Vuelve (Iván Noel, 2012, 88 minutos)

Violência, religião e sexualidade se entrelaçam nessa simbólica quarta obra de Ivan Noel. Se no longa anterior o diretor flertou com um estudo de gênero ao realizar uma comédia descontraída, em ‘Vuelve’ Noel constrói um thriller psicológico que vai imergindo cada vez mais o espectador em seu universo de estranhezas até seu incômodo clímax.

No longa, acompanhamos Gabriel e sua conturbada relação com a mãe. A matriarca é controladora e manipula o filho para descontar suas próprias frustrações advindas da relação problemática com o marido e por possuir a síndrome de Cotard — uma doença mental em que a pessoa afetada detém a crença delirante de que está morta, não existe, ou que está em putrefação. A mãe cria uma relação de total dependência por parte do filho, o que muda drasticamente após o primeiro ponto de virada da narrativa.

A ideia do roteiro, de acordo com Ivan, ocorreu quando o diretor estava escutando o Berliner Messe de Arvo Part. De acordo com ele:

O último e muito curto movimento de Berliner Messe de Arvo Part é tão etéreo, um obra musical tão comovente que senti que de alguma forma ouvi o Divino. Também está cheio de amor maternal (talvez a figura da Virgem Maria, tão comum à música do Sr. Part?), e paz genuína (as palavras para a massa são as últimas faladas e pedem à alma morta que descanse em paz). Amor materno, morte, religião. Isso desencadeou a ideia essencial de ‘Vuelve’ […]

No filme, Noel dirige, roteiriza e compõe a trilha sonora. Aqui, como havia feito no ‘Em Tua Ausência’, o diretor também assume pra si a função de direção da fotografia. Contudo, ao contrário de seu primeiro trabalho, os enquadramentos são muito mais seguros e conseguimos detectar um certo planejamento ao executá-los. Além disso, seu estilo documental é deixado um pouco de lado em prol de planos mais elaboradas em função da história.

Uma das coisas que mais fizeram falta nas obras anteriores — e que nesse filme específico faria mais diferença — foi uma pós-produção (principalmente uma correção de cor) mais eficiente. Lendo sobre ‘Primaria’, eu percebi que a edição dos filmes dele geralmente são bem dificultosas e feito somente por Noel. Outra coisa que me deixou incomodado (e não de uma maneira boa) foi a reutilização de uma sequência envolvendo sangramento nasal de ‘Brecha’ com, inclusive, os mesmos diálogos. Não havia necessidade — por mais que aqui a conversa faça bem mais sentido.

‘Vuelve’ é um marco nas obras de Noel. Um thriller bem construído a partir de uma prolixa narrativa onde simbolismos vão nos apontando para onde a história está caminhando. O ato final do longa é insano — no bom sentido da palavra! A última sequência ocorre em baixo d’água e é uma das coisas mais memoráveis que eu vi do Ivan Noel até aqui. Talvez esse tenha sido o filme mais bem recebido dele em circuito de festivais de cinema por sua pegada indie-cult-hispter-cabeçuda.

Like what you read? Give Pedro Alves a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.