Renda básica universal versus cultura do hustle: sobre o futuro do trabalho e do consumo

Resultados ambíguos na experiência finlandesa pode acirrar os argumentos dos críticos do modelo, porém ao mesmo tempo jovens se orgulham de trabalhar longas jornadas de trabalho e reforçam o amor pelo trabalho. Qual é o futuro que queremos traçar para nosso papel como trabalhadores e como nosso consumo precisa mudar para se adequar a isso?

Lidia Zuin
Feb 12 · 10 min read

Um recente experimento foi finalizado na Finlândia: por dois anos, 2 mil pessoas foram escolhidas para receber 560 euros como parte de um teste para a futura implementação de um sistema de renda básica universal. Concluído o estudo conduzido por Olli Kangas, professor da Universidade de Turku, os pesquisadores entenderam que os resultados, na verdade, eram ambíguos: ao mesmo tempo em que essa renda básica não era suficiente para sobreviver na Finlândia, também os beneficiados não demonstraram mudança em questão de efeito trabalhista.

A ideia era fazer com que essa renda básica aumentasse a autoestima e o otimismo desses beneficiários, ao mesmo tempo em que essa quantia seria paga sem burocracias como demais outros seguros (como o seguro desemprego), que necessita que o requerente passe por diferentes procedimentos e apresente comprovações. Como argumentam os defensores da renda básica, é exatamente o fato de esses subsídios possuírem limitações e regras que faz com que os beneficiários passem por situações de muito estresse e não aceitem, por exemplo, um emprego que paga mais e que, em sua soma, ultrapassaria o teto para recebimento do benefício. No entanto, como comentou um dos beneficiários desse teste conduzido na Finlândia, Tuomas Mujara, não só as pessoas não deixaram de procurar emprego como também não pararam de trabalhar porque “a segurança de uma renda mínima não torna ninguém vagabundo.”

Na realidade, o que se observou foi uma melhora na maneira como os beneficiários cuidavam de sua própria saúde, seja ela física ou mental, e também a população experimentou uma melhoria em seu bem estar. Segundo Mujara, o principal resultado percebido durante o teste foi a sensação de “liberdade”, o que certamente tem a ver com o fato de a renda mínima ser uma quantia extra que proporciona mais segurança financeira e, por isso, uma maior sensação de liberdade. Mas isso também tem a ver com o fato de que o experimento não se focava em burocracias e comprovações, já que todos, sem exceção, recebem essa renda mínima. E é nesse ponto que alguns críticos se focam: não seria justo pagar a mesma quantia para um aposentado que trabalhou toda a sua vida e para um jovem que nunca trabalhou ou sequer estuda.

Por outro lado, cada vez mais há jovens trabalhando longas jornadas de até 18 horas por dia e se orgulhando desse tipo de comportamento. Mais do que uma decisão própria, esses jovens estão, na realidade, sendo incentivados por uma lógica de mercado que conta a mesma história de produtividade da Primeira Revolução Industrial, só que com uma roupagem mais cool — em vez de chão de fábrica e fuligem das máquinas temos papel de parede de palmeiras e água saborizada e chopp à vontade.

Se, por um lado, pessoas como Bill Gates propõem a taxação de robôs como uma forma de gerar fundos suficientes para financiar um projeto de renda básica universal, vemos que esse tipo de iniciativa teria como um de seus desdobramentos a possibilidade de sequer precisar trabalhar mais ou, então, mais provavelmente, poder direcionar seus esforços e conhecimentos em algo que é relevante ao indivíduo. O trabalho, portanto, deixa de estar ligado à necessidade de sobrevivência para, finalmente, estar relacionado ao preenchimento do propósito pessoal.

No entanto, o que acontece hoje com os millennials, que já foram considerados menos esforçados, é que não só eles têm trabalhado excessivamente como também se orgulham desse desgaste ao estilo do portão de entrada de Auschwitz: o trabalho liberta. Com exceção daqueles que fazem parte do movimento FIRE, o que se vê na reportagem de Erin Griffith do jornal The New York Times é que empresas de co-working como a bilionária WeWork está subvertendo a lógica ao querer que as pessoas amem a segunda-feira e façam o que amam.

Mas apesar de ter seus escritórios instalados em regiões de grande movimento ou mesmo sua arquitetura diferenciada e suas estratégias de RH, algumas pessoas, como Griffith, são imunes ao hype: “Nunca no começo de uma