A geração “shopping center” e seus 20 anos

Uma reflexão que eu nem lembrava ter feito.

Dia desses, eu estava ocupando meu momento de “nadismo” com uma espécie de ócio produtivo: organizar minha caixa de e-mail’s. Eis que fui até os e-mails bem antigos à procura de algo que eu não sabia bem o quê — acho que foi a intuição que me mandou até lá. Acabei encontrando, então, uma carta que escrevi a um amigo de infância (que, hoje em dia, só acompanho pelo Snapchat). Esse amigo estava em dúvida sobre prestar o vestibular de Medicina mais uma vez após ele não ter sido aprovado. Acabei assinando a carta sob um pseudônimo, talvez para não me comprometer muito com o que fosse dito ali e acabar sendo responsável pelo insucesso de alguém:

Rio de Janeiro, 30 de agosto de 2011.
Aos jovens desse século,
Sobre seguir seus sonhos…
Não vou aprofundar nenhuma tese psicanalítica, deixemos isso para Freud, que o fez muito bem. Quando eu tratar de “sonho”, não necessariamente indicará “a experiência de imaginação do inconsciente durante nosso período de sono”… Podem até coincidir por certas vezes, mas vou abordar especificamente o sonho no seu conceito mais sublime e, simultaneamente, mais confuso. Quando somos crianças, muitos nos perguntam “o que você que ser quando crescer”? Nossa resposta inocente, ingênua, pura, enérgica exclamava um “astronauta”, “modelo”, “médico”… Ninguém questionava, ninguém duvidava… Poucos ficavam com um sorriso escarninho de canto de boca… Era tudo tão mais fácil, não é verdade? E isso, logo em seguida, impulsionava-nos a brincar de ser exatamente aquilo que acabávamos de entoar…
É algo que admiro nas crianças. Esse jeito louco, da iniciativa, do “errar sem medo”, aventurar-se, sem pensar no dia de amanhã… Mas passam-se os dias, as noites… E quando vemos, vem a realidade e mostra-nos que estamos a cinco dias de completar vinte anos.
Paramos para pensar… O que fizemos? Liguei a televisão ontem à tarde e meu instinto masculino me fez cair em um canal que exibia luta livre. Deu para remediar, fugir alguns instantes dessas questões existenciais… Maldito século XXI que deu emoção aos homens! Era muito prático quando nossos objetivos de vida resumiam-se a casar, ter filhos e sustentar a família com qualquer emprego que fornecesse dinheiro suficiente para comer, ter estabilidade financeira e deitar a cabeça no travesseiro sem ser obrigado a pensar, a cada década que se passa, “o que foi que eu fiz até agora?”. Imagino que era um pouco fácil para as mulheres também… Quero dizer, não desmerecendo aquelas que foram Amélias por tanto tempo. Cuidar de uma família não é nada fácil. Até porque se trata de lidar justamente com aquilo que nós, homens, sempre tememos enfrentar: os sentimentos. Mas digo que era um “pouco fácil”, no sentido de que elas não eram obrigadas a ser uma super mulher. Hoje em dia, ela tem que ser além de uma boa profissional, uma boa mãe, uma boa filha, uma boa tudo (com toda carga de responsabilidade da “perfeita estética eterna”)…
Como vi que a luta não estava resolvendo grande coisa — atenção, refiro-me à luta da televisão sobre que eu falara outrora, isso não é um comentário batendo de frente com a luta feminista, caro leitor. Meu nome é Eustáquio e meu propósito com essa carta é outro -, então como vi isso, resolvi trocar o canal. Detive-me, em seguida, em um canal de documentários que exibia um programa sobre aqueles que haviam enriquecido e ajudado o mundo até mesmo antes dos… Vinte anos.
Tenho que admitir que acabei de ter um bloqueio para continuar esse texto. As palavras “vinte anos” causam um exaspero tal em mim, que toda a vez que as menciono, sinto afundar a faca no ponto mais negro de meu âmago… Aquele que eu tento esconder todos os dias, com a rotina, com os costumes, com a faculdade, com garotas, com bebida, com sexo…
Enfim, sou estou sendo sincero com você, caro leitor. Quero dizer, eu até já falei como eu me chamo, o nome Eustáquio não é exatamente como um jovem do século XXI gostaria de ser chamado. Eis que recorro ao mais novo “pai-dos-burros” digital: um site de busca. E sim, perceba que eu não citei o nome daquele que é o mais utilizado, tendo em vista que universitário tem que gastar dinheiro é com xerox e não com pagamento de direitos autorais a uma empresa que já fatura milhões por ela mesma. Mas voltemo-nos: fui a esse site de busca e deparei-me com aquelas perguntas que fazem em geral aos usuários mais frequentes do lugar.
Uma pergunta saltou-me aos olhos “O quê um jovem de 20 anos não dá importância”… As respostas foram desde termos como “geração shopping center” até aquecimento global. Teve até jovem que tenha possivelmente se doído com o “insulto” e foi lá se defender, com suas gírias nada convincentes até para mim, que sou da época dele.
Esse “geração shopping center” me fez rir. De fato, estamos em uma geração em que o verbo “ser” imiscuiu-se do “comprar” e um hoje não é, sem o outro. Se sou rico, comprarei o carro do ano. Se sou foda, comprarei uma cama pra esculachar. Toda uma relação de subordinação condicional e obrigado, professora de português do ensino médio, você realmente estava certa quando disse que eu precisaria dessa classificação um dia.
E eu dei todo esses rodeios, é claro, porque eu não estava confortável com a minha criatividade bloqueada e também para chegar no ponto principal dessa mensagem: o sonho.
Então, quer dizer que o meu sonho tem valor, taxa ICMS, código barras e tudo o mais? Bom, nossos pais insistem que sim. E acredite, eles só querem o nosso melhor. Não é o seu amigo, não é a sua namorada, não é o seu professor talentoso… Os relacionamentos que escolhemos estão, fatalmente, vulneráveis ao erro. Não me olhe com essa cara hipócrita de que você é a exceção, jovem, embora eu saiba que seus hormônios estejam querendo gritar isso para mim e dar um tapa na minha cara. Somos jovens e o que mais queremos é ser… Diferentes. Ou, pelo menos, tentar mostrar isso.
Fato é que, se nos indagam novamente “o que queremos ser”, seremos avaliados em todos os quesitos possíveis e repreendidos tal como em um tribunal da Santa Inquisição.
- Escolhi carreira “x”…
- Dá dinheiro?
- Depende do lugar…
- E que lugar?
- Bem, nas capitais e…
- Como você vai se sustentar lá? Você vai trabalhar?
- Como vou trabalhar, se não sou formado em nada?
- E como você vai viver, se disso você ainda não sabe nada?…
Meus heróis, a realidade é essa: nua e crua. Devastadora. Cruel. E eu não queria usar uma frase de filme hollywoodiano, a fim de não reforçar como sou altamente influenciado pela “geração shopping center” (nossa, eu ainda fico rindo muito disso), mas “o mundo continua o mesmo, só há menos razões para se viver.” Verdade, nossa geração não é digna de colher louros de vitória. Mas certamente também não é a pior, tendo em vista que é a mais atual… Por enquanto.
E o nosso legado? O que viremos a deixar? Algo a se pensar. Mas não seriam exatamente essa nossa preocupação, essas nossas indagações, esses nossos “quem sou, para onde vou, de onde viemos” que serão herdado pelas gerações seguintes e tornar-se-ão “aquilo que deixamos”? Consequentemente, serão as perguntas deles que ficarão para a geração posterior e… E será um ciclo vicioso, sem fim?
A medicina tem avançado, mas ainda não deu todas as respostas. Ela conseguirá obter tal façanha? Tenho minhas reservas, tenho minhas críticas… Sou um rapaz religioso, embora não pareça. Esse é o dilema de todo jovem, aliás, e talvez seja o clímax dessa carta…
Sentimos que somos puxados pelos braços de dois lados, como se fôssemos atrelados ao centro de uma brincadeira de cabo de guerra. Um é o lado conservador, que quer que você trabalhe naquela carreira em que, mal você pisa na faculdade, já é aplaudido. É o certo, é o estável, é o seguro, é o inquestionável. Ao mesmo tempo, porém, é o entediante, o comum, o desprovido de tesão vital, eu diria…
E do outro lado… O inovador, o ígneo, o avassalador, o foda… A emoção.
Então, segue minha recomendação… Ousaria até dizer, meu prognóstico para nosso século: seja um cineasta. Seja ator. Seja um astronauta. Seja líder de uma banda de rock.
Acho que um dos legados que a geração anterior deixou para nós foi esse “poder sentir desenfreado”… Eles conquistaram isso por nós e não devemos ignorá-los com medo da iminente ilusão e da quebração de cara. Se jogarmos na Mega-Sena da vida, temos a probabilidade de ganhar o prêmio em uma proporção de 1 para 1 milhão. Mas se não o fizermos, a probabilidade será nula.
Pelo sim e pelo não, posso estar errado, então largue o cabo de guerra e tente trilhar um caminho só seu. Nem muito oito nem muito oitenta. Finalmente, fica o atabalhoado conselho: faça o que goste, mas após fazer tudo o que as pessoas realmente se importam com você acham que você deveria fazer.
Ainda tenho medo, admito. Vou deixar isso para a geração dos meus filhos, eles certamente serão mais progressistas e… Espere, meus pais pensaram assim?
Chego à conclusão de que só deixei meus caros leitores ainda mais confusos. Hum… vou assistir futebol.
Abraços e boa sorte,
Do seu grande amigo Eustáquio, que você não quis escolher, mas escolheu.

