Trem para o Inferno (Hellbound Train, James e Eloyce Gist, 1930, 60 minutos)

Não se deixe enganar nem por um segundo: ‘Trem para o Inferno’ é um filme moralizador por natureza, a ponto de se tornar risível até para o seu público-alvo religioso contemporâneo. Logo na cartela inicial de sua versão restaurada, a obra já revela: seus realizadores foram James Gist e sua esposa, Eloyce; dois evangelistas negros que usavam o cinema em seu ministério viajante. Ambos foram cineastas autodidatas e exibiam suas alegorias audiovisuais em igrejas durante o sermão. ‘Trem para o Inferno’ foi o primeiro e mais ambicioso trabalho da dupla.

A “narrativa” — se é que podemos chamar assim — trata de explicar os passageiros que compõem cada um dos vagões do tal trem do título. A locomotiva é controlada por satã em pessoa com direito a chifres e capa. É interessante notar que o imaginário característico do demônio já estava presente em 1930.

Cada um dos vagões é destinado a um grupo de pecadores diferentes. Conforme a cartela nos conta quais seriam esses pecados, a dupla de cineastas ilustram a maneira com que eles ocorrem. Os pecadores variam entre crianças malcriadas que, de acordo com o filme, “estão no caminho para a perdição” até assassinos, ladrões e contrabandistas. O objetivo catequizador da narrativa fica explícito em cada uma das pequenas sequências de pecados. Um vagão do trem arrebata, inclusive, pessoas que abandonaram a igreja por mais que ainda sigam os preceitos divinos.

Durante a narrativa vemos algumas defesas no mínimo duvidosas por parte dos realizadores. O abuso sexual de mulheres é justificado por conta da embriaguez da vítima, o jazz é colocado como um ritmo demoníaco, e mulheres “indecentes e imorais” são condenadas a uma viagem de trem para o sofrimento eterno. Além disso, em certo momento da trama, a morte de uma esposa e o amante pelo seu marido é justificada através de um versículo bíblico (“O salário do pecado é a morte” *— Rom. 6; 23). Todavia, alguns pecados apontados não deixam de ser curiosos pela época que o filme foi realizado como, por exemplo, “homens velhos que se interessam por mulher novas”.

Uma análise puramente técnica da obra consegue observar o caráter inventivo dos diretores. Muito se deve ao objetivo de maravilhar (e chocar, na maior parte das vezes) o público composto por féis durante os sermões. Existem sequências poderosíssimas como os momentos finais que mostram o trem chegando ao “inferno” e ardendo em chamas, e outra seguindo as ações de batedores de carteiras e que parece saída do longa de Robert Bresson. Difícil saber mais profundamente sobre características técnicas ou curiosidades da produção, pois grande parte das informações sobre os Gist e seus filmes foi perdida em um incêndio, de acordo com um de seus bisnetos.

Steven Torriano Berry, responsável pela restauração, comenta que os Gist foram os pioneiros entre os cineastas negros independentes, mas que os assuntos majoritariamente religiosos que tratavam tornou difícil a venda de seus filmes. Ele afirma que:

Após a estreia no Black Arts Festival, todos os envolvidos [na restauração] simplesmente “largaram de mão”. Se fosse o Spike Lee que tivesse redescoberto esse filme histórico, negro e religioso na Biblioteca do Congresso nas condições que se encontrava — esfarrapado e em pedaços — , o tivesse reestruturado e exibido; os Gist estariam com o prestígio lá em cima junto com [o influente diretor e produtor negro] Oscar Micheaux agora mesmo.

* Do original em inglês “The wages of in is death”.