Dia 84: Morbidade e relacionamentos virtuais

Setembro vem sendo um mês mórbido para mim.

Apesar de ter aberto esse mês escrevendo que setembro era meu mês favorito, eu não pude evitar de um dos meses mais estranhos dos últimos tempos. Já passamos da metade do mês, é a terceira semana e meus dias estão com um gosto de perda, insuficiência, dúvida e morbidade.

Semana passada, desculpe por te lembrar isso bem no momento que a TV parou de explorar a pauta, o ator Domingos Montagner se afogou Rio São Francisco depois de encerradas as gravações da atual novela das 21.

É estranho vê-lo vivo na novela agora. Foi estranho vê-lo vivo nas últimas entrevistas.

A vida é como o ar, tão essencial e julgada tão banal ao mesmo tempo. Esquecemos da fragilidade do corpo e da deteorização mental que uma perda pode representar para outras pessoas. E assim, de forma sem precedentes, a morte de Domingos me afetou.

Mas não parou por aí.

Hoje fiquei sabendo da morte de um colega de faculdade. Tranquei o curso o ano passado e meu último contato com ele deve ter acontecido em meados do segundo bimestre de 2015.

Preservarei o nome desse colega, mas posso dizer que ele morreu numa situação cheia de dúvidas. Ele sofreu um acidente depois de voltar de uma festa, perdeu o controle do carro e saiu da pista, caindo num barranco. Ele ainda saiu do veiculo, mas foi confundido com um assaltante em fuga pelos PM’s e foi alvejado no local.

Esse colega, aparentemente, era segurança militar em treinamento. Ele tinha uma arma licenciada pelo estado e, em nota oficial, a empresa para quem ele prestava serviço disse que o rapaz saiu do carro com arma em punho.

E foi isso. Ele morreu.

Duas pessoas totalmente desconexas à mim estão mortas. Por que eu deveria ligar? Por que me atingiu?

Tocamos pessoas. Tocamos por segundos, por milisegundos, por olhares ou por timelines virtuais. Tocamos pessoas das mais diversas formas e hoje estamos no auge do que entendemos por interação humana.

Eu quebro meu jejum de Facebook e olho a timeline do meu colega falecido. Na foto, ele está sorrindo numa festa qualquer, mais vivo que do que eu em muitos momentos. No seu mural, seu último post sem qualquer indício de que algo estava para acontecer.

Eu penso: O que eu deveria fazer com esse colega? Qual o protocolo social? Exclui-lo ou não do Facebook? Por que estou sentimentalizando isso?

A vida foi sim extendida para o mundo virtual. É um fato. E em situações como essa, me ponho sempre no passado ao olhar uma foto, ver um vídeo ou ler um post da pessoa falecida na internet. É um vestigio de um fim que veio sem avisar. É como se em algum momento, nada daquele engajamento que temos com nossos interesses de compartilhamento online fizesse sentido, como se estivéssemos caminhando num túnel sem saída, iludidos por uma luz no final que nada mais é do que uma ilusão inocente.

Me coloco então na equação. Eu posso morrer em questão de um segundo e tudo isso aqui não passará de uma construção inacabada de um objetivo ainda sem forma. Minhas horas de trabalho não podem ser transferidas à ninguém, minha rotina deixará de existir. As pessoas que sentam ao meu lado no trabalho sentirão um certo desconforto quando retirarem meus pertences da minha mesa, minha mãe ficará em dúvida se deve ou não mexer nas coisas da forma que deixei da última vez. Meu pai confratará o impulso de acordar uma hora mais cedo para me deixar no ponto de ônibus no meio da madrugada e minha avó fará um pão a menos sabendo que ninguém comerá tanto pão caseiro como eu como. Vocês não receberão no e-mail, na notificação no celular, na timeline do Medium, o post do dia seguinte e talvez nem percebam isso por um, dois ou três dias, até se recordarem que seguem a publicação e se perguntarem o que aconteceu.

E pensando assim, fica tangível o peso que temos no mundo e na vida de outras pessoas por mais que todos nós sejamos uns para os outros apenas figurantes de uma sequencia de cenas que gostamos de chamar de vida.


Até amanhã.

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