Sobre Criatividade, Autoria e Conflitos

E ansiedade e depressão e auto-crítica e normalidade…

Recentemente (na verdade ano passado, então já faz um tempinho…) li o artigo escrito por Kamil Stanuch chamado Quando Alguém Rouba Seu Post do Medium. Nele, ele conta como percebeu a ocorrência de um “plágio” no ambiente aparentemente amigável do Medium. A história em si não é importante aqui, mas sim os questionamentos levantados nos comentários referente a autoria e pensamento criativo.

Em especial a resposta por Ben Belser, em que o mesmo afirma:

O problema ainda maior que eu vejo, e a base deste post, é esse: ao ler ambos os artigos mencionados, tem-se a sensação desconfortável de que nenhum autor na verdade importa-se com a mensagem que está transmitindo, nem com os problemas e tribulações de seus leitores, mas em explorar os padrões de seus leitores para “viralizar”. […]
Ainda mais perturbador, estes auto-promotores (perdão, “estrategistas digitais”) estão vendendo um produto mais que falso: não uma panaceia para seus leitores, mas um recipiente vazio para seu próprio engrandecimento ou incremento, embalado como um artigo, aforisma ou conselho só pra você, querido leitor.

Auto-crítico como sou, comecei a me auto-analisar, especular, questionar… Seria eu apenas mais um na massa de (re)produtores de conteúdo — palavra que o mesmo caracteriza como vil — , incapaz de fazer algo por mim mesmo, que represente meus verdadeiros pensamentos, e não apenas uma cópia do consciente popular? Seria eu apenas mais um alienado a reproduzir coisas e ideias já criadas por outros sem pensar as minhas próprias?

Na presença desses conflitos íntimos, ansiedade e depressão entraram com força. O pensamento de que é inútil continuar escrevendo, uma vez que não sou capaz de criar, apenas reproduzir, permeou minha mente ao longo dos primeiros dias do ano (e pensar que eu estava animado com 2016!). Isso não apenas gerou um bloqueio criativo, mas um bloqueio geral.

O problema de se ter ansiedade, depressão, um senso forte de auto-crítica e lidar com comunicação — mesmo que eu não seja um profissional da área — é que, ao menos no meu caso, eu só consigo fazer alguma coisa se não estiver propriamente pensando na dita coisa. Se eu me preocupar em fazer tal coisa, a ansiedade automaticamente toma conta: penso nas formas diferentes e melhores de completá-la, preocupo-me com o feedback negativo que posso vir a receber — ou pior ainda, não receber — , reviso, corrijo, analiso, e Deus me ajude se eu tiver um prazo.

A auto-crítica é boa pra discernir o correto do errado. Mas em excesso ela te força a questionar-se e duvidar da própria capacidade, além de alçar seus níveis aceitáveis de qualidade a alturas, geralmente, impossíveis de alcançar em um primeiro momento. Quando não me sinto capaz de fazer algo que eu quero, como quero, em tempo hábil, a depressão entra em cena, como um curto-circuito, causando uma queda no meu “disjuntor” emocional, físico e psicológico.

Um lado bom inquestionável da depressão é que, ao promover um apagão, ela te força a rever conceitos, metas, projeções, expectativas… Coisas de seu passado, seu presente e seu futuro.

Em meio a essa auto-análise promovida por uma depressão, consequência da ansiedade decorrente do excesso de auto-crítica, lembrei-me dos textos que originaram tal confusão*. Em resumo, ambos diziam que tudo o que você fizer no início vai ser ruim, e tudo bem. Você apenas deve continuar fazendo, treinando e praticando que você irá melhorar com o tempo — porque eu parei com as aulas de teclado?! E porque eu parei de desenhar?!

Ironicamente (talvez filosoficamente?), a origem de meu questionamento provou-se ser a resposta em si. A verdade é que, no fim das contas, não interessa se suas ideias não são propriamente suas, ou se lhe falta originalidade pra transmiti-las ou ainda se você está literalmente copiando e colando algo (desde que não infrinja nenhuma licença, claro). Só o que importa é se você acredita naquilo que está compartilhando com seu público — mesmo que tal público seja sua rede de amigos no facebook. Eventualmente, de tanto consumir e “regurgitar” tais ideias para os outros, você acabará sintetizando as suas próprias.

Aliás, eu percebi que sim, eu tenho minhas próprias ideias eventualmente. Elas apenas acabam se perdendo na enxurrada de pensamentos e leituras. Não só isso como eu sei que luto pra me manter fora de caixas e fora da normalidade, mesmo isso não sendo uma tarefa fácil — estou, afinal, inserindo em um contexto em que meu normal já é fora do padrão pra muitas pessoas.

Falando em normalidade e padronização, é importante notar que hoje em dia há vários padrões culturais, pensamentos normais e conceitos naturais em uma mesma sociedade. Por exemplo, falar de sexo abertamente é algo natural pra mim e pro grupo social em que eu me incluo, pras pessoas com quem eu converso, pra “consciência social” da qual eu faço parte. Enquanto pra muita gente isso ainda é considerado um tabu. Certos conceitos que eu conheço desde a adolescência e que, caso eu venha a reproduzir pra alguém “do meio”, não passarão de cliché, podem ser vistos como altamente inovadores e até transgressores para grande parte da sociedade.

Além disso, vejam só: foi justamente o texto resultado de cópia (ou reprodução de ideia, ou fruto de consciência coletiva, ou puramente marketeiro, ou, ou, ou…) aquele a que eu tive acesso primeiro, aquele que chegou a mim como resposta de uma questão que eu viria a ter, criada por ele mesmo a partir da cópia. A ciclicidade da história chega a ser poética.

Foi esse texto, tão falho, tão mal-dito, tão genérico, criticado até por mim, que me provocou uma discussão interessantíssima e me entregou a solução para um problema — por ele mesmo criado, certo, mas deixemos esse detalhe de lado daqui em diante. A partir disso outros questionamentos surgem, mas que dessas vez não dirijo a mim mesmo:

  • A reprodução de ideias e conceitos é assim tão vil, se ela permite o alcance maior de tais ideias?
  • Até que ponto é possível dizer que reproduzir a ideia de outrem demonstra falta de criatividade?
  • Compartilhar uma ideia, mesmo sem ser sua, é deixar de contribuir à sociedade?
  • Ser canal e condutor de uma ideia, sem criá-la, é prejudicial a alguém de alguma maneira?

Claro, pode-se debater ainda os limites da originalidade e da individualidade de ideias, mas sinto que esse tema é melhor trabalhado em um grupo de discussão e não em um monólogo textual…

*Interessantemente, o texto informado como “plágio” agora apresenta um infográfico bem bonitinho e bem feito que resume bem a ideia de ambos os textos, feito por um leitor que foi devidamente creditado. Seria esse leitor, apenas mais um na massa, mesmo se dando ao trabalho — difícil, acreditem — de criar um infográfico?


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