NA MINHA CASA, AOS SÁBADOS, SE COMIA PIZZA DE ABOBRINHA

I) Faz 4 anos que eu não moro com meus pais e uns 3 que eu faço café todo dia de manhã para as pessoas que moram comigo. Acho que sou a única pessoa da casa que lava sempre a garrafa térmica com água quente e lembra que o filtro de papel acabou e precisa comprar mais. Quando eu percebi que isso tinha virado um hábito, me senti muito parecida com a minha mãe e com minha vó. Acho que por estar fazendo algo pelos outros na cozinha que não precisaria fazer.

II) Estava na livraria lendo o novo livro da Paola Carosella em que ela fala que sua avó, quando punha a mesa, ficava de pé esperando as pessoas comerem. Ela só comia depois, o que sobrasse, se sobrasse. Era algo assim, não lembro direito. Acho que cozinhar para mim tem muito a ver com essa coisa de que, as vezes, é só generosidade. Mas muitas vezes é um sacrifício que parte de uma mulher que precisa cuidar de outras pessoas. A mão da minha avó parece a da Palmirinha; tem marcas de queimadura e tá sempre parecendo que tá cheirando a cebola. Enquanto eu almoço, ela sempre me pergunta de cinco em cinco minutos se a comida tá boa. Se eu não repito o prato, ela fala que é porque tá uma porcaria.

III) Foi observando minha mãe e minha vó que eu aprendi a cozinhar com cuidado, afeto, paciência. Cozinhar não é sobre a minha pressa, mas sobre o tempo que as coisas precisam para ficarem prontas. Cheguei recentemente a incrível marca de trabalhar oito dias em um fermento para fazer pão. Depois, eu deixei ele morrer (o fim de semestre falou mais alto que as minhas ambições gastronômicas). Mas foi bem legal ver água e farinha virarem um meio de vida pra vários bichinhos que estavam no ar até então. Minha mãe sempre lava as folhas de alface uma por uma. Ela também pica minuciosamente todos os temperos que ela põe na farofa. Acho que uma das coisas mais importantes para cozinhar bem é nunca ter pressa enquanto lida com a comida. Sempre achei que isso afeta significativamente o resultado final.

IV) Cresci indo todas as férias de fim de ano para uma casa no interior que tinha um forno à lenha, mas nunca mexi nele. Quem controlava e alimentava o fogo eram os homens, apesar de que só mulheres usavam ele para cozinhar. Para mim, que vivia a maior parte do ano em uma casa com panela de inox e fogão a gás, era incrível olhar aquelas panelas de ferro e chamas enormes e inconstantes que serviam não só para cozinhar, mas pra iluminar a casa e esquentar a tubulação de água pra gente tomar banho. Depois de acender a lenha, tínhamos que esperar uma meia hora para a água do banho ficar boa. A comida também não cozinhava no mesmo tempo que a comida da minha casa. Acho que isso foi importante para me dar dimensão de que fazer comida é uma coisa complexa, que depende de tantas variáveis. Era parecido com os experimentos que eu fazia no laboratório de química todas as tardes do meu ensino médio. Eu não entendia como cozinhar podia ser uma coisa tão desinteressante para os homens adultos que me cercavam, tão estudados. Mas desconfiava que tinha a ver com o fato das cozinheiras serem mulheres. Elas sabiam se precisava diminuir ou aumentar o fogo, se precisava de mais ou menos água na panela, se ia demorar mais ou menos tempo pro pão crescer a depender da temperatura do dia, se ia ter fruta no pé em dezembro para fazer geléia e, mesmo assim, achavam que não entendiam nada de ciência. Meu pai sempre me ajudou a estudar para as provas de física da escola, mas não ele sabia que pedaços de carne mais grossos demoram mais pra ficar ao ponto certo na frigideira. A termodinâmica te mandou um abraço, pai.

Natália Lobo tem 21 anos, estuda agroecologia, cozinha alguma coisa todos os dias, feminista desde que se lembra por gente, gosta de cuidar de plantas e tem se preocupado em ser melhor no que faz, mas acha que se preocupa demais com isso.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.