Dia 53: Escritores e a romantização do sofrimento

É 3:30 da manhã e eu deveria estar dormindo. Mas claro, muito pelo contrário, estou escrevendo. Eu sempre tive essa mania de romantizar a insônia, o trabalho notívago, a própria escrita e sempre tive receio de que isso um dia me incomodasse.

A verdade é que ainda não incomodou. Não efetivamente. Ainda me sinto bem com as dores no braço causadas pela má disposição que meus braços sempre se sujeitaram à mesa e pela injeção de endorfina que terminar um texto me passa, mesmo que isso custe as horas de sonos necessárias para trabalhar no dia seguinte.

Com 13 anos de idade, a vida que eu queria ter era a de ser um cara desiludido com tudo, cético, alguém jogado às moscas e um escritor que escrevesse para si mesmo porque não tinha público. Essa era a premissa de uma história de um fracasso romantico e sedutor, uma sinopse envolvente para quando fossem contar a minha história. Acontece que eu era uma criança e eu não sabia bem o que estava pensando. Essa breve atração que tive com o fracasso, o lado mais escuro da vida, me viciou numa personalidade pessimista e dura.

Sempre fui cruel comigo mesmo. Sempre me sujeitei a achar normal minha rejeição para com minha aparência, meu intelecto e minha baixa autoestima. Sempre me pus minhas necessidades atrás das necessidades de outras pessoas. E isso não faz bem.

Agora, entrando na vida adulta, percebo um resquício dessa época ainda me afetando. Travo uma guerra diária para balancear o meu controle egocêntrico com o limite de doação à outras pessoas. Minha autoestima talvez nunca seja plena, talvez já tenha sido afetada demais por eu ter acostumado tanto a viver de forma a achar que a mediocridade de ser seja normal.

A escrita romantiza o sofrimento, justifica-o. Para um escritor, o sofrimento é, de antemão, parte de uma jornada natural da vida que levará sempre à uma recompensa e ao retorno para casa.

Talvez, e aqui só posso fala em talvezes, a chave seja entender que, apesar de muitas dessas histórias terem dado certo, outras tantas se fazem fantásticas simplesmente por transgredirem tais padrões.

A única dúvida que me resta é: Eu realmente deveria estar dormindo?


Até amanhã.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.