Imagem — www.oecs.org

Falta de conscientização é fator determinante para os casos de HIV em Porto Alegre

Há dezenove anos, a cidade é a capital com maior índice de portadores do vírus da AIDS no Brasil

Em 2009, o professor João Paulo* viu sua vida mudar completamente. Na época, um ex-namorado lhe transmitiu o vírus HIV por meio de relações sexuais. “Ele confessou que já possuía o vírus e, por medo de preconceito, não tinha me falado”, conta. João Paulo diz ter sido vítima da falta de informação sobre o HIV: “Deveria ser feito um trabalho melhor na divulgação de informações sobre o vírus e o que ele causa. Estas informações devem ir até as pessoas”.

O professor faz parte das estatísticas de infectados em Porto Alegre, líder no ranking das capitais com maior incidência de casos de HIV há dezenove anos. Residente do bairro Restinga, na zona sul da capital, afirma conhecer muitos moradores do local com o mesmo vírus. “Muitos se escondem por medo do preconceito”, declara. No quadro atual, são 74 casos de AIDS a cada 100 mil habitantes na capital gaúcha. Em Florianópolis e Manaus, por exemplo, o índice é de 53,7 e 52 casos a cada 100 mil habitantes, respectivamente. Os principais fatores que respondem por que a cidade ainda está em primeiro lugar se referem à eficiência na contabilização, mas também ao comportamento de risco e ao baixo investimento em campanhas de conscientização. No caso destes últimos, um problema encontrado em todo o país.

Segundo os dados do Observatório de HIV/AIDS do Rio Grande do Sul, o estado tem o melhor controle epidemiológico em comparação ao resto do país, fazendo com que os gaúchos apareçam à frente na lista de casos da doença. Ou seja, os números mostram a nossa eficiência e escancaram mais os nossos problemas. Em 2016, por exemplo, a cada 100 mil habitantes, o estado apresentou 34,7 novos casos, seguido de Santa Catarina (31,9) e do Amazonas (31,2).

Em 2015, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) divulgou um relatório mundial no qual previu um aumento drástico em contaminação de jovens pelo HIV caso os processos educacionais para conscientizar o público sobre estes riscos não avancem. O relatório propõe “estratégias para acelerar os progressos na prevenção do HIV entre os adolescentes e o tratamento dos que já estão infectados: investimento em inovação, incluindo soluções desenvolvidas localmente; reforço da coleta de dados; fim da discriminação de gênero e a prioridade a medidas para responder às vulnerabilidades dos adolescentes, desenvolvendo esforços de prevenção”.

Ainda segundo o relatório, o perfil dos infectados tem se concentrado em pessoas de 15 a 19 anos.

Em Porto Alegre, a idade média de soropositivos é de 15 a 24 anos, mostrando que o início da vida adulta também é afetada pela ausência de debates.

Segundo dados apurados junto à Secretaria Municipal de Educação, a partir da Lei de Acesso à Informação, na capital gaúcha existe apenas um programa que trabalha com o tema no âmbito educação. Porto Alegre possui, desde 2012, o programa Galera Curtição para estudantes entre 12 e 16 anos de escolas públicas de ensino fundamental. É uma ação no âmbito do Programa Saúde na Escola (PSE) e trata-se de uma gincana cultural, com duração de sete meses. O Galera Curtição trabalha a prevenção do HIV/ AIDS em uma perspectiva ampliada incluindo temas como uso abusivo de álcool e outras drogas, gênero, sexualidade, diversidade, racismo, bullying e violências.

Desde 2012, o programa obteve 350 mil reais de recurso da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Ele segue com o objetivo de deixar adolescentes mais informados e conscientes, além de incentivar escolas, professores e alunos por meio de prêmios em dinheiro, passeios e jantares.

Prevenção e conscientização

O perfil do infectado em Porto Alegre é formado por pessoas com idade entre 15 e 24 anos, geralmente negras ou pardas e residentes das comunidades mais pobres da cidade. Bairros de média e baixa renda, como, por exemplo, Vila Cruzeiro, Restinga, Partenon e Lomba do Pinheiro, apresentam o maior número de concentração de infectados pelo HIV. Conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN):

Sobre essa questão social envolvendo casos de HIV, Simone Ávila, assessora técnica da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre, conta. “São bairros de maior vulnerabilidade social. Sabemos que historicamente as pessoas negras têm menos oportunidades de educação, trabalho e ascensão social, devidas ao racismo, infelizmente. E a maioria da população que vive nessas regiões de maior vulnerabilidade são pessoas negras”. Ela garante também que após a implementação do programa Galera Curtição, foi observado um aumento de 33% na procura pelo teste rápido de HIV por jovens a partir dos 15 anos.

Para Rubens Raffo, coordenador técnico do Fórum de ONG AIDS do Rio Grande do Sul, os dados nos quais apresentam a alta incidência em Porto Alegre se deve muito a forma como a prevenção é feita. “A abordagem é frágil no meio estudantil, voltado às escolas públicas e esquecem os alunos de escolas privadas. Na base de cartilhas e apresentações teatrais. Muita badalação da gestão e fora da realidade da cidade”, relata.

