Dia 137: Sunny

Estaciona o carro. Está chovendo forte.

“Me perdoa,” dispara ele sem medo da resposta que viria a seguir. De alguma forma, ele estava seguro de que não havia mais forças para uma resposta.

“Eu preciso sair daqui, esquecer tudo o que aconteceu e recomeçar. É minha decisão,” continua.

Não há reação. Os dois se encaram até que ela decide descer do veículo. Suspende a gola do casaco e põe a bolsa sobre a cabeça para atravessar a rua ensopada.

Ele, por sua vez, desvia o olhar para o volante. Se perde num devaneio. Ouve um, dois, três passos de encontro à lâmina rasa d’água na pista e então liga o carro novamente.

Dirige rua adentro com o corpo ereto em plena luta interna para não olhar para o retrovisor e checar o cabelo ruivo dela por uma provável última vez. Vira a esquina e se dirige à estação de trem.

Seu olhar é fixo, não desviaria nem mesmo se uma mosca pousasse sobre sua pálpebra. Ao enxergar os trilhos ferroviários, alinha o carro sobre eles. Sem desviar o olhar da direção, passa a tatear o interior do porta-luvas. Encontra um CD e coloca no tocador.

Sunny, por Marvin Gaye.

Ele aumenta o volume.

Sunny, yesterday my heart was filled with rain

Os pneus não são mais ouvidos, as buzinas emudecem, o mundo desaparece.

Oh, the dark days are gone, and the bright days are here,

O velocímetro começa a subir.

Sunny, thank you for the sunshine bouquet

Sessenta.

You gave to me your all and all,

Oitenta.

Sunny, thank you for the truth you’ve let me see.

Cem.

My life was torn like wind blown sand

Cento e vinte.

Sunny, thank you for that smile upon your face,

Cento e quarenta.

You’re my spark of nature’s fire,

Os faróis à frente não lhe assustam. Ele é cego pela luz amerela da locomotiva em plena velocidade.

You’re my sweet complete desire,
Sunny one so true, I lov….


Até amanhã.

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