Identidade

O que falar? O que pensar? O que fazer? O que escrever? O que ser?

A questão da identidade é uma pauta em voga há muito tempo, principalmente pelos mais renomados pensadores e filósofos. Qualquer cientista ou estudioso que se preze já perguntou-se:

“Quem sou eu? O que faz de mim quem eu sou? O que me levou a ser assim? Eu sou porque estava determinado a ser, ou minhas escolhas me levaram a ser assim? Até onde minha criação influenciou minha identidade e até que ponto isso apenas faz parte de minha natureza? Posso culpar alguém por ser assim?”

Na verdade, você não precisa ser alguém de renome ou um gênio não descoberto pra ter essas questões. Tenha um tempo pra si mesmo, ou sofra com depressão, e essas questões passarão em sua cabeça eventualmente. Se você pertence à classe LGBTT, essas questões no entanto só se complicam.

Mas não pretendo discutir identidade de gênero ou orientação sexual (não agora). O que me leva a escrever sobre identidade é, novamente, minha própria escrita. É curioso que mesmo após me questionar tanto isso e passar por tantos momentos de reflexão eu ainda não tenha uma identidade formada… Ao menos não o suficiente pra decidir sobre o que eu quero escrever.

Identidade de uma certa maneira está ligada com definição. Definição de seu ser. Definição de sua existência. Definição de sua personalidade. Bom, eu já defini meus conceitos sobre definições, não os discutirei novamente. Sendo assim, não deveria nem debater identidade, certo? Bom, realmente… Uma vez que o conceito de identidade é bem amplo, como visto através dos questionamentos levantados no segundo parágrafo, focar-me-ei* em apenas um aspecto: identidade autoral.

Todo esse texto resume-se em questionar meu papel como “autor” — título que acho grande demais pra mim no momento, mas indubitavelmente possuo — e a forma que eu me expresso como tal. Também servirá como uma retrospectiva dos meus textos até agora.

(Pequeno parêntese: esse deve ser um dos textos com mais voltas em torno do assunto principal que eu já escrevi na minha vida. Perdoem-me, mas não posso deixar de achar que foi necessário)

O primeiro que eu publiquei, já citado acima, assemelha-se narrativamente a este. Uma salada de ideias, ligações, saltos, possivelmente confusa. Eu apenas digitei na tela o que quer que viesse à minha mente. Acabou sendo pessoal demais, senti que não levou à conexão com o público que eu gostaria que levasse, mas ainda assim me senti bem. Foi como um dever cumprido.

O segundo foi algo que eu nunca fiz antes. Uma narração de minhas experiências ao longo de um videoclipe. Foi extremamente prazeroso de se fazer, e certamente não será a última vez que o farei. Fiquei, novamente, extremamente satisfeito e, novamente, não recebi nenhuma resposta de público algum — exceto de meu namorado.

O fim do ano passado aproximava-se e decidi fazer retrospectivas dos acontecimentos, como de praxe. Mas fora minha retrospectiva pessoal, achei minhas recapitulações de filmes e séries fracas. Não só fracas, como sem apelo, sem… Identidade. Minha vontade era dissertar sobre cada uma das obras que acompanhei a longo do ano, mas além de me faltar tempo hábil para tanto, não podia deixar de pensar duas coisas:

  1. Há tanta gente fazendo essas mesmas retrospectivas e de uma maneira muito melhor e com uma cobertura maior do que eu, então porque eu estou gastando meu tempo fazendo isso? E;
  2. Este não sou escrevendo. Está imparcial demais, objetivo demais, rápido demais.

Fiquei, no entanto, satisfeito com minha retrospectiva de podcasts. Essa sim foi pessoal, emocional, importante, e única. Ninguém, afinal, ouve a mesma lista de podcasts que eu ouço. Mais do que isso, tive minha primeira resposta forte, o primeiro impacto que eu causei em alguém, ao convencer um amigo a ouvir Serial através de meu texto. Foi gratificante.

Estas foram as principais diferenças desse texto em comparação às demais retrospectivas: emoção, parcialidade, diferenciação (que levaram à satisfação com a qualidade), impacto e retorno (que me trouxeram gratificação).

As três primeiras características definem a criação do texto (olha definição aqui de novo…). São imediatas e de controle completamente do autor. Não são as únicas importantes, logo de cabeça lembro-me de narrativa e estrutura como elementos textuais que interferem, e muito, não só na impressão do público, mas na sua própria satisfação.

