“A quem vocês querem, Jesus ou Barrabás?” — ou o que nos motiva a procurar onde por a culpa

“A culpa é do PT” ou nós que não sabemos lidar com nossas próprias misérias?

A paixão de Cristo. (Source: Wordpress)

No dia de ontem, “deu pra mim”. Após duas semanas dessa novela política chamada PT x “Juízes Investigadores” da Lava-Jato (prevejo pessoas do Direito rindo com essa expressão!), ou conhecida como a mais estreante temporada da série House of Cards Brazil (alerta de ironia!), resolvi desativar o Facebook. O motivo? Nem mesmo quando você publica que não quer mais discutir sobre o assunto, haverá quem surja querendo impor sua opinião e faça suposições sobre você. Minha paciência se esgotou quando uma antiga colega de estágio disse que eu não estou ligando para o que está acontecendo no Brasil por que eu deveria não estar sendo atingida pela crise. Adeus, Mark! Só vou reativá-lo agora quando estritamente necessário.

O que me ocorreu foi o seguinte: mesmo uma colega de estágio, presumidamente conhecedora das técnicas jurídicas acerca de legalidade de prisões e sigilo de interceptações telefônicas, possuía um discurso parecido com a de alguns parentes e amigos meus que nunca pisaram em uma faculdade de Direito:

Fora PT! / Tem que prender os corruptos de todos os partidos, todos! / Prende o Lula, prende a Dilma!

Como estão dizendo por aí, os tempos são difíceis quando você não tem nem uma oposição nem um governo que dê para apoiar — espero que concordar com isso não me faça uma “isentona”. Umas tantas vezes, no decorrer de nossas vidas tentamos polarizar discussões e posicionamentos. É o que se chama dicotomia, em que haverá dois lados contrastantes: o Bem e o Mal. O anjo e o demônio. Deus e o “coisa ruim”.

Passagem bíblica (Source: Bíblia Online)

No caso da conjuntura política brasileira atual (lembro-me de escrever uma coisa assim para as minhas redações à época de vestibular), nosso “povo” que tem ido às ruas recentemente se preocupou em crucificar um culpado, qual seja o Partido dos Trabalhadores, por uma miscelânea de infelicidades por que o país tem passado. Isso nos remete à passagem bíblica, em que Pilatos pergunta à multidão, como modo de se livrar da culpa que uma decisão autônoma da parte dele poderia causar, quem deveria ser crucificado, se Jesus ou Barrabás, e o “povo” responde “Jesus” sem nem mesmo ter ideia do que estava sendo berrado, tendo sido meramente impulsionados pelos “doutores da lei” a agirem dessa forma como se depreende de outras leituras bíblicas. A diferença está em que todos nós, brasileiros, adotamos um Pilatos em nossos “egos” de modo a transferir a culpa que, ao menos, em parte também é nossa.

Antes que vocês me xinguem ou façam péssimos juízos de valores sobre mim, não estou desmentindo que o PT seja corrupto. Nem tampouco apoio esse partido e seus afilhados políticos. O que pretendo colocar é que uma análise serena, que talvez só seja possível de ser feita após sobrevivermos a esse “mar de lama”, nos permite dizer que a corrupção não é culpa do PT. Não queria jogar uma parte de um texto de um “gringo” falando sobre o nosso contexto político (pois acho que só um brasileiro poderia exprimir algo sobre uma situação tão delicada quanto a atual), mas o que ele escreveu me fez pensar:

Não é só culpa da Dilma ou do PT. Não é só culpa dos bancos, da iniciativa privada, do escândalo da Petrobras, do aumento do dólar ou da desvalorização do Real.
O problema é a cultura. São as crenças e a mentalidade que fazem parte da fundação do país e são responsáveis pela forma com que os brasileiros escolhem viver as suas vidas e construir uma sociedade.
O problema é tudo aquilo que você e todo mundo a sua volta decidiu aceitar como parte de “ser brasileiro” mesmo que isso não esteja certo.
(…)Nos países mais desenvolvidos o senso de justiça e responsabilidade é mais importante do que qualquer indivíduo. Há uma consciência social onde o todo é mais importante do que o bem-estar de um só. E por ser um dos principais pilares de uma sociedade que funciona, ignorar isso é uma forma de egoísmo.
Eu percebo que vocês brasileiros são solidários, se sacrificam e fazem de tudo por suas famílias e amigos mais próximos e, por isso, não se consideram egoístas.
Mas, infelizmente, eu também acredito que grande parte dos brasileiros seja extremamente egoísta, já que priorizar a família e os amigos mais próximos em detrimento de outros membros da sociedade é uma forma de egoísmo.
(…)É curioso ver que quando um brasileiro prejudica outro cidadão para beneficiar sua famílias, ele se acha altruísta. Ele não percebe que altruísmo é abrir mão dos próprios interesses para beneficiar um estranho se for para o bem da sociedade como um todo.
Além disso, seu povo também é muito vaidoso, Brasil. Eu fiquei surpreso quando descobri que dizer que alguém é vaidoso por aqui não é considerado um insulto como é nos Estados Unidos. Esta é uma outra característica particular da sua cultura.

