passem voando — os poucos minutos de duração também contribuem. O desenrolar da trama é bem estruturado e os atores entregam um timing certo tanto para a comédia quanto para o drama. Senti falta de uma complexidade maior nos plots individuais, além de uma liberdade maior ao espectador para pensar por si mesmo sobre a índole dos protagonistas. Assim como ‘Esquadrão Suicida’, eu acho que a “humanização” em excesso de James e Alyssa faz com que tudo pareça inverossímil demais — a ponto de, ao final, não importar o garoto ter desejos psicopatas ou Alyssa ter depressão já que eles sempre estão “fazendo o bem”.

A dicotomia está presente na grande maioria dos personagens: James querendo matar e Alyssa querendo ser morta; a mãe que finge que a filha não existe e o pai que peca pelo excesso de proteção; a policial má e a policial boa… Esses encontros entre os diferentes conseguem proporcionar uma dinâmica muito eficiente. Por outro lado, a história em si carrega em seu cerne valores bastante moralistas em situações como, por exemplo, o consumo de drogas.

Provavelmente — e digo aqui provavelmente querendo dizer, na real, quase toda certeza — a série será renovada para uma segunda temporada. Será uma pena, porque a sequência final perderá todo seu impacto — mesmo que eu tenha consciência que ela foi pensada tanto para o caso de uma renovação quanto para um possível cancelamento e que é por isso que só temos uma tela preta. Um dos pontos fortes que também merece ser citado é a trilha sonora que passa por vários gêneros de forma orgânica.

Deixei esse último parágrafo para dizer, na realidade, o que o seriado foi pra mim. ‘The End of the F***ing World’ foi um enorme prólogo de 3 episódios que melhora drasticamente após o aparecimento das duas reais protagonistas que são, obviamente, a Eunice e a Teri. Não tenho costume de torcer para personagens ficarem um com o outro em nenhum lugar — nem em filmes de romance! Contudo, as duas detetives têm a melhor quebra de clichê envolvendo relação amorosa entre parceiros policiais que eu já vi. Aí, entre essa relação, temos que acompanhar uns personagens adolescentes que cometem crimes aleatórios. Todavia, não se deixe enganar, tudo isso acontece para que elas se encontrem no trabalho enquanto investigam e a relação possa ser aprofundada.

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