ITADAKIMASU!

A convite da Dora, me senti motivado a escrever aqui na newsletter. Admito ter, em primeira instância, recusado sem nem pensar duas vezes, apreensivo devido ao embaraçoso fato de não possuir o que é necessário para ser, digamos, minimamente decente na arte da culinária e por temer escrever algo entediante ou sem um propósito maior. Se não fosse pela breve descrição do que exatamente se trata o Food Writing, talvez eu fosse incapaz de enxergar minhas experiências passadas ao longo dos anos como culinárias (que, logicamente e infelizmente, para mim, não envolvem cozinhar). Mas percebi outros aspectos que não se restringem ao paladar, mas, sim, a uma memória, uma anedota, um vínculo antes inexistente entre nós e o que comemos no dia-a-dia.

Tudo isso se passou em menos de um minuto de conversa e uma ideia já disparava pela minha cabeça. Por que não relacionar comida ao campo em que estou mais familiarizado? Apesar de óbvio, nunca havia recebido uma proposta tão propícia para comentar sobre um dos meus autores preferidos do mundo do mangá. Uma obra que, apesar de ter me impactado, nunca teria antes mencionado por falta de contexto ou uma boa razão para tal.

Sem delongas, decidi dissertar sobre Igarashi Daisuke e sua obra Little Forest.

(A geleia quando inteiramente cozida deve ficar uma cor rosa escura, lamacenta e opaca. Eu acho que Mamãe disse uma vez que se você mexer demais por medo de deixar a geleia queimar, ela pode ficar lamacenta. Talvez eu tenha mexido demais enquanto estava murmurando pensando em o que fazer.
 — Cozinhar é um espelho que reflete a sua mente. Fique concentrado. Assim você não se machuca.
 — Então… Acho que essa é a cor do meu coração agora. De um pote de amoras, eu consegui fazer três pequenos potes de geleia.
)

Primeiro, uma breve introdução sobre o autor.

Igarashi Daisuke, nascido no dia 2 de abril de 1969, na prefeitura de Saitama, em Tokyo, estreiou sua carreira como mangaka em 1993 com a obra Hanashippanashi, um compilado de pequenas histórias com temáticas bem incomuns que misturam o fantástico no cotidiano e apresenta algo místico sobre a natureza (uma inspiração direta de Meu vizinho Totoro, segundo ele). Essa característica tornou-se sua marca registrada ao longo de suas publicações até os dias atuais.

Após Hanashippanashi receber críticas positivas e ganhar o prêmio de mangá do ano pela Kodansha (uma das editoras de mangá mais aclamadas no Japão), Igarashi decide se mudar para uma vila na prefeitura de Iwate, Hokkaido, ao norte do país (inverno rigoroso!), conhecidas como Satoyama, algo como “lugares habitáveis próximas a montanha”. A importância destas vilas podem ser equiparadas a ideia de cinturões verdes que abastecem as grandes cidades com vegetais, carnes, frutas e o mais importante para a cultura japonesa, o arroz.

Igarashi passou cerca de três anos no vilarejo como uma forma de se aproximar melhor da natureza e para dedicar-se a agricultura, algo que queria tentar há um bom tempo. Essa experiência lhe possibilitou a criação da obra central deste texto: Little Forest.

A obra acompanha o cotidiano de Ichiko, uma garota que viveu grande parte de sua infância em um vilarejo com sua mãe. Após crescer e se mudar pra cidade grande, se vê mais uma vez de volta ao vilarejo em que cresceu. Revivendo sua infância do ponto de vista, agora, adulta, ela aprecia mais e mais o que a natureza e o esforço lhe oferecem e o que a culinária é capaz de fazer. Pouco a pouco, somos introduzidos a comunidade em que vive, sua rotina e o motivo de sua volta para o campo e de sua saída, para começo de conversa.

Cada capítulo tem como temática um prato ou o cultivo de algum ingrediente, acompanhado de digressões da protagonista, tanto em forma de memórias de sua infância e de sua mãe, quanto de reflexões acerca da natureza ou o carinho do preparo, aderindo um valor maior para o que é cultivado e cozinhado.

