Aprenda Como Estragar um Roteiro de Oscar com “Que Horas Ela Volta?”

Foi bom. Mas poderia ter sido incrível.

Aviso: Pode conter spoilers. Siga por sua conta e risco.

Assisti hoje a Que Horas Ela Volta?, um dos filmes nacionais mais comentados dos últimos tempos — se não O mais comentado — no auditório da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Nele, Val, a personagem interpretada belissimamente por Regina Casé, é uma empregada doméstica (funcionária doméstica? Funcionária do lar? Não sei qual o termo “politicamente correto” pra esse cargo) que mora e trabalha na casa dos patrões (Dona)Bárbara e (Doutor/JOSÉÉÉÉ) Carlos, e o filho deles, Fabinho.

A trama começa quando sua filha, Jéssica, com quem não fala há muito tempo, a informa que irá se mudar pra São Paulo pra prestar vestibular. A história se desenrola explorando os conflitos entre os diferentes comportamentos dos personagens principais e criticando o relacionamento patrão-empregado comum de nossa sociedade, além dos preconceitos embutidos na mesma relacionados a nordestinos e a funcionários do lar.

Permitam-me dizer que pouco sabia da história do filme, mas minhas expectativas estavam altas pelo tanto que tinha ouvido falar bem. Esperava que a história a desenrolar fosse uma viagem de Val ao Nordeste pra rever sua filha e como os patrões lidariam com isso — daí o Que Horas Ela Volta? do título.

Nesse ponto fui positivamente surpreendido. O enredo contado é muito mais convincente e permite um número maior de complicações e desenrolares. O problema, como visto no título, é o roteiro.

Mas foquemos nos pontos positivos por enquanto, sim?

A fotografia do filme é belíssima, com predominância de câmeras estáticas muito bem posicionadas que auxiliam a contar a história, tanto nas cenas dramáticas, quanto nas cenas mais leves e cômicas. É, ao mesmo tempo em que se destaca, sutil.

A cena inicial é belíssima, com cores vivas e mostrando as costas de uma Val ainda jovem e um Fabinho infantil a introduzir o nome do filme. As cenas da cozinha e do corredor dos quartos também se destacam. A primeira pelo uso inteligente da porta da cozinha na construção de contraste, humor e tensão (sim!) e a segunda pelo contraste visual de luz e sombras de encher os olhos de qualquer artista barroco.

Voltando à cena inicial, diria que ela é magistral. Introduz belissimamente os principais conflitos do filme: a separação de pais (ou deveria dizer mães?) e filhos, o vínculo entre patrão-empregado e o abismo social sempre existente.

As atuações de Regina Casé e Camila Márdila surpreendem. A primeira por sair de sua zona de conforto já bem conhecida em diversas vezes durante o filme e por inserir com maestria o humor pedido mesmo em momentos mais emocionantes e a segunda por sua… Constância? Me foge a palavra no momento, mas Camila interpreta uma Jéssica sonhadora, teimosa, ambiciosa, decidida e rebelde, com uma estabilidade dificilmente vista. Em nenhum momento a senti fugindo do personagem ou sequer me lembrei de que ela era uma atriz.

O enredo, como já disse, também me surpreendeu. Tem uma história forte, foge de diversos clichês, apresenta um ponto de vista incomum… Toda a ideia fundadora do filme é magnífica: uma história de uma família de classe alta, contada a partir da visão “daquela que é praticamente família”, com a inserção de uma personagem que questiona e subverte os padrões pré-estabelecidos ali.

E são as atuações e o enredo os mais prejudicados pelo roteiro fraco.

Aliás, deve-se ser feita justiça. O roteiro possui pontos altos. Ao longo do filme detalhes vão sendo mostrados tão sutilmente que podem ser esquecidos, mas contribuem pra construção de tensão em outros momentos ou que ainda são peças-chave na conclusão do filme. Os próprios elementos de tensão mostrados no primeiro ato são inteligentemente deixados de lado no segundo e retomados na conclusão.

Mas o pecado reside na presença do humor. Antes de explicar, reforço o que disse no subtítulo: achei o filme BOM. É um filme nacional de qualidade. Mas poderia ter sido um filme de proporções internacionais — e eu acho que a ideia inicial permitiria isso.

O fato da personagem principal ser nordestina aparentemente invoca um humor inato. E com isso, exatamente, não posso discordar. Nasci no Norte. Inclusive chamava minha mãe de “mainha” quando era bem novo — segundo contam. Em Roraima, onde eu nasci, as influências nordestinas são fortes. As expressões usadas em diálogos são carregadas de teor cômico e bem-humorado. Há quem diga que sejam assim para aliviar o sofrimento do dia-a-dia. Há quem diga que o povo nordestino é naturalmente alegre para combater as mazelas que os afligem.

