Medo e Horror

Monstros que me ajudam a lutar contra meus próprios demônios.

O dia está lindo lá fora. Pássaros cantam, o sol brilha, um sopro refrescante toca os sinos dos ventos, crianças berram, carros de propaganda política passam… E aqui dentro eu constantemente luto contra demônios invisíveis presos em meu peito, no fundo do meu coração, sobre a boca de meu estômago e trabalhando nos cantos mais escuros de minha mente.

E agora, quem poderia me defender?

Pois quem diria que Slenderman e uma tropa infindável de monstros, aberrações e assombrações seriam de grande auxílio para mim?

Para quem não conhece, este é o Slenderman:

Seduzente

Ele é um monstro criado pela internet há muitos anos e faz parte de um gênero de horror chamado creepypasta: contos de terror curtos, fabricados pela internet de uma forma a parecer real, com manipulações de fotos, gravações de áudio, vídeo e até mesmo manipulações de jogos em alguns casos magistrais.

Slenderman (literalmente, Homem Esguio) é o mais popular produto do gênero, tendo gerado inclusive alguns jogos de terror para computador. Mas apesar de já ser horrível por si só, ele é só a superfície de um oceano muito profundo…


Tá com medinho? O medo te salva :)

Ainda no início dos anos 2000, cansados do foco no Slendy (para os íntimos), um grupo de escritores decidiu de certa maneira “debandar” dos fóruns de creepypasta. Alguns já possuiam blogs focados em contar histórias em primeira pessoa sobre diversos monstros variados. Ao perceber que estes monstros tinham em comum o conceito de serem cada um a personificação de um medo, criaram o The Fear Mythos (O Mito do Medo) e o The Fear Manifesto (o Manifesto do Medo, um documento contando a história da formação da mitologia, da wiki e as poucas regras para contribuir com a comunidade).

A lista é imensa (na imagem acima estão apenas alguns dos principais), e não entrarei em detalhes, mas uma coisa muito importante sobre esta comunidade formada é que ela continua crescendo e se atualizando e que a independência do autor é o mais valorizado. Assim, por mais que dois autores distintos decidam escrever sobre um mesmo Fear — digamos, por exemplo, a Mãe das Cobras, a personificação do medo de reflexos e de si mesmo — eles tem a liberdade de contar uma história com tal Fear e representá-lo da maneira que bem entenderem, desde que respeitem as características básicas para determinado Fear — no caso, aparência ofídica, sua ligação intrínseca a espelhos e reflexos, a limitação de não poder contar mentiras, mas a liberdade de manipular através de meias-verdades e seu desejo em tomar almas humanas para si ao convencê-las de entrar em seus espelhos.

A comunidade dos escritores de Fears tem também a liberdade de ter seus próprios blogs e vlogs para contar suas histórias independentemente de formato ou cânone, mas mantém um wiki como fonte de conhecimento e informação sobre os diversos universos, histórias e representações de medos humanos criados por seus autores.


Segure. Contenha. Proteja.

Também em meados de 2006/2007 surge na internet um wiki chamado SCP Foundation. Uma coletânea de artigos apresentando métodos de contenção dos mais variados itens anômalos e seres sobrenaturais que ninguém em sã consciência poderia imaginar, com muito horror, coisas grotescas, inteligência e humor (sim!), advindos de uma organização governamental internacional secreta destinada a manter mais do que o planeta, mas todo o nosso conceito de realidade intactos, algo por vezes comparado aos M.I.B. — Homens de Preto.

O wiki hoje conta com aproximadamente TRÊS MIL artigos, incontáveis itens anômalos (itens que são simples, inúteis ou inofensivos o bastante para não necessitarem uma classificação apropriada), vários eventos inexplicáveis, uma longa lista de contos e diversos autores.

