MENINAS TRAZEM DOCE

– Ela precisa parar de ser chata desse jeito, se não ninguém vai chamar ela pra comer.

Quem disse isso foi a prima de segundo grau da minha amiga, quando eu tinha uns dez anos, ao meu respeito. Eu estava na casa dela e estava rolando um almoço temático de Natal ou algo do tipo. O prato principal era chester e eu odeio chester. Mas eu odeio mais ainda ser chamada de fresca para comer por gente que nem conheço.

Flash-forward para alguns meses depois, naquela mesma sala, a amiga em questão me chamou pra lá e mais um pessoal tinha ido. A mãe dela, que sempre era muito fofa com todo mundo, arranjou uns hot dogs pra todo mundo. Eu preciso dizer que odeio salsicha. Salsicha é, na real, uma das comidas de que menos gosto na vida e sempre uma grande questão pros outros quando falo isso.

Ao contrário do caso do chester, que é mais compreensível, salsicha causa estranhamento. E causava ainda mais na infância porque entra na categoria comidas infantis que eu sempre detestei. A verdade é que nunca tive o chamado paladar infantil e isso automaticamente me colocava na categoria “fresca pra comer” segundo qualquer adulto.

Nunca gostei de macarrão, acho doces enjoativos, açúcar de forma geral me dá dor de cabeça, sorvete é overrated, sempre comi só o recheio de coxinhas, defendo que presunto é uma conspiração e não é possível que alguém realmente goste disso, ser obrigada a comer ovos me causava arrepios, nunca gostei de queijo e não conseguia engolir nada gorduroso. Eu ia nas festinhas de aniversário e todo mundo agia como se fosse algo inédito eu pedir pra pegar uma água na cozinha da família porque não, eu não queria refrigerante. E, ah, nunca queria um pedaço de bolo, não importa quanto insistissem. Então é, para sempre categorizada como criança chatinha do rolê. Isso quando não tinha aquela coisa de “meninas trazem doce e meninos salgado” que me irritava porque eu era obrigada a levar algo que nem ia comer.

Mas sempre foi mais uma questão de gosto mesmo. Ok, eu não gostava de macarrão, mas comia arroz e feijão todo dia em casa e ainda pedia verduras quando minha mãe ia na feira. Quando eu era criança, minha coisa favorita eram aqueles pacotinhos de repolho e cenoura desfiados, sabe? E uma vez, na quarta série, eu fiz uma aula de culinária com a minha melhor amiga e minha receita favorita foi a de tomates recheados com atum. Não é como se eu não estivesse comendo, eu comia muito bem, obrigada. Mas eu não comia o que os adultos esperavam de mim e esse ponto de discórdia era a razão de todo mundo estranhar quando eu dizia que sim, queria molho de pimenta, mas, por favor, não coloca açúcar no meu suco?

Além de gosto por si só, eu sempre tive algumas questões sensoriais (olá, ansiedade) que, entre outras coisas, afetaram meu jeito de comer. Arranjava as comidas metodicamente no prato, me recusava a comer feijoada porque a ideia de comida mergulhada me causa estresse (aliás, é por isso que detesto estrogonofe) e, de novo, a questão de gorduras, que me fazia ser a criança esquisita que ficava cortando os pedaços de carne até que eles não tivessem mais nenhum pedaço de gordura aparente. “Mas é a melhor parte”, alguém resmungava. Nunca fui boa companhia pra churrascos.

Na vida adulta, isso tem se tornado mais fácil: quer dizer, quando você menciona que come verdura mais de uma vez por dia as pessoas te acham fitness e sempre jogam um “queria ser que nem você”. Outro dia uma amiga mencionou que achava que eu era vegetariana e tive que contar pra ela que a verdade é só que amo hambúrgueres vegetais.

Não é como se minha alimentação fosse super saudável, até porque curto um fast food, às vezes esqueço de comer por várias horas, às vezes a preguiça me consome e como qualquer coisa e, apesar de não curtir açúcar, meu consumo de sódio é mais alto que deveria ser. Questões psicológicas também ajudam, porque a ansiedade não contribui pra dias de alimentação ruim e lá estou eu comendo um pacote de pringles de almoços (o que faço no momento em que escrevo isso). E, claro, tem toda a questão de culpa associada à comida e contagem de calorias que nem vou entrar aqui pra não cair em outro assunto infinito.

Mas já aconteceu de eu almoçar com as pessoas e elas acharem estranho eu propositadamente pegar grãos, verduras, legumes no quilo ou então montar um PF típico quando tinha macarrão ou algo melhor. Ou quando um colega de faculdade disse eu eu era chata pra comer quando não fui no bandejão porque era estrogonofe.

Mas comer é feito de escolhas. Essas escolhas, pelo menos pra mim, têm a ver com conforto. As minhas nem sempre são de fato saudáveis — afinal, batata frita é o amor da minha vida — mas elas são minhas. As texturas que eu gosto, os temperos que eu gosto, algo que eu posso controlar. É por isso que gosto de fazer comida, aliás: pra pessoas ansiosas e específicas, é bem terapêutico poder escolher.

Então não, eu nunca tive paladar infantil. De algumas coisas eu gosto, claro, mas a culpa que os adultos me faziam sentir na época porque “tem criança que não tem o que comer” (ainda não entendi essa lógica) ou “ninguém vai te chamar pra comer na casa deles” foi desnecessária e só contribuiu pra que eu criasse mais conflitos na cabeça na hora de comer.

Comida tem valores nutricionais, e claro, eles são importantes. Mas o valor mais importante aqui é o emocional. Minhas comfort foods mais parecem PFs normais ou, nos dias em que estou inspirada, algo vindo da Bela Gil. E tá tudo bem, porque é assim que eu gosto.

Lorena tem 23 anos, foi parar no jornalismo e seu amor verdadeiro é a cultura pop. Maratonista de séries de TV, livros e qualquer outra coisa sobre a qual possa ser fangirl. Editora da Revista Pólen. Paulistana, feminista, Grifinória, entusiasta do entusiasmo e confessa que marca páginas fazendo orelha. Gostaria de ter nascido Rory Gilmore.

Ilustrações feitas por Gabi

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