E vocês aí se achando mega-inovadores com os textinhos caça-likes do Medium sobre Geração Y, huh? ~~apagar

Mas é incrível como essas reflexões ou conselhos que damos a outras pessoas podem tornar-se perfeitamente cabíveis, um dia, aos nossos próprios desassossegos. Mais bonito, ainda, é ter uma luz que te guia a voltar a esses pensamentos, como se você precisasse estar, exatamente, lendo isso no momento de hoje. A gente, realmente, não tem ideia do efeito que nossas palavras podem causar nas pessoas (no caso, hoje, sou uma outra pessoa, parece que nem fui eu que escrevi essa carta).

Por sinal, lembrei-me até de um site em inglês chamado FutureMe (para conhecer, clique aqui) que permite que você escreva uma carta para si mesmo a ser recebida por e-mail no futuro (e, veja que louco, você não pode modificar nem ter acesso à carta depois do envio até o dia em que você determinar que seja lida; como se fosse uma cápsula do tempo).

Achei, por bem, que devia compartilhar esse meu texto com vocês e se falei alguma bobagem na carta (como fazer uma ironiazinha besta sobre o movimento feminista, que é uma das minhas bandeiras nos dias atuais), lembrem que eu só tinha 19 anos à época dos fatos e estava na iminência de passar pela tal “crise dos 20 anos” — coisa que, creio eu, devo estar perto de superar totalmente.

Ah, sobre o tal amigo: ele leu a carta à época, emocionou-se e falou que ia repassar a mais gente. Ele acabou sendo aprovado em Medicina não muito tempo depois.


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