Dia 108: O escritor

Tenho uma acusação a fazer.

O escritor é o pior tipo de amante. Ele não sabe amar.

O escritor se pergunta diariamente como é estar do outro lado, o lado inconsciente, o lado que não procura virgulas em histórias, que não tenta prever um desfecho ou antecipar uma relação.

O escritor vive nessa angustia, nesse escafandro do qual nunca irá sair. Vive nesse sentimento amargo, por vezes subscoenciente, de pretensão e pressão. Com o peso, afunda a cada ano, a cada vela apagada, a cada desejo, a cada ruga, a cada fio de cabelo branco, até se ver completamente imerso sem possibilidade de retorno à superficie.

Esse talvez seja o problema. O escritor não chega à superficie. O escritor vive imerso numa escuridão oceânica.

Cabe ao escritor a nobreza geralmente atribuída à ele. Essa, aquela nobreza de sempre se dedicar a escrever sobre o que nunca terá ou que já perdeu, de escrever sobre o pobre e o rico, sobre quem não conheceu e quem se perdeu, quem o fez sorrir e chorar, com quem trocou olhares e com quem trocou saliva.

O escritor parece sofrer, angustiado não aprende a amar, mas ensina a todos a viver.


Até amanhã.

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