Dia 79: Família, novelas e sinceridade
Quando eu olho para a página em branco antes de digitar todas essas coisas que estou digitando à vocês nesse momento, eu penso em como posso ser o mais sincero possível. Creio que esse foi um comprometimento que assumi comigo mesmo e que eu não havia mencionado até agora para vocês. Creio também que essa característica seja a mais valiosa entre todos os textos já publicados nesse espaço, assim como também acredito que você não vá encontrar facilmente uma dedicação a transmitir a verdade de uma vida, o meu dia a dia como eu estou tentando fazer aqui.
Minha vida não é glamorosa. Nunca foi. Minha família sempre foi pacata, não era de sair, comer fora ou fazer viagens mirabolantes. O caule da nossa intereção social, da nossa troca de experiências, ideias e risadas, acontecia durante as novelas globais. Era um culto diário à dramaturgia televisa. Eu arriscaria dizer que de 2001 à 2014, eu assisti todas novelas da oito (depois, classificadas como novelas da nove) e algumas novelas da tarde.
Uma coisa me chamava atenção — a estética de família que as novelas vendiam nas telas da TV sempre foi para mim, uma criança na época, um padrão muito distante da realidade da minha família.
Ninguém almoçava no mesmo horário e muito menos no mesmo lugar. Os problemas eram geralmente relacionados a dinheiro ou alguma besteira que as crianças haviam feito ao longo do dia. E meus pais, apesar de não serem ausentes, não liam contos para eu e meus irmãos na hora de dormir.
A realidade familiar das novelas não existia, mas era irreal o suficiente para se tornar onírico, às vezes.
Eu cresci. Entrei na adolescencia e parei de me interessar tanto pelas novelas. Era tarde demais para que eu evitasse ter decorado nomes e nomes de atores e ter identificado um padrão de trama que cansou o público pouco antes de eu ter abanonado as novelas.
Hoje, nem mesmo através da TV existe esse tipo de conexão aqui em casa. Percebi que meus pais foram afetados diretamente pela linha dura do dia a dia atrás de uma mesa. Percebi que nunca seríamos a família que vai passar férias na Disney. Percebi que nossas rotinas e estresses diários não permitiam que comêssemos juntos à mesa por uma questão de horário e até de humor. Percebi que as novelas, apesar de apelarem a criar um paralelo intimo com a vida do público, faz o contrário e acaba mistificando a mesma.
A novela é para o brasileiro o que os casos de american dream são para o americano.
Não se engane. Eu guardo um carinho especial pela teledramaturgia. Eu só relembro a mágoa de quando descobri que eu provavelmente não teria a vida que todo final de novela nos fazia acreditar que um dia chegaria.
Até amanhã.