Dia 58: Turcos e sonhos

Se alguém tem muita história para contar, esse alguém é minha avó materna.

Minha avó é uma velhinha de 69 anos, mas que tem a vivacidade de alguém 15 anos mais novo. Ela nasceu em Alagoas e antes que tomasse consciencia, foi adotada por uma família local que cuidou dela até a mudança para São Paulo.

Essa é a parte da história que eu mais conheço. Porém, sobre seu passado mais antigo, minha avó nunca fala muito. Talvez por falta de conhecimento. Talvez por algum remorso.

Porém, hoje mais cedo, ela resolveu falar do pai biológico que nunca conheceu. Não sei seu nome e não perguntei. Mas apesar disso, me veio a confirmação sobre a descendencia dos meus bisavós: Eram todos turcos.

O que faz da minha avó uma nordetista descendente de turcos e com uma história que poucos têm no currículo.

Menciono minha avó porque hoje ainda, eu me vi nela. Estávamos jantando enquanto ela resolveu falar do pai. No meio da conversa, eu pergunto: Não tem vontade de conhecer Istambul?

Ela para, pensa e se recobra. A resposta é negativa e eu me frustro — afinal, seria muito legal conhecer Istambul junto à ela.

Mas antes que a conversa caísse em qualquer outro tópico, ela menciona sua vontade de conhecer Portugal.

Critiquei: Mas Istambul é tão mais legal!

Fui idiota. Quem sou eu para criticar o sonho dela se eu não gosto que critiquem os meus?

Me toquei cinco segundos depois de dizer essa besteira e a deixei falar.

E como ela falou. Até peguei meu celular e pesquisei algumas imagens de Lisboa para ilustrar para ela.

Os olhos chegam a brilhar e isso me incomoda.

Me incomoda porque não consigo me conformar com essa distância que a vida e o dinheiro nos coloca das coisas que mais queremos. Por esse motivo, eu trato sonhos apenas como itens a serem eliminados de uma lista. Lido com sonhos fazendo listas e dando datas, mesmo sem a esperança de não serem cumpridas, faço isso para manter essa sensação de que tudo é possível.

Terminamos de jantar, ela se levanta e passa a falar de outra coisa, agora com minha mãe. Eu fico pensativo.

Penso e defino como um dos meus objetivos de vida fazer essa viagem acontecer. E como sempre, eu começo com uma lista.

O que precisamos:

Passaporte. Uma data. Passagens. Hotel.

Posto isso, vamos esvaziar essa lista o quanto antes.


Até amanhã.

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