Trecho extraído de:

Sem complexo de vira-lata, vamos aos fatos: o autor não falou nenhuma mentira. Basta uma olhada rápida na nossa “timeline” para afirmar: sim, somos vaidosos. E, sim, podemos ser tão vaidosos quanto Pilatos na hora de determinar a escolha de um bode expiatório de modo a “livrar” o próprio corpo. Esse “Habeas Corpus moral” — hoje, estou inspirada! — o qual, tantas vezes na vida, resolvemos acionar.

A crise é generalizada, mas um dos grandes pilares dela, os escândalos políticos têm veia institucionalizada em nossas famílias, relações de amizade e amorosas. Uma vez, conversando informalmente com meu ex-namorado, perguntei para ele em que casos ele iria me delatar se eu fosse acusada de algum crime potencialmente grave, como o homicídio, e tivesse ciência de algum fato que pudesse me incriminar. Ele me encarou um tanto sem saber responder, no que eu devolvi sem titubear: se fosse o inverso, eu te entregaria.

Ele não fez cara feia, apenas riu. Provavelmente, duvidou de que eu o faria. Acho que até eu duvidei um pouco também. Mas pensemos na força que assumir isso para alguém que você gostava possui. Procurei deixar claro que, apesar de eu não ser um bastião da moralidade, eu agiria moralmente nessa situação. Porque não seria algo que envolvesse só a mim, pessoa particular, mas um interesse público.

Então, vale a pena reiterar o que tal gringo disse acima: altruísmo é abrir mão dos próprios interesses para beneficiar um estranho se for para o bem da sociedade como um todo. Ou seja, a partir do momento em que você nasce, dá a primeira respirada e cola-se ao conceito de sociedade — assim surgindo sua capacidade civil — você adere ao pacto (falando num sentindo abrangente além do Hobbesiano). Desse modo, as suas “pequenas corrupções” — SIM! AQUELAS! — vão influir de algum modo na quebra desse acordo de solidariedade com o outro, sendo o afetado, você um dia. Seja aquela corrupção uma carteira de identidade falsificada para conseguir desconto no cinema, seja afanar milhões de uma sociedade de economia mista — que, a princípio, são situações feitas na surdina e distantes dos olhos julgadores de alguém que pudesse ver o outro estando com “a faca e o queijo” na mão a ponto de cometer algum crime violento como o de homicídio ou o de roubo.

A minha proposta com esse texto é nos fazer lembrar que devemos ser íntegros e solidários mesmo “na calada da noite” ou mesmo sem ter uma rede social para expor a nossa boa ação. Mais do que isso, também devemos parar de esconder nossas mazelas e erros, jogando um merthiolate que não arde por cima. Assim que jogarmos limpo com as situações em que formos, de algum modo, preconceituosos, racistas, machistas, classistas ou mesquinhos, talvez estaremos dando um passo fundamental na desconstrução da visão de que “brasileiro é um ser vaidoso” e paremos de passar esses constrangimentos em âmbito nacional e internacional. Afinal, de que adianta penas mais duras e mais políticos na cadeia, quando o crime está “dentro” de nós mesmos?


Gostou? Clica no abaixo e deixe seu amor! Ficarei bem feliz! 。◕‿◕。

Gostou muito e/ou quer dar seu pitaco? Deixe seu comentário na parte “Write a Response”! τнänκ чöü♥

Você também pode ler esses meus textos:

Quer ficar sabendo quando surgir meus próximos textos?

Curta a minha página no Facebook Poucas Palavras Agridoces e inscreva seu e-mail na minha Newsletter:

Like what you read? Give S. Paiva a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.