Escritor Raiz x Escritor Nutella: até onde o preciosismo literário vai nos levar?

Já respondendo: ao ódio, com certeza.

Queria falar sobre o preciosismo na poesia ou na literatura em geral. Começo dizendo que as pessoas estão acostumadas a ler o que vem da Europa (dá-lhe métricas, rimas bem construídas e plau). Nisso, tudo que ficar parecido a um Álvares de Azevedo é considerado literatura. Já o rap da periferia, não.

Aí começam a fazer os caga-regrismos: os tão dedicados a esse “Parnasianismo neo-moderno” não aguentam ver coisas “muito simples” na Literatura.

Daí começam a fazer diferença entre a figura do “Escritor” e a do “Produtor de Conteúdo” — como se uma coisa excluísse a outra.

Daí começam a fazer diferença entre “poeta de redes sociais” de “poeta que estuda Letras”.

Como se não: você não pode chamar rima pobre de poesia. Ah, e nem ouse se chamar poeta se você não utiliza versos decassílabos…

Meme do momento. Via Facebook.

A questão é que isso me incomoda muito porque já me atingiu até diretamente: já vieram aqui no Medium me dizer que o que eu faço não é considerado poesia.

Aconteceu é que acabaram achando um texto meu pela hashtag “poesia”. Um texto que eu não conseguia chamar nem de prosa nem de poesia; mas que resolvi colocar nesta última classificação, porque, de algum modo, tinha ritmo (e se um amontoado de 20 pessoas gostaram e não vieram desdizer que fosse poesia, acho que até um pouquinho de razão eu tinha).

Eu discuti com a pessoa em questão e cada um apresentou o seu lado, mesmo por e-mail, mas não acredito que tenha sido um debate lá muito frutífero. No final, cada um pediu desculpas um pro outro e cada um seguiu seu rumo.

Quase que na mesma semana desse incidente, eu fui à biblioteca e vi essa citação:

Arquivo pessoal.
Algumas páginas em prosa têm mais poesia do que um livro inteiro de certos poetas. Guimarães Rosa, por exemplo. Sagarana é pura poesia. Mesmo em Grande sertão: veredas há trechos poéticos, nos quais até as frases têm ritmo e rimas internas. Creio que há poesia em tudo aquilo que nos proporciona uma emoção de beleza: poema, prosa, quadro, música” (Helena Kolody).
(Eu adoro quando a vida me dá esses sinais de que estou no caminho certo. Adoro esses afagos do destino).

Pra você ver, é possível, sim, existir uma literatura descompromissada com estética ou perfeccionismos (dadaístas, um beijo pra vocês). Acho que qualquer coisa que sai da alma como a poesia não deveria ter pesos nem medidas. A gente já tem que ficar obedecendo parâmetros e normas no resto do nosso cotidiano e, agora, até pra escrever é desse jeito?

Se for pra deixar bem rebuscado, taca logo umas expressões em latim, umas mesóclises e : não teremos a poesia do jeito brasileiro singelo, sutil e ritmado. Aquele que dá uma sensação de solavanco na boca do estômago e te faz soltar um xingamento. Teremos só mais uma importação de Portugal. E se for pra fazer coisa “só pra inglês ver”, faço-lhes recordar que a História mostrou que isso nunca foi uma boa ideia.

P.s.: não entendo quem odeia charges. Via Mundo Edu.

Essas últimas semanas, surgiu um meme do “Coisa tal” de Raiz versus “Coisa Tal” Nutella, como uma forma de segmentar os old school dos new wave para uma porção de coisas: parece que as pessoas adoram se fazer diferentonas em alguma coisa, sobretudo, quando é pra se apegar ao saudosismo, alguma coisa do passado.

Acho que é justamente isso que está acontecendo: só porque a “poesia está virando uma bagunça”, assim também estão as mães atuais; os fãs de Harry Potter que não leram todos os livros; a geração Y que não sabe lidar com a sua ansiedade; e por aí vai.

É muito cômodo associar o “novo” a algo sem experiência. E deve incomodar e muito aos estilistas literários* que até o novo agrade a muita gente mais do que o que é clássico.

(*Parabéns, vocês conseguiram fazer com que eu criasse um termo meu para segmentar vocês. Contentes?).

Por sinal, as páginas mais bem sucedidas que vejo de autores no Facebook são justamente os de “fácil leitura” ou caça-cliques (vide Gabriela Freitas, Gustavo Lacombe e afins). Quer dizer que quanto mais gente gostar do conteúdo ele será melhor? Não.

Mas peraí: dizem no futebol que gol feio ainda é gol. Ele ainda te classifica. Ele ainda te dá os três pontos. Pode não ser o gol que vai te dar o prêmio de melhor atleta da Fifa ou sei lá o quê. Só que você não pode dizer que gol ruim não é gol, nem que poesia ruim não é poesia. Ainda continua sendo, mas só porque não agrada A VOCÊ, QUE BEBEU DAS MAIORES FONTES LITERÁRIAS EUROPÉIAS E OS CLÁSSICOS NACIONAIS (ou porque tem um gosto refinado para a arte do futebol), não quer dizer que não seja poesia/gol. Não quer dizer que não seja prosa. Não quer dizer que não seja romance.

Via Fórum Chaves

Perceba que o fato de algo não se encaixar ao SEU contexto não desfaz a natureza do mesmo. E a gente tem que lembrar disso antes de impor esses caga-regrismos bestas que, no frigir dos ovos, é só pra mostrar que o seu cavalo é maior do que o meu cavalo.

Acho que, a partir do momento em que a literatura mexe com os sonhos e impressões de vida de uma quantidade cada vez maior de pessoas, não importa o seu nível social ou acadêmico, ela já cumpriu o seu papel especial na Terra.

O que eu quero dizer com isso? Que o fato de eu ser fã de Machado de Assis não vai me permitir depreciar Cone Crew Diretoria.

Então, por favor, vamos parar com essas críticas, sejam expressas ou veladas, à forma como os novos autores estão chegando e deixando sua marca na Literatura Brasileira.

Eu faço poesia desde os 9 anos de idade. Esses dias fiz poesia até com “meme” (e fui chamada de poeta por causa disso. Mais: por uma pessoa totalmente aleatória. Sério.). E a Celina, talvez a melhor poeta do MediumBR, foi quem me convidou para fazer parte da publicação do Fazia Poesia, a maior publicação de poesia brasileira no Medium atualmente. Plus, posso dizer que estou me saindo bem por lá. É justamente por ser simples que as pessoas gostam.

ENTÃO, ACEITEM QUE, SIM, A MINHA POESIA SEM MÉTRICA, CAGADA E SEM ESTILO TAMBÉM É POESIA.

E não vou parar só porque uma meia dúzia de academicistas e, não, gente realmente preocupada com o “futuro da poesia” está me dizendo pra não fazer. Aí que eu vou fazer mesmo.

Via GIPHY

Observação: esse texto é mais um desabafo sobre alguns comentários que tenho visto circularem aqui pelo Medium e que têm mexido com o meu psicológico nos últimos tempos (provavelmente, porque a carapuça de poetinha new wave me coube bem). Não quero soar agressiva, nem desmerecer as opiniões de pessoas realmente preocupadas com algum iminente desgraçamento da Literatura brasileira — embora eu nunca tenha entendido isso. Quem estiver realmente interessado em mudar essas minhas concepções com base em algum estudo de sua área, convido a fazê-lo com gentileza aqui. Sem ironias finas ou críticas baseadas em achismos que só dizem respeito ao seu contexto. Estou de saco cheio disso sinceramente. Por isso, que vim encher o saco também.


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