La Gamme D’amour, Jean-Antoine Watteau

Aquele quase amor — Um Sentimento #11

Quando as peças quase se encaixam

O 875A sempre para depois do ponto. Faz dois anos que Seu Marcos sabe que pego esse ônibus, mas insiste em parar lá na frente. Certa vez tentei esperar mais adiante onde normalmente para, não funcionou muito.

Seu Marcos é um senhor de barba e bigodes grisalhos, cabelo acinzentado escorrendo por debaixo do boné desbotado e um mal humor característico de quem dirige um ônibus por São Paulo cedo pela manhã.

Subi ofegante as escadas do ônibus. Seu Marcos sorriu. Amanhã paro mais perto.

Ele diz isso todos os dias.

Sento sempre no banco alto, no lado esquerdo de quem vai. Fico um pouco ansioso quando já tem alguém sentado no meu lugar. Hoje era um bom dia, o banco estava vazio.

Foi bem ali, enquanto Jon Snow falava no quinto livro das crônicas de gelo e fogo que daria sua vida pela patrulha da noite, que algo aconteceu. Tirei os olhos do livro e avistei uma mão levantada acenando para o ônibus.

O ponto de ônibus da São Judas é na frente da loja que vende estátua de santo e leva o nome da avenida, mas Seu Marcos, sabe como é, parou quase no farol depois do Subway. Olhei para trás em tempo de ver a moça correndo, subir no ônibus e procurar o cartão do bilhete na bolsa.

Quando olhou para frente, nossos olhares cruzaram —levantou as sobrancelhas e congelou por alguns segundos. Passou a roleta meio afobada, procurou um lugar para sentar, mas preferiu ficar de pé.

A moça da blusinha roxa nem tentou disfarçar. Me olhava o tempo todo e, quando eu retribuía, esboçava um leve sorriso, do tipo que a boca mexe pouco, mas que é impossível de esconder o brilho nos olhos.

Segui fingindo que queria descobrir o que vai acontecer com Jon Snow, vez ou outra tirando os olhos do livro e retribuindo os sorrisos. Cada sorriso criava uma erupção que subia pelo estômago até a boca. Dava para sentir meu próprio coração pelos ouvidos. Fiquei estático, as mãos suadas começavam a molhar as páginas do livro. Certeza que ela me viu secando a mão na calça jeans.

Queria conversar, mas o que eu diria? Pensei em mandar um bilhete… não seria muito bobo?

Olhei pela janela e vi que já estava na Washington Luís. Peguei minha mochila, dei sinal e fiquei de pé, parado, olhando para baixo e esperando a porta abrir.

Nos olhamos mais uma vez, ela sorriu, eu sorri.

A porta abriu e desci.


Se gostou do texto, lembre-se de dar aqueles 50 claps clicando nas palminhas e apoiar meu trabalho. É rapidinho e me ajuda bastante. Se quiser continuar acompanhando meu trabalho, siga minha página e curta a publicação Um Sentimento.

Like what you read? Give Alberto Brandão a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.