Vaticano só não prende suspeitos de abuso sexual…
… mas suspeitos de vazarem os segredos da Igreja são presos imediatamente.
Recentemente, o Vaticano prendeu suspeitos de vazar documentos secretos, e isso trouxe muitos pensamentos. Eu tenho minhas críticas à Igreja Católica, como todos sabem, mas fazer críticas a uma religião nem sempre é fácil.

Algum tempo atrás escrevi um texto sobre o Papa Francisco, afirmando que ele não sabe o que faz. O resultado foi polêmico. Um amigo me mandou mensagens pelo WhatsApp dizendo que com o meu vocabulário seria difícil criar diálogos produtivos, que eu estava falando sobre o líder de uma religião e que eu poderia estar magoando muitas pessoas. Uma amiga, pelo Facebook, argumentou que ele estava fazendo o melhor que podia. Principalmente no caso dos abusos sexuais por parte de padres católicos (que é o assunto sobre o qual eu mais escrevo), ela afirmou que essas coisas levam tempo, há um processo a ser seguido antes de julgar um padre.
Eu respeito o catolicismo como religião e, é claro, respeito a opinião dos meus amigos católicos. Mas não compactuo com a ideia de que Francisco e a Igreja devem ser isentos de críticas. Assim, discordo dos pontos citados por eles, e vou mostrar meus argumentos.
O líder de uma religião
É verdade que Francisco é o líder de uma religião. Minha esposa ainda foi além: ele é o representante de Deus na Terra. Esse é o discurso, mas é algo falho. Francisco é eleito por homens, e ainda foi eleito para substituir um Papa deposto. Ele ainda sofre com oposição dentro do próprio Vaticano e críticas públicas de padres, bispos de cardeais. Isso é um exemplo de um político qualquer.
No final, ele é o líder de um país. E eu o trato como tal. E da mesma forma que as pessoas criticam políticos, eu critico Francisco. Discordo de suas políticas e defendo que ele, assim como muitos políticos, prometeu muita coisa que ele não vai cumprir. E isso me leva ao segundo ponto.
O processo para julgar padres que abusam sexualmente de crianças
Eu concordo que acusar, julgar e prender uma pessoa pode ser um processo demorado. Mas Francisco supostamente começou sua guerra contra os abusos sexuais na Igreja assim que assumiu o papado, em março de 2013. Quase três anos depois não há resultados palpáveis. Pelo contrário, começam a surgir argumentos de que, se ele quisesse, já poderia ter prendido todos os padres envolvidos em crimes sexuais.
Recentemente, algumas pessoas foram presas, acusadas de vazarem documentos secretos do Vaticano. Foram as primeiras prisões por parte do Vaticano desde 2012, quando o mordomo do Papa Bento XVI foi preso também por vazar documentos.
As pessoas presas faziam parte da comissão que Papa Francisco montou, depois de assumir o cargo, para realizar reformas econômicas e administrativas na Cúria. Isso significa que, qualquer coisa que eles tenham feito, aconteceu de 2013 para cá. Mesmo assim, eles já foram acusados, presos e agora esperam julgamento. E sabe quando começa o julgamento? Hoje, dia 24 de novembro. Rápido, não é?
Por que é que os casos de abuso sexual não são tratados com a mesma veemência, seriedade e rapidez? Esse não foi um dos primeiros pontos defendidos por Francisco? Os acusados são conhecidos, há fortes indícios de culpa e centenas de vítimas no mundo prontas para depor contra eles. Entretanto, não há ação nenhuma para resolver o assunto. Francisco virou papa, pediu desculpas, montou um comitê para avaliar a situação e julgar os envolvidos e deixou por isso mesmo.
Política de abafamento
Mas quando alguém vaza um e outro documento secreto do Vaticano, que ajuda a mostrar para o mundo a realidade mundana e cruel da Cúria, rapidamente tudo é investigado, os envolvidos postos atrás das grades e o julgamento começa. Isso contra o apelo de entidades de direitos humanos que exigem que o Vaticano respeite a liberdade de jornalistas de publicar informações de interesse público. Aqui, novamente, voltamos à laicidade do papado e do próprio Vaticano, um país como qualquer outro.
O Vaticano tem uma responsabilidade não só com Deus, mas com seus habitantes e com as pessoas de todo o mundo doam seu dinheiro para a Igreja mensalmente. Na minha cabeça, prender os jornalistas que divulgaram as informações secretas é quase igual prender quem descobriu e divulgou as primeiras informações sobre os últimos escândalos políticos no Brasil, como o Mensalão e o Petrolão. O Vaticano deveria estar fazendo o contrário: se preparando para resolver seus problemas internos.
Por fim, parece que por enquanto o que faz Francisco se mexer é a vontade de abafar os escândalos de seu país. O mesmo que seus antecessores fizeram por tanto tempo. Acreditar que alguma coisa será feita quanto ao escândalo dos abusos sexuais, portanto, é quase igual acreditar que João Coser ainda fará o metrô de superfície em Vitória.