O Fórum de ONG AIDS não atende diretamente os indivíduos infectados. Rubens conta que funciona como uma associação de 48 organizações voltadas ao combate ao HIV. “Ele não trabalha diretamente com o público afetado, mas com as ONGs, que por sua vez, atende um público variado: como trabalhadores do sexo, com redução de danos de usuários de drogas injetáveis, mulheres vítimas de violência, pessoas em situação de rua e etc.”, afirma. Segundo ele, a instituição é composta por três coordenações, executiva, financeira e técnica, além do Conselho deliberativo, indicados e votados pelas ONGs associadas. Seu mote principal é incentivar a prevenção e a conscientização acerca do HIV e da AIDS.

Já o Grupo SOMOS, de Porto Alegre, realiza desde 2001 diversos trabalhos na área da saúde, da sexualidade e dos direitos humanos. Para Claudia Penalvo, membro da ONG desde 2013, a falta de investimento em campanhas de prevenção também é o principal motivo para os altos índices de casos de AIDS na capital do Rio Grande do Sul. Além disso, Claudia relata sobre as poucas pesquisas sobre o vírus no estado. O grupo conta com a ajuda de cinco pessoas fixas e mais cinco ajudantes pontuais. Claudia explica como funciona a atuação do SOMOS na área do HIV. “Privilegiamos o acolhimento e o repasse de informações e encaminhamentos necessários. Entendemos que o Estado precisa realizar tarefas e já existem diversos lugares e instituições que as fazem com qualidade e propriedade”.

Imagem — hivequal.org

Tratamento

O estado fornece o tratamento do vírus através do Sistema Único de Saúde (SUS). O vendedor Vitor*, de 38 anos, que mora em Porto Alegre e foi infectado há três anos e oito meses através de relação sexual, utiliza o SUS. “Faço tratamento com infectologista e recebo minha medicação mensalmente”. Vitor diz não ter sido atingido por campanhas de prevenção, mas que elas deveriam ser frequentes fazendo o uso das redes sociais. “Eu só vejo campanhas na época do Carnaval. O assunto precisa ser abordado com mais frequência, mostrando para as pessoas como é conviver com o HIV. Quando estava na escola, eu não tive a informação necessária”. Para ele, as pessoas acham que por existir um tratamento eficaz, não é necessário se preocupar com a doença: “Talvez, conhecendo mais a fundo como é o tratamento, pode ser que as pessoas passem a ter mais cuidado”.

Se a prevenção não tem sido eficiente, o tratamento parece estar funcionando na rede. Conforme a assessora técnica da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre, Simone Ávila, há uma lei que permite o passe livre para pessoas com HIV/AIDS cujo CD4 — células mais importantes do sistema imunológico cuja contagem em pessoas sem HIV é de 500 a 1200-, é menor que 350 e apresentam baixa renda. É uma lei municipal. Há disponibilização de vales assistenciais para o deslocamento para as consultas e exames. E trabalhamos em conjunto com outras secretarias ou autarquias, como por exemplo, a FASC. Em alguns serviços especializados em IST/AIDS há assistentes sociais que podem orientar sobre os direitos dos usuários que vivem com HIV/AIDS e fazer os encaminhamentos necessários.

As primeiras descobertas

Acredita-se que o vírus exista desde 1930, com a domesticação de macacos por povos isolados da África do Sul. Segundo pesquisas de historiadores, provavelmente houve situações de zoofilia ou a contaminação do vírus se deu por comida mal lavada, pois o vírus estaria nas fezes dos primatas. Com as guerras frias entre 1950 e 1960, soldados americanos e europeus teriam invadido essas tribos africanas e contraídos o HIV, por meio da alimentação ou, até mesmo, por relações sexuais.

No Brasil, o primeiro caso de HIV foi diagnosticado na década de 80, com registro de morte ocorrida em São Paulo, em 1982. Sete casos da doença, na época sem consenso clínico, envolviam indivíduos homo e bissexuais. Parte da imprensa tratava a doença como “A Peste Gay”. Pouco se conhecia sobre a doença até então. Sendo assim, os números de casos aumentaram consideravelmente devido à falta de conhecimento da doença e, sobretudo, devido à falta de campanhas preventivas.

Imagem — Jornal O Dia, 1984

Porto Alegre, em 1983, registrou o primeiro caso do estado do Rio Grande do Sul. Entretanto, as políticas adotadas pela Prefeitura com caráter de prevenção e de ações assistenciais começou em 1993, somente dez anos após o primeiro registro. A doença transformou-se em um tabu, diretamente associada à homossexualidade, no entanto, essa reação da população dificultou o controle do HIV. Segundo Vitor*, a doença, principalmente nos anos 80, gerou uma onda de notícias negativas por parte da mídia tradicional, tão forte que teve até caça aos homossexuais. O vendedor completa com ironia. “Gaúcho é macho, gaúcho é forte, gaúcho não pega essas perebas. Acreditam na própria mentira”.

*Nomes fictícios utilizados para preservar a imagem de nossos entrevistados

Reportagem: Liane Oliveira, Felipe Vicente e Thiago de Loreto (Jornalismo Unisinos- Porto Alegre)

Supervisão: Prof. Luciana Kraemer

Like what you read? Give Thiago de Loreto a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.