Dia 63: Meu pai e aniversários

Meu pai odeia comemorações de todos os tipos. Carnaval, páscoa, dia das mães, dos pais, festa junina, natal, ano novo, confraternizações sem motivos aparentes entre familiares e… E aniversários.

Hoje foi aniversário do meu pai. Creio que ele tenha completado 48 anos. Não sei ao certo. Não falei com ele. Nem sequer olhei para ele.

A crueldade que fica eminente nas minhas palavras acima não são fruto de ódio. Não odeio meu pai. Apesar de nunca ter mencionado diretamente à ele, a não ser por meio de homenagens artesanais feitas em sala de aula no ensino fundamental, eu o amo.

Meu pai não tem muitos motivos para comemorar, segundo ele mesmo. Acredito que durante todos esses anos, ele é a pessoa que tenho medo de me tornar. Pessoa essa que era preenchida de sonhos, objetivos e vontades que nunca foram saciadas. Alguém que vive preso angustiantemente numa lembrança inexistente de um futuro que nunca veio.

Por outro lado, apesar da inestimável contribuição da minha mãe à diversas composições de personagens, meu pai é o sujeito que mais me inspirou a escrever. Ele sempre se considerou a personificação de seu próprio fracasso, seu próprio antagonista. Cresceu duro, frio e pouco desenvolto a brincadeiras e tolerante a piadas.

Se eu procurar bem na minha memória, encontro mais de três momentos em que meu pai menciona: Não gosto de festas. Isso é tudo estratégia de vendedor.

Ele não se cansa de repetir isso. Parece até mesmo um comunista judeu que preza unicamente pelas comemorações tradicionais de sua religião.

Mas meu pai não é judeu. É evangélico. E é muito menos comunista. Se dependesse dele, ele teria mais dinheiro que um sultão da Árabia Saudita e usaria a grana toda para criar uma linha de restaurantes pelo mundo.

Meu pai é ambicioso. Um ambicioso frustrado. Eu carrego muitas características dele. E entre todas, quero destacar a que não carrego: o medo de envelhecer e morrer.

Para o meu pai, morrer é algo assustador. Ele não gosta nem ao menos de mencionar que está mais perto disso a cada ano. Não gosta de tocar no assunto. Ao contrário do que acontece em relação a mim que sempre tento descontruir o tópico falando sobre ele.

Outra diferença nesse quesito mórbido é que meu pai aguentou 48 anos desse peso nas costas. Eu não creio que teria essa força.

E quando eu penso assim, eu o entendo melhor. Se eu fosse tão forte como ele já foi, eu provavelmente seria mais nervoso. Eu provavelmente seria mais estressado. Eu provavelmente responderia "Tenho três filhos para alimentar e educar" quando me perguntassem porque não largo tudo e arrisco no meu sonho.

Enfim. Apesar de tudo, eu o entendo.

Nunca falei, e não duvido que assim permaneça até o fim, mas meu pai é o único homem que me fez chorar de raiva e o homem que mais amei na vida.

Espero que um dia, eu encontre espaço o suficiente para que ele saiba disso tudo.


Até amanhã.

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