Mas impacto e retorno dependem não apenas do texto, como também de um esforço extra do autor na sua divulgação — coisa que, assumo, não me apetece em nada. O que é extremamente controverso, partindo de alguém que está prestes a começar uma faculdade de marketing. Mas vejo as divulgações de textos, blogs e links hoje em dia e sinto vergonha alheia.

Títulos padronizados, deliberada e descaradamente chamativos, gente que falta apenas gritar em praça pública “LEIAM MEU TEXTO, ACESSEM MEU BLOG, VEM GENTE, VAI TER BOLO!” enquanto jogam panfletos, cospem na cara dos transeuntes, suplicam, choram, imploram… E no final das contas, o bolo é uma mentira.

Eu não tenho cara de pau suficiente pra sair me arrastando em redes sociais e sites e perfis afora, principalmente quando eu sinto que meu texto não me satisfaz. Por isso, tenho focado em melhorar meu conteúdo antes de me preocupar com divulgação propriamente dita.

E aqui retornamos para a identidade. Além de retrospectivas, textos impessoais, outros altamente pessoais e uma tradução**, até um poema eu já postei! Eu sinto que, embora não esteja me envergonhando ao divulgar meus textos, me envergonho atirando para todos os lados, testando diversas estruturas, diversas narrativas, diversos assuntos…

E aí chegamos ao meu texto em que eu comecei a questionar minhas capacidades… Nele já aceitei que, no início, tudo é terrível. Qualquer coisa que você comece a fazer não será perfeito desde o início e tudo bem. Você só não pode perder o gás e achar que nunca vai melhorar.

Então, se isso já está definido, porque estou gastando o meu (e o seu) precioso tempo discutindo sobre identidade? Bom, na verdade é fácil ver que não é tudo a mesma coisa, embora sejam complementares.

O ponto é: eu não sei o que escrever, como escrever, ou pra quem escrever. Eu me sinto perdido, principalmente depois de ter notado (gênio!) que o principal público do Medium fala inglês — eu inclusive sou seguido por alguns perfis estrangeiros, que nem se darão ao trabalho de ler isso. Meus comentários em inglês tem mais repercussão que meus textos (o que, pensando bem, faz sentido…).

O interessante do Medium é permitir que seus comentários sejam inseridos em suas publicações, como os textos que realmente são (quem me conhece sabe que meus comentários realmente são textos à parte). Mas eu não posso exatamente inserir textos em inglês numa publicação em português, em respeito ao público que eu espero ter.

Aliás, que público?! Eu ainda nem decidi quem eu quero que leia meus textos. Ou pior! Eu quero que alguém leia isso ou deveria estar anotando essas reflexões num diário?

Retornando à questão do público bilíngue, pensei em fazer um texto pra discorrer unicamente sobre isso, mas creio que essa oportunidade seja ótima, principalmente pra resumir o problema: eu escrevo textos separados para o público anglo-saxão? Crio uma publicação completamente diferente? Desisto do público brasileiro? Traduzo todos os textos já escritos e que ainda vou escrever para o inglês? — isso na verdade seria bem interessante pra analisar a resposta dos públicos diferentes, mas é impraticável.

Não apenas o público, mas de que forma escolherei trabalhar meus textos? Focarei em textos reflexivos como este? Farei textos padronizados pra conseguir views e shares? Falarei sobre séries? UGH!

Ou posso simplesmente continuar fazendo textos que terminam com mais perguntas do que respostas…

*Perdoem-me por esse exemplo de eloquência tolamente desnecessária. Não me contive!

**Irônica ou até hipocritamente, minha tradução, com um dos títulos mais padronizados de hoje em dia (“x coisas que farão tal coisa” ou “x hábitos de pessoas bem sucedidas”) é, entre os meus textos, aquele com maior índice de visualização e leitura no Medium…

PS: Não colocarei minha “call to action” padrão porque, além de ser contraditório com toda a temática do texto, eu realmente não acho que seria um bom encerramento. Ao invés disso eu pergunto: você que leu o texto até aqui (obrigado) e por acaso escreva ou esteja pensando em escrever… Sofre com essas mesmas questões? Como você lida ou lidou com isso? Me conte.

Por favor.