Dia 14: O que os olhos não veem, a mente imagina

É fantástico como fantasiamos.

Acho que é o suficiente tomar nota sobre apenas um fato ocorrido hoje. Nele, eu estava à caminho do trabalho e parei no ponto de ônibus. Notei que do outro lado da avenida havia um carro da CET parado e com a sinalização ligada. Na calçada, ao lado do carro, alguns guardas da CET aguardavam ao celular.

Algo estava acontecendo ali e, por causa do carro cobrindo a cena para minha visão, não era possível dizer o quê. Mas eu sabia que havia alguma coisa atrás do carro, alguma coisa morta ou precisando de atendimento médico. Foi um pensamento automático, uma pressuposição natural por algum motivo.

Nesse tipo de situação, a minha reação é não aglomerar. Ou seja, eu continuei esperando o ônibus e não me dei o trabalho de andar pela calçada para conseguir enxergar o que havia atrás do carro.

Porém, o movimento era grande. Passei então a tentar medir o grau de gravidade da situação pelo olhar das pessoas que passavam do outro lado da calçada e de frente para o que quer que seja que estivesse estirado ali.

Algumas pessoas diminuem o passo para olhar observar a cena com calma.

Algumas pessoas passam, olham ligeiramente e continuam a andar.

Algumas pessoas simplesmente param e observam, sem se conter e sem medo de demonstrar a curiosidade.

Algumas pessoas não param ou diminuem o passo, elas simplesmente observam enquanto continuam a andar.

Mas ninguém passa indiferente.

Nessa altura, eu cheguei a conclusão de que era um animal que talvez tivesse sido atropelado e estivesse com o estômago aberto e sangrando muito. O que seria horrível.

A partir desse momento, tomei o animal como a verdadeira vítima por trás daquele carro.

Pessoas continuavam a passar parelas a cena. Adultos, idosos, crianças, todos com uma expressão de incomodo. Até que então, alguém importante chega. Um dos guardas da CET acena para esse alguém e se dirige até o carro que bloqueia minha visão. Ele dá partida, revelando o que está por trás.

Antes que eu procesasse o que era aquilo que eu estava vendo, percebi que eu não tinha uma razão muito óbvia para supor que o que estava atrás do carro era um corpo, mesmo pela expressão das pessoas. Acontece que na rua nós sempre presupomos que alguém ou algo está em perigo. Não é seguro.

O que estava ali, escondido pelo carro, era um corpo humano que ia ser atendido por uma âmbulancia — para quem o guarda acenava. O corpo, provavelmente masculino e adulto, estava envolto numa manta de frio fina e roxa. Não havia sangue à vista. Ninguém estava desesperado.

Mas não importava. Havia um corpo. Um corpo no chão.

Isso já é agressivo demais. E não sei por quê.

Não. Talvez eu saiba.

Temos muito medo da rua. Mas… Quem nos ensinou isso?

Eu não sei.

O ônibus que eu estava esperando chegou.


Até amanhã.