O interessante da SCP Foundation é o formato. Enquanto creepypastas e The Fear Mythos dão liberdade total ao seu autor e as criações dos gêneros estão espalhadas pela web, a Fundação desde seu início centraliza todos os artigos e histórias em sua wiki. Além disso, os SCPs, sua atração principal, são escritos como documentos confidenciais contendo instruções de contenção, com uma estrutura definida, são conhecidos por sua numeração mais do que por seus títulos, e apesar de manter o ideal de liberdade entre as histórias para cada autor, não apenas permite como estimula referências cruzadas entre os SCPs.

A comunidade ainda mantem em arquivo diversos artigos com listagens de grupos rivais, times de ataque e espionagem, padrões de categorização e classificação, locais e áreas de contenção, entre muitas outras dicas de como escrever artigos ricos dentro do universo estabelecido.

Clique aqui para visitar a “filial brasileira” da Fundação, que contém poucos SCPs traduzidos, mas já dão um gostinho da original.


Nosso querido — ou nem tanto — Slendy já era meu conhecido de longa data (o conheci quando o primeiro jogo “estrelado” pelo personagem foi lançado e não tive experiências boas, como já era de se esperar). Mas os Fears e a Fundação me foram apresentados a partir de uma longa cadeia de acontecimentos.

Em resumo, um amigo me indicou um podcast chamado Light Bulb (o qual eu já recomendei aqui, junto com diversos outros podcasts) e um de seus episódios é focado na maestria narrativa e visual de Marble Hornets, uma websérie de horror focada no Slenderman, a primeira de uma tríade a estabelecer muitos padrões visuais e comportamentais do monstro.

Sua história complexa me levou em busca de explicações, as quais eu consegui através do indescritível canal Night Mind. Nos vídeos do canal, comentaristas afoitos e animados comentaram sobre SCPs e Fears — e a partir daí eu fui apresentado a estas comunidades.

Agora, depois desta longa apresentação, afinal de contas como histórias de terror macabras tem me ajudado durante meus piores momentos, mesmo me fazendo perder noites de sono com medo do escuro?

Duas expressões se destacam: personificação do medo e comunidades.

Primeiramente é importante notar que a ansiedade da qual eu sofro é um medo generalizado e paralisante. Por ser generalizado, é difícil não apenas de se tratar como de se identificar causas e etc… Ataques de pânico são a pior coisa, pois levam seu corpo a um estado de fuga (hiper-ventilação, pulso acelerado, musculação tensa, pupilas dilatadas, foco difuso…) típico de um encontro verdadeiro com monstruosidades, mas sem causas aparentes, sem algo para atacar ou do que fugir.

De algum modo ter monstros para temer ajuda neste processo ansioso. Lembrar que estes monstros são criações de comunidades de pessoas criativas e engajadas é a arma para combater o medo. E ter comunidades de pessoas dedicadas há anos à criação e (ao menos no caso da Fundação) administração desses seres é inspirador.

E para alguém tão descrente no mundo e na sociedade como eu, ver pessoas dedicadas a doar seu tempo (e no caso de criadores de webséries, muito tempo e muito dinheiro) para criar histórias de qualidade sem expectativa de retorno financeiro algum, principalmente por fazerem parte de um nicho dentro de outro nicho, é muito esperançoso.

E eu não sou o único! Nos comentários do canal Night Mind diversas outras pessoas tem comentado como Nick (o apresentador) tem, contra-intuitivamente, ajudado-as a passar por momentos difíceis através de suas indicações e análises de obras contemporâneas de horror — e de sua voz grave e suave.

E à noite, ao dormir, quando pensamentos ruins voltam a passar pela minha mente, sentir-me vigiado por monstros preparados para me sequestrar, rasgar minha carne, ruir minha sanidade e devorar minha alma é… Bom, de maneira nenhuma reconfortante, mas menos perigoso do que o mundo lá fora e mais seguro do que as incertezas que o amanhecer reserva. Estes monstros trazem ainda consigo o medo da morte, este um medo tão importante que a depressão trata de extinguir.