Meu encontro com Zé Pelintra

Por Mariana Balan

Minha incursão na umbanda aconteceu sem eu saber quase que um nada sobre a religião. Já ouvira falar, é claro, de Iemanjá, São Jorge, Maria Padilha — essa última graças a uma homenagem prestada num carnaval pela atriz e dançarina Viviane Araújo, confesso. Reais usos e significados, contudo, não conhecia.

A descoberta teve início na primeira sexta-feira de junho de 2017, quando fui levada pela Vanessa, minha amiga do curso de Jornalismo, à Casa das Orquídeas (CDO), terreiro de umbanda que fica em Curitiba. Isabela, outra amiga, nos acompanhou. A Vá é umbandista há alguns anos, enquanto a Isa, assim como eu, pouco conhecia da prática.

Nos dias que antecederam a gira — como é chamado o “culto” da umbanda — , Vanessa nos instruiu sobre algumas coisas. Contou, de forma breve, sobre o funcionamento do ritual, passes e linhas de trabalho, o sincretismo com a religião católica e no que os umbandistas acreditam. Em determinado momento, perguntou se nós gostaríamos de ser atendidas por alguma entidade. As entidades, no caso, são espíritos que já passaram pela Terra e incorporam em médiuns a fim de guiar quem precisa de ajuda. Eu queria a experiência completa.

Aqui abro parênteses breves para dizer que não sou uma pessoa cética. Tive criação católica, com direito a batizado, primeira comunhão e crisma, mas também frequentei por muito tempo um centro (espírita) kardecista com meus pais. Já me consultei com médiuns, presenciei incorporações e perdi a conta de quantos passes tomei nessa vida. Em nenhum momento, portanto, senti medo no terreiro. Me considero uma pessoa de fé, mas sem religião definida.

Voltando ao atendimento, perguntei à Vanessa com que entidade deveria me consultar. Ela disse que os médiuns conseguem incorporar vários guias espirituais, mas que na CDO, nos dias de gira aberta ao público, são sempre as mesmas entidades que atendem. Segundo ela, isso acaba “fidelizando” os consulentes — como são chamadas as pessoas que vão até o terreiro para, como o nome sugere, consultar-se com os espíritos — , que chegam à casa sabendo que entidade encontrar. Vá me falou que o recomendado é que quem vai pela primeira vez à CDO passe por Zé Pelintra, malandro famoso.

Cantinho do Zé Pelintra na CDO (Imagem: Mariana Balan)

Na adolescência, ouvi uma amiga usar “Zé Pelintra” como sinônimo de capeta algumas vezes. Eu não fazia ideia de quem era, mas achava o nome engraçado, simpático até. Pra ser sincera, nunca tive medo do capeta. Mas foi só com a Vanessa que descobri que seu Zé, como o chamam carinhosamente, é um espírito bom. A Mariana de 16 anos ficou envergonhada.

Quem incorpora Zé Pelintra na CDO é o Cristian, que chamam de Cris, pai de santo do terreiro. Cris é um homem alto e magro, na casa dos 40 anos, charmoso. Vanessa contou que é advogado. Na minha cabeça de pré-conceitos, o pai de santo seria um senhor negro, barba meio branca, meio preta, levemente arcado, com muitos anos de vivência.

É sexta-feira. Chegamos à gira com cerca de uma hora de antecedência. A CDO é, literalmente, uma casa, de esquina, branca e de madeira. Passaria batida, não fosse uma (discreta) placa onde se lê “Casa das Orquídeas — Centro Espiritualista de Estudos e Caridade” e uma estátua de, justamente, Zé Pelintra, bem na porta. Quem nos recebe é Lígia, capitã do terreiro — espécie de auxiliar do pai de santo. Simpática, ela pergunta se queremos atendimento. Isabela acha melhor deixar para a próxima e eu solto um “claro!”, animado até demais. Ela avisa que seu Zé já está lotado — tem gente que chega ao terreiro antes mesmo do sol se pôr para pegar senha — e que, se eu ainda quisesse uma consulta, poderia conversar com Nego Gerson, outro malandro que atende na casa, para quem encaminham aqueles que não conseguem falar com o Pelintra. Fico um pouco frustrada, é claro, mas aceito. Quinze minutos depois, Lígia me procura para contar que, por ser minha primeira vez na casa, vou conseguir, sim, falar com seu Zé. Quase solto um gritinho.