O humor como surge no filme não é ruim também não. É um humor gostoso, leve, bem feito, bem interpretado. Pode ser carregado de preconceito às vezes, mas isso pode ser interpretado como parte da crítica. Mas a sua presença diminui o filme. Tira sua seriedade. Tira a carga emocional. Diminui a crítica forte que o filme poderia trazer. O humor, por ser leve, não é o agente de mudança que deveria ser, muito menos é provocativo.

O pior é que, mesmo afirmando que o humor é bom e leve, eu não achei graça. Eu não achei graça, porque eu conseguia enxergar as camadas de seriedade. Eu não achei graça, porque atrás da expressão nordestina cômica de Val, eu interpretava sofrimento, dor, saudade, humilhação, ausência de instrumentos de comunicação* e pesar pelo tempo perdido. Enquanto isso, parte do público paulista presente no cinema, também sem os instrumentos necessários para traduzir tais expressões com o peso que poderiam ser interpretadas, escancaravam-se em rir.

Não culpo quem riu. De longe. Entendo o apelo, entendo o motivo, entendo a risada. Vejo claramente que minha interpretação deve-se ao meu conhecimento do assunto. Em uma determinada cena, Val dá uma bronca em Jéssica por determinado motivo. O público riu por causa da expressão utilizada. Eu não. Porque eu sabia que tal expressão é usada tanto em caso banal como em caso sério. E porque tal situação era parte da exibição do abismo social e do “cabresto” que Val se impôs.

Não culpo quem riu. Culpo quem deu o contexto pra risada. Quem permitiu que o filme tornasse-se motivo de riso. Deixasse a situação, tirasse a expressão, o resultado seria diferente. Não haveria risada. Não haveria leveza. Haveria tapa na cara. Haveria reflexão.

O roteiro ainda peca em diminuir o papel de Camila. Jéssica surge como o contraponto para os padrões estabelecidos na casa. Sendo assim, um roteiro digno exploraria seu caráter questionador. Infelizmente, a personagem deixa de responder, questionar e levantar argumentos em diversos momentos que não só aumentariam o tom crítico do filme, como a tornariam ainda mais crível e identificável, dando ainda mais profundidade à personagem.

Creio que tais falhas no roteiro e nos diálogos devam-se a uma possível interferência da Globo na produção do filme. Ela surge como co-produtora nos créditos iniciais e os produtores (Fabiano Gullane, Caio Gullane, Débora Ivanov e Gabriel Lacerda) já trabalharam juntos em outros filmes da produtora global. A própria Regina Casé também pode ter interferido no peso crítico do filme, adicionando mais humor do que seria saudável, uma vez que ela criou o roteiro junto com Anna Muylaert. Ou ainda a própria Anna não soube reconhecer a pérola que tinha em suas mãos…

Nunca saberemos de quem é a culpa por Que Horas Ela Volta? não ser o filme que poderia ser. Também nunca conheceremos o filme que poderia ter sido. Só o que sabemos é que poderia ter sido incrível.

*Por diversas vezes ao longo do filme vê-se que Val tem dificuldade em expressar seus sentimentos e pensamentos de uma maneira que não seja o estereótipo nordestino — o que acaba levando o público a rir de algo que não deveria ser risível. Seja pela falta de estudo ou pelo preconceito auto-imposto (“eu lá tenho roupa de banho?!”), Val mantém-se quieta ou comunica-se com piadas e jargões. E isso deveria ser triste. Não motivo de piada.

PS: Perdoem-me a generalização excessiva. Fiz o possível para manter o texto livre de spoilers.

PPS: Sim, o título é deliberadamente chamativo. Quem leu meu texto anterior sabe que eu critico isso. Usei-o descaradamente por alguns motivos: 1. Instigar quem gostou do filme a ler este texto e participar da reflexão 2. Contradizer-me espontaneamente como uma forma de tentar identificar algum aspecto do meu leitor dependendo do feedback— seja ele qual for.

PPPS: Em tempo, recordei-me que o fim do filme, após a resolução dos conflitos, é de uma leveza bem-vinda e, aí sim, bem posta. O único spoiler verdadeiro darei agora, portanto se não tiver visto, pare agora: o filme termina com um sorriso magnífico de Val, que mostra sua felicidade e sua paz de espírito, indica um futuro brilhante pra ela, sua filha e seu neto. E aí sim, eu me permiti a rir e sorrir junto.


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