Superdeterminismo — Capítulo 2


Leia o capítulo 1: 

Superbacana

William reencontra um velho amigo e percebe coincidência surpreendente após viagem lisérgica


Toda essa gente se engana
Ou então finge que não vê que
Eu nasci pra ser o superbacana
Eu nasci pra ser o superbacana
Superbacana
Super-homem
Superflit
Supervinc
Superhist
Superbacana
— Caetano Veloso

Um argentino bem calvo, careca mesmo. Toca guitarra na entrada do metrô Faria Lima, acompanhado de uma base eletrônica. “Toca pra caralho”, comenta um hippie do momento olhando para William, que, meio hipnotizado, nem presta atenção. A trilha sonora de fundo são os fortes acordes do Deep Purple em “Smoke in the water”, que o artista de rua gringo destrinça magistralmente ali, ao vivo, poucos passos a sua frente, de jeito performático.

Depois que saiu do banco, deu um tempo na calçada. Sua cabeça se revolvia em pensamentos díspares; então do nada resolveu pegar o metrô. Por quê? Não se sabe, foi instintivo, como que parte da própria confusão mental. Não pegava metrô fazia muitos anos. Mergulhado nas profundezas de sua mente, William é atraído pela música. Na entrada da estação, para a fim de assistir ao show de rock do argentino careca.

Como num flash, lembrou do velho amigo roqueiro, o Leo. Fazia também muito tempo desde a última vez em que o tinha visto e falado com ele. O cara era muito fã de Deep Purple (e Zappa). William lembrou dele enquanto via o show do careca na porta da estação. Só podia ser por isso. Sentiu saudades do velho amigo e, impulsivamente, decidiu ligar pra ele.

— Estou indo pro metrô…

— Cola aí…

No caminho para a escada rolante, ainda ouvindo os acordes do rock de rua, um panfleteiro lhe estende um folheto rosa qualquer, que ele pega e roboticamente guarda no bolso do paletó, sem nem olhar.

Leo era publicitário. Depois resolveu virar artista plástico, até que voltou a ser publicitário. Desde que Leonardo tinha virado artista plástico, William não falava com o amigo, por isso não sabia da volta dele para a publicidade.

Leo não decidiu voltar a ser o mesmo publicitário de antes. Voltou por conta de uma revelação que alcançou como artista plástico. Foi algo pessoal e profundo; não se pode resumir assim, rápida ou objetivamente, em poucas linhas, o que o fez passar por tantas mudanças. Era fruto de viagens lisérgicas de ayahuasca e meditações transcendentais, incenso indiano, leituras tibetanas. Muitas leituras. Leo pendia mais para o lado oriental nas filosofias pessoais e era no que acreditava.

Para William nada disso nunca importou, mas conforme o amigo foi ficando mais etéreo e incompreensivo nas conversas, foram se afastando, mais talvez por conta do trabalho de William, que só aumentava. E provavelmente por Leo ter virado artista plástico. William tinha certo preconceito com essa galera das artes, de humanas. Nunca entendeu bem o que pretendiam dizer com o que diziam. Nunca fez muito sentido para ele.

Não que tivessem perdido a amizade, que talvez se fragilizou pela distância dos últimos tempos (cerca de 4 anos, talvez um pouco mais; tempo que passou muito rápido na percepção de ambos, ainda que não soubessem que compartilhavam dessa sensação). Foi no que William pensou — no tanto de tempo desde a última vez que tinham se visto — quando ligou para Leo e marcou o reencontro.

O velho amigo ainda morava no mesmo lugar, que lhe era tão característico e inspirou William na compra de seu grande apartamento. Leo morava sozinho num apartamento de um prédio de dois andares, bem velho, nos miolos da Vila Mariana. Herdou da mãe, que tinha herdado do pai. Construído no começo da década de 50, uma preciosidade: tudo era antigo.

O ambiente do apartamento parecia congelado no tempo (inclusive pela temperatura, geralmente quase fria, fresca e meio úmida): sofás, móveis, aparelhos, tudo era conservado com esmero, uma tradição da família, o que transforma o lugar numa viagem ao passado. Era uma viagem. Foi lá que William percebeu que um estilo autêntico para quem tem dinheiro é cultuar coisas antigas e bem feitas, não as modernas e ocas, de ocasião e efêmeras, mas esse princípio alcançava-o em uma ocasião ou outra, no dia a dia, em alguma situação, claro. William aprendeu com Leo a gostar de coisas antigas e estilosas, como a Enterprise.