As entidades chegam na segunda parte da gira, após os passes. Isabela ficou tão emocionada com o passe que recebeu que solta o choro. O passe me deixou mais leve, sim, mas não consigo conter a ansiedade para a consulta. Nessa noite, estão ali três malandros. Além de seu Zé e Gerson, há Maria Navalha, também malandra, mulher do cais, de chapéu vermelho e que ri alto — achei o máximo. Vanessa me conta que normalmente lhes fazem companhia um exu e uma pombagira, mas o casal que os incorpora está com gripe.

É praxe que Zé Pelintra faça uma espécie de discurso de abertura, antes das consultas começarem. Ele fala sobre a plenitude do ser humano, alcançada somente quando sua verdadeira essência é seguida. Que o passado não dá respostas e que o olhar deve ser à frente. Que todo mundo colhe o que planta. Pergunta para Lígia se tem gente nova por ali e ela fala de mim e Isa, sobre estarmos na casa para um trabalho da faculdade. Enquanto tento decorar o discurso dele em minha cabeça, para este texto, ele solta “jornalista, viva o momento, não tente guardar minhas palavras”. Fico com vergonha. Seu pedido é uma ordem.

Feito o discurso, Lígia começa a chamar as pessoas pela ordem que tem anotada em uma prancheta. Seu Zé fala pelos cotovelos. No tempo em que Gerson e Navalha atendem duas, três pessoas, ele atende uma. Gosta de ter um monte de gente ao seu redor e não larga a garrafa de cachaça. A Vá me falou que é comum que ele beba mais de um litro por gira, e que quando o espírito desincorpora, é como se Cris tivesse bebido, sei lá, dois copos de chope.

Já passa das 23h e nada de me chamarem. Estou de pé desde as 6h30 e o sono começa a bater. Discretamente, Vanessa pergunta para Lígia se vai demorar e ela diz que sou a próxima. A informação me chega como cinco latas de energético. Me sinto desperta, animada. Maurício, meu namorado, não para de me chamar pelo WhatsApp. Está preocupado com a falta de notícias, quer saber a que horas chego em casa, pediu para eu ligar. Mas um aviso na parede diz que o uso de celulares é proibido, então me contento em olhar as mensagens pela tela bloqueada.

Questiono, então, já que o destino a nós pertence, por que aquele lugar está cheio. “É que as pessoas são desesperadas”, me diz Zé Pelintra.

“Mariana!”, chama Lígia, com voz que mistura firmeza e carinho. Sorrio para a Vanessa e vou até seu Zé. Ele está terminando o atendimento de uma senhora e pede para que eu preste atenção. De forma simplista, ela tem um restaurante e acha que um concorrente está de olho gordo pra cima do negócio. Zé Pelintra ri, e diz que o sucesso só depende dela. Essa, aliás, é uma das principais lições que ele passa, de que nós somos responsáveis pelo nosso destino. Explica, porém, que às vezes recebe pessoas que realmente foram alvos de um trabalho ruim, “mas é um caso em 100”.

É a minha vez. Seu Zé elogia meu casaco vermelho — escolhido ao acaso (será?) pela manhã -, diz que tenho uma aura francesa (amei) e que gosta do meu sorriso. Conta que sou um espírito velho e que as pessoas costumam me procurar como uma espécie de voz da razão. Minha cor é púrpura. Mas avisa que tem algo ruim para dizer: preciso sonhar mais. Começa a me provocar, quer que eu pergunte, que o desafie. Fico intimidada. A noção de tempo e espaço muda e a vontade que tenho é de fechar os olhos e só ouvir.

Questiono, então, já que o destino a nós pertence, por que aquele lugar está cheio. “É que as pessoas são desesperadas”, me diz Zé Pelintra. Elas não confiam em si mesmas e precisam que alguém lhes diga o que fazer. Ali, aparece gente com os mais variados problemas. Do básico, como a crise financeira que atinge um comerciante, aos números de um processo judicial. Pedem também pelos filhos, por um amor, por emprego.

Agarrado à garrafa de 51, seu Zé me fala que nós somos responsáveis pelo o que acontece em nossa vida. Usando a cachaça como metáfora — ele fala muito com metáforas, aliás -, diz que nós podemos escolher se fazemos daquilo uma alegria, uma desgraça ou um sonho (comprovações científicas inexistentes). Ao final, me convida a dar um gole — “de olhos fechados, porque ninguém sonha de olho aberto” — e fazer um pedido. A 51 desce lisa, doce. O pedido, é claro, não posso contar. Mas há tempos não dormia tão bem.

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