Imagem do filme “Antes que eu vá” (2017), que tem o bullying como pano de fundo do enredo.

Sobreviver ao bullying é viver mesmo com os fantasmas gerados dentro de si.

Eles tentam te assustar: cabe a você ter coragem e seguir em frente, apesar de.


“You with the sad eyes
Don’t be discouraged” (*)

Ok, vamos lá a mais um texto sobre gordofobia. Sobre a garota que não se sentia aceita. Ou será que eram os outros que não a aceitavam?

20 de outubro é o dia de mundial de combate ao bullying. E, claro, eu precisava falar sobre a minha experiência pessoal com o tema.

Bem, eis o que posso dizer: que tarefa árdua que era poder simplesmente existir uns anos atrás! Tenho 25 anos e, não faz uma década, era eu, então, uma adolescente que não havia ainda nem sido beijada. Talvez por ocasião de alguns desses fatores em sequência, ou todos eles: acima do peso, nerd e feminista sempre que possível.

A atriz Kate Winslet, mais conhecida por mim como “baita mulherão da porra” e nossa eterna Rose Dawson: sim, ESSA MULHER sofreu bullying por ser considerada acima do peso. Pena de quem algum dia já alimentou algum tipo de ofensa ou discriminação contra essa mulher, que é hoje só uma das rainhas de Hollywood.

“And the darkness inside you
Can make you feel so small” (*)

Aulas de educação física eram quase um suplício para mim. Embora eu gostasse de praticar atividades físicas e sempre fosse muito ativa nos times de vôlei e handball (apesar de acima do peso), havia um dia temido por mim: o da avaliação biométrica.

Já contei isso em algum texto aqui, mas teve um dia, na época de escola, em que um dos meus colegas, bem conhecidos por ser bullier, disse: “cuidado para não quebrar a balança”. Ninguém fez nada para repreendê-lo. Nem mesmo o professor, que estava ali, presente.

Mas em quê eu me apoiava quando era objeto de chacota dos meus colegas de classe por causa do meu peso? Ou quando eu não me calava durante as aulas, sempre tirando dúvidas com os professores, e podia ver meus colegas girando os olhos ou rindo? Ou quando eu exaltava a igualdade entre homens e mulheres nas aulas de História e era chamada de “Heloísa Helena” por causa disso?

Na época de escola, a cantora e atriz Miley Cyrus foi obrigada a lidar com um “Clube Anti-Miley” e era agredida fisicamente por suas colegas.

“Show me a smile then
Don’t be unhappy, can’t remember
When I last saw you laughing” (*)

“Você não precisava viver”, um fantasma dizia. Vou chamá-lo de Gasparzinho da falta de sentido. Ele é uns dos primeiros a aparecer quando alguém, por meio de uma mera brincadeira “inocente”, faz você pensar que sua existência, em si, é um erro.

Porque você não tem a forma física desejada pela sociedade. Porque você fala demais. Porque você se expressa melhor do que ninguém e isso pode impressionar muita gente, principalmente, integrantes do sexo masculino — mas não uma boa impressão.

“Então, já que você não pode fazer nada quanto a isso, por quê continuar?”, diz o outro fantasma. Esse é o Gasparzinho da autossabotagem. Costuma aparecer após o primeiro Gasparzinho encontrar um lar dentro de você e ninguém te dar uma ferramenta ou palavra mágica para afugentá-lo.

Para uma vítima de bullying, esses dois fantasmas passam a persegui-la todos os dias da sua vida. Mesmo quando a vítima desse tipo de violência (sutil muitas das vezes, mas, ainda, uma violência) consegue encontrar um auxílio durante ou após essa fase nada fácil de sua vida, os fantasmas ainda permanecem ali — uma hora, eles conseguem ficar calados, silenciados, por ocasião de bons momentos.

Mas basta a insegurança bater: relacionamentos que fadam ao fracasso; amizades que se afastam. E aquele ou aquela que sofreu bullying só consegue pensar que a culpa é toda sua.

Afinal, sempre foi difícil se amar. Como que seria fácil, então, para outra pessoa te amar de volta?