Leo destravou a porta pelo interfone e William subiu as escadas, já ouvindo a música e sentindo a temperatura mais baixa do interior do edifício. Tudo continuava como antes, até os ruídos dos seus passos no trajeto. A porta do apartamento 3 está entreaberta e William respira aqueles aromas de insenso, sempre impregnando a ocasião.

William abre a porta, entra e não vê ninguém na sala. Ouve uma trilha sonora nacional, o que estranha, pois Leo nunca foi muito fã de música brasileira. Da cozinha Leo diz:

— Entra aí…

O cheiro de café fica mais forte enquanto se aproxima da porta da cozinha, na entrada do corredor. Flagra Leo sem camisa, de bermuda e chinelo, coando um café.

— E aí, veínho… Como é que tu tá?

Leo é gaúcho. Já tinha morado em Curitiba, Manaus e Rio de Janeiro. Um mashup de sotaques.

Eles se cumprimentam e se abraçam, felizes pelo reencontro. Finalmente William está mesmo relaxado desde que saíra do banco. Até quase esquecia o que houve. Seu subconsciente ainda perguntava se tudo, afinal, não era mesmo um sonho. Ainda mais naquele apartamento, que recuperava muitas sensações, pois tinha sido importante na sua história mais ou menos recente.

Depois que o pai morreu, William ficou profundamente depressivo. Poucos meses depois, morreu seu avô. Sua avó tinha morrido antes mesmo de ele nascer, o que levou neto e avô a se apegarem muito. Perder o pai e, na sequência, o avô era um trauma para William.

Sua mãe vendeu o apartamento em que moravam e, para melhor enfrentar suas tristezas, foi morar num lugar menor, numa região inconveniente para os estudos de William, que então fazia doutorado. Leo o convidou para ir morar com ele. William conheceu Leo um tempo antes, enquanto trabalhou num projeto do Google. Essa parceria, de morar com o amigo, durou três anos. Foi ali que se recuperou da depressão. Foram os melhores anos de sua vida. Concluído o doutorado, William saiu da casa de Leo e foi trabalhar um tempo na China.

Eles trocam amenidades, bebericam o café. Estão felizes. Leo tira sarro de William, que está de terno e gravata, e essa é a zoação clássica de Leo para cima do amigo “coxinha”.

— Mas e aí…? O que tá fazendo além de fumar maconha…?

— Bá, fi… Contei pra ti que voltei para a publicidade? Tu ficou sabendo?

Algumas coisas mudaram no apartamento e foram as intervenções produzidas por Leo em seu período de artista plástico. William notou isso sentado no sofá. Leo estava de pé, falando e gesticulando, e a visão periférica de William percebia as cores e formas do fundo: eram os quadros pendurados na parede. Havia também uma curiosa estátua feita de fita adesiva. Em tamanho real, ela exibia um homem engravatado segurando um longo pênis pro alto, de mais ou menos um metro.

Leo explicava sua volta para a publicidade. William ouvia tudo fazendo algum esforço para continuar atento ao amigo. O que via, sentia e pensava estava acontecendo em instâncias paralelas na profundidade da sua mente.

Quem já ouviu falar em moscas volantes? Digamos que é quando seus olhos, ao longo do tempo e conforme o uso, acumulam gastos que se tornam visíveis. Assim a maioria das pessoas passa a enxergá-las ali pelos 30 anos. Quem tem moscas volantes vê pequenos pontos, como grãos de areia transparentes, mais perceptíveis com iluminação clara, em fundo branco, quando se revelam mais nítidas, parecendo moléculas ou bactérias que se veem em microscópios pelos laboratórios por aí.

William acompanhava o momento presente e comparava instantaneamente com tudo o que tinha vivenciado até conhecer Reinaldo, procurando em fragmentos de imagens dos últimos 30 dias as evidências que explicassem aquela realidade como um sonho. Sentado no sofá de Leo, ouvindo seu interlocutor, William também escutava seu inconsciente dizendo: “Você tem R$ 709 milhões”.