Um dos capítulos, por exemplo, aborda como a mãe de Ichiko a fez acreditar por um bom tempo de que a Nutella e o molho inglês que elas mesmas produziam (com ingredientes colhidos frescos do campo) fossem receitas regionais e de autoria própria, não produtos internacionalmente comercializados e industrializados como foi aprender mais tarde na cidade grande. Sentindo-se traída, Ichiko decide tirar satisfações com sua mãe, mas é logo contestada com uma simples pergunta: O que é melhor? Aquilo que fazemos em casa ou o que compramos direto do supermercado? Também indagando, o que devemos valorizar: o produto em si, ou o ritual que envolve o preparo?

(O mesmo aconteceu com o molho inglês. Eu uso o molho comprado no supermercado quando estou cozinhando, mas quando é para ser usado diretamente como molho, somente a nossa própria receita funciona. A nossa infância é importante. Mamãe costumava misturar mentiras com a verdade sempre que estava a fim naquela época. Talvez tenham muitas outras mentiras daquela época que ainda não tenha descoberto.)

Outro capítulo busca debater sobre o que significa exatamente uma “peste”. Afinal, quem está interferindo no quê? Seria a lavoura sob a Natureza ou a Natureza sob lavoura? Ervas, que hoje são consideradas pestes, talvez, há muito tempo, beirassem a extinção ou fossem consideradas raridades. Não poderia, então, ser um milagre o fato delas poderem crescer e coexistir com outras plantas tão facilmente hoje em dia? Só porque vemos aquilo que plantamos como útil, não deveria significar que aquela erva fosse totalmente inútil. Isso não passa de um ponto de vista — neste caso, o do Homem e de suas necessidades sob o meio em que vive.

( — É tão extravangante. É um prato que é realmente um desperdício de trabalho, mas experimente um pouco, Tsukudani de cavalinha. A cavalinha, no fim das contas, é só uma erva daninha. Quando os campos estão repletos dela, não importa o quanto você arranque, elas sempre vão crescer de volta. As raízes são tão pequenas que não dá para arrancar todas da terra.
 — Você pode dizer isso, mas fomos nós que criamos esse ambiente em que as cavalinhas crescem com tanta facilidade. Fomos nós que abrimos essas florestas.
)

Essas são algumas das reflexões que Igarashi Daisuke nos traz do que viveu no campo e sobre o que se entende pelo que está no nosso prato. Acredito que após ler esta obra, as frases tradicionais da cultura japonesa como Itadakimasu — que se traduz próximo a “obrigado pela comida” antes da refeição — e Gochisosama — um agradecimento após a refeição — acabam ganhando um peso maior em seu significado. Não é um simples agradecimento ao cozinheiro que o preparou e sim, um agradecimento a quem plantou, colheu e transportou, também!

Há uns dois ou três anos atrás lançou no Japão uma adaptação do mangá para o cinema. Confesso não ter visto, mas para os interessados pode vir a calhar.

Espero que tenham gostado desta pequena conexão que pude encontrar entre comida e quadrinhos. Quem sabe outro dia eu ainda faça mais uma recomendação dentro dos critérios do Food Writting?

(Obrigada pela comida!

Links e conteúdos adicionais:

Recomendo fortemente os documentários da NHK sobre o Japão, eles são atuais e aprofundam muito bem em todos os aspectos possíveis sobre qualquer tópico, desde coisas mínimas como máquina de refrigerante quanto temas complexos como cerimônia do chá.

E lógico que eles não deixariam de ter um vídeo totalmente dedicado a Satoyama, onde eu originalmente tomei conhecimento do termo e mostra muito do que o mangá fala ao vivo e a cores, então não deixem de conferir! É só meia horinha de duração e menciona as ações de Hayao Miyazaki em relação a restauração de satoyamas: https://youtu.be/jDQj5ZNg1AM

Matheus é apaixonado por cultura japonesa, animação e quadrinhos. Desenha nas horas vagas.

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