Aquele medo de se tornar mais um babaca no trânsito

Passei dois anos livre do trânsito diário de São Paulo. Morando no centro, eu pegava metrô e trem para ir e voltar do trabalho, então meu contato com o caos da cidade era praticamente nulo. Quem sai do centro e vai para o bairro, como era o meu caso, nunca enfrenta dificuldades, já que a cidade inteira está fazendo o caminho inverso — lógica que também funciona no fim da tarde. Assim, minha experiência com transporte público não era nem de longe tão complicada como a de quem sai de um extremo como leste ou oeste no sentido centro.

Resumindo: minha vida era bem tranquila.

Estou passando uns dias na casa da minha mãe, na zona sul. Por isso, vou e volto do trabalho com ela de carro. Pela manhã, descemos a avenida dos Bandeirantes praticamente de ponta a ponta para fazer o contrário à tarde. Nesse percurso, só o período de férias escolares e os feriados prolongados são relativamente tranquilos; no mais, é um inferno. Em dias de chuva, então, você precisa sair de casa consciente de que enfrentará uma batalha. E aí entra o personagem do qual eu não sentia falta alguma no meu dia a dia: o motorista estressado.

Eu saio de casa antes das sete horas e mesmo tão cedo topo quase diariamente com gente assim. Ontem, mal havia saído da rua da minha mãe e quase fui atingido de lado por um carro que, ao me ver sair de uma rua transversal, acelerou ao máximo para me intimidar, deixando bem claro que eu estava entrando na preferencial dele.

Hoje, assim que deixei a senhora Pereira em seu trabalho, no Brooklin, entrei sem querer numa disputa com um sujeito que, ao perceber que eu sairia da guia à direita para entrar na próxima rua à esquerda, acelerou para impedir minha movimentação. Algo totalmente ilógico, já que o Brooklin estava parado por causa da chuva. No fim, ele de fato me impediu de sair, mas ficou parado à minha frente, até que o trânsito andou um quase nada que me permitiu entrar na rua da esquerda enquanto ele permanecia lá parado.

Leo, o idiota

Eu sempre me surpreendo quando dou de cara com motoristas estressados pela manhã, mas eu sei que já estive nessa situação. Aliás, foi o tempo de trânsito que me estragou. Quando comecei a dirigir diariamente, eu era um sujeito extremamente tranquilo, mas com o passar dos anos me transformei num imbecil que buzinava a tudo e acelerava para impedir que outro carro entrasse na minha frente. Muito tempo atrás, quando estava prestes a completar o processo de conversão em babaca, eu fechei um velho na região do metrô São Judas lá pelas sete da manhã. Esse homem fez um escândalo, xingou minha mãe e os filhos que eu nem tenho; disse tanta coisa que eu fui obrigado a encostar ao seu lado e parar o carro. Ele se preparou para a briga, mas eu estiquei os braços e falei algo do tipo “calma, amigo, desculpa. Erro meu”. Ele calou automaticamente, talvez por ter sido pego de surpresa, então seguiu seu caminho quieto.

Esse episódio, somado a outros de quase colisão, me fez perceber que eu precisava urgentemente ficar mais calmo ou acabaria entrando em alguma confusão séria. E foi o que eu fiz. Antes mesmo de saber que ia para o centro, passei a me policiar para não causar mais no trânsito. Também parei de ouvir rádios noticiosas e de me preocupar com o horário, porque, tendo um relógio no painel do carro, eu contava os minutos exatos do meu adiantamento ou atraso. Assim, quando deixei a casa da minha mãe, eu estava quase zen, mas o que finalizou meu processo de calmaria foi ter me livrado em definitivo do carro no dia a dia.

Só espero que este pouco tempo em que estarei de volta ao mundo das quatro rodas não seja o suficiente para me embabacar novamente, porque já tem muitos tipos assim pelas ruas.