Um flash atravessou seus pensamentos sussurrando “Superdeterminismo”… Então o inconsciente começou a exibir duas “moscas volantes”, insistentes, no meio dos pensamentos de William, enquanto ele tentava conversar com o amigo: “Superdeterminismo” e “Você tem R$ 709 milhões”.

William tentava domar essas intromissões e não deixar transparecer ao amigo o quanto estava perturbado. Leo então entrou no assunto da sua nova iniciativa, uma agência única e exclusiva em todo o mundo.

— Mas antes de te falar da Consigliere, vamos fumar um…

Leo aproveita para virar o disco na vitrola e vai até seu acervo de maconha, uma caixinha onde guardava a erva. Tira de dentro um baseado já pronto, elegantemente orquestrado, e uma amostra da matéria-prima que usou: um camarão enorme, todo rosa claro. Leo planejara duas coisas para receber o amigo: primeiro o café, agora a maconha.

— Essa é da boa… Especial!

William esbugalha os olhos enquanto cheira a iguaria.

— Pois é… Um amigo me mandou do Uruguai, é a primeira variedade original de lá… Concha rosada… Pink pussy… Buceta rosa…

— Uau…

Foi o que William conseguiu dizer depois de dar a primeira tragada e relaxar para dentro do sofá. Começou a prestar atenção no que Leo dizia — sua nova agência, a Consigliere, tinha acabado de conquistar a conta do Departamento de Energia Nuclear da prefeitura de Tóquio.

Quando Leo, entusiasmado, se virou na lousa para desenhar o organograma da iniciativa, William percebeu que do rosto do amigo saiam linhas, formas geométricas e padrões fractais que começaram a formar um caleidoscópio multicolorido que partia do centro do nariz de Leo e ia aumentando de tamanho conforme ele falava.

Esse caleidoscópio foi crescendo sem parar, até alcançar a mão de William, que, ao sentir o braço sendo tomado, levou um susto e a sala sumiu, todo o ambiente desapareceu. William só podia ouvir o que Leo dizia, sem conseguir pensar em mais nada. Sua mente estava vazia, oca, e a voz do amigo era cristalina, como se fossem doces palavras de pura verdade cantadas pela lógica da própria Realidade. De repente, sabe-se lá por quê, William se lembrou de René Descartes e o visualizou proferindo as palavras que seu amigo dizia:

— No fundo, foi uma grande coincidência. Nunca imaginei que isso iria acontecer, mas aconteceu. Eu não procurei o cara, ele que chegou até mim, por completo acaso. Foi sorte. Eu não podia desperdiçar a oportunidade. Eram os deuses me mostrando que esses anos todos de busca e reflexão tinham chegado ao fim. Dali pra frente seria eu, apenas eu, com as minhas próprias pernas, seguindo meu caminho, meu destino. Estava muito claro e eu entendi a mensagem. Chegara a minha hora, finalmente.

Assim que Leo falou “finalmente”, a imagem de Descartes na escuridão da sala se dispersou e todo o espaço e suas cores retornaram ao que eram antes, de repente, como se a palavra sobrenaturalmente tivesse pressionado o interruptor e religado a luz. William olhava fixo para Leo e percebeu que a alucinação tinha passado. Leo estava terminando de falar sobre a Consigliere e então William notou a letra da música que saía da vitrola:

O espinafre, o biotônico
O comando do avião supersônico
Do parque eletrônico
Do poder atômico
Do avanço econômico
A moeda número um do Tio Patinhas não é minha
Um batalhão de cowboys
Barra a entrada da legião de super-heróis
E eu superbacana
Vou sonhando até explodir colorido
No sol, nos cincos sentidos
Nada no bolso ou nas mãos

Ao fim dessa experiência psicodélica e da música, William olhou para seu joelho direito e se lembrou, de novo como que num flash atropelando sua memória, dos seis números que estavam no volante premiado que recebeu de Reinaldo — e foi exatamente quando os visualizava mentalmente que se deu conta de que eram os mesmos números do seu RG:

2 6 9 16 30 59

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