A atriz Sandra Bullock sofria bullying na época de escola pelas roupas que usava — roupas estas que sua mãe, cantora de ópera alemã, trazia de suas viagens para a filha vestir.

“And I’ll see your true colors
Shining through
I see your true colors
And that’s why I love you” (*)

Não escrevo para que sintam pena de mim. Nem de qualquer pessoa que passou por qualquer uma das situações que descrevi aqui.

O que eu preciso (nós todos precisamos) é de empatia. Não digo nem por mim, mas por todas as vezes em que não se pensa no dano que se está ocasionando a um ser humano ao rotulá-lo por aberração ou como um erro quando ele carrega algum estigma de aparência, etnia ou de orientação sexual que não seja o considerado padrão pela sociedade.

Por favor: se vocês vão ter crianças um dia, eduquem-as. Não achem normal apelidar ou resumir uma pessoa pelo peso que essa pessoa tem, ou em relação à sua cor de pele, ou pelo gênero que ela sente afeição.

Quantos futuros adultos ainda precisarão se sentir traumatizados para que percebam o sério problema do bullying nos ambientes escolares? Quantas vidas irão se perder quando os “Gasparzinhos” da falta de sentido e da autossabotagem tomarem de conta da alma de alguém?
A atriz Winona Ryder sofria bullying na escola por ser considerada parecida com um menino.

“So don’t be afraid to let them show
Your true colors
True colors are beautiful
Like a rainbow” (*)

Sabem como eu sobrevivi ao bullying? Tendo consciência dos fantasmas gerados por ele e, na medida do possível, domesticando-os; não deixando esses fantasmas virarem bestas selvagens dentro de mim.

Busquei ser forte e só vim me resolver graças ao suporte de bons amigos, uma família que me ama e, na fase adulta, ajuda profissional. Mas e quem não tem essa mesma sorte? É para as pessoas que não têm ou não tiveram esses “luxos” que eu escrevo um texto tão doloroso assim.

Nem todo mundo é obrigado a ser forte. Eu também não era obrigada, mas acabei conseguindo. Creio que isso seja inerente à autocura: ser forte deixa de ser obrigação, mas acaba sendo algo que, inevitavelmente, você busca nesse processo.

Sempre que possível, seja forte. E busque essa força no quê e em quem pode realmente te ajudar com isso.

Também não poderia deixar de dizer que, pessoalmente, também me serviram nessa luta de sobrevivência aos meus fantasmas internos: livros. J.K. Rowling. Fé. E, sobretudo, escrever.

O comediante Chris Rock era constantemente insultado e sofria agressões físicas na escola por causa de sua etnia. Futuramente, atingiu a fama, produzindo o seriado “Todo Mundo Odeia Chris”, baseado na sua própria história de vida.
Referências:
(*) Trechos da música “True Colors”, Cyndi Lauper.
“15 Famous and Successful People Who Were Bullied In School”, Michele Borba.

Sobre a Autora S. Paiva:
S. Paiva é o “alter-ego” literário de Karolline Maria dos Santos Paiva, ou, para os íntimos, Karol. Karol é carioca de nascença, mas nordestina de criação. Escreve desde os 9 anos de idade, quando começou a ensaiar seus primeiros versos. Na adolescência e no início da juventude, com o “boom” das redes sociais, passou a publicar seus escritos em blog’s e sites diversos, dentre eles: SuperEla, ONDDA e Revista Subjetiva. Com 23 anos, formou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas sua verdadeira aspiração de vida está na escrita. Assim, com 25 anos, está prestes a lançar sua primeira obra, da saga A Herdeira de Auramon, na Amazon. Mais recentemente, fundou o Clube de Escrita Criativa de Curitiba, organização sem fins lucrativos voltada para o aprimoramento do escritor contemporâneo e realização de eventos e palestras sobre a carreira literária para ambientes além de escolas e universidades. Você pode acompanhar o trabalho da escritora e receber textos exclusivos, inscrevendo seu e-mail na Newsletter: http://tinyletter.com/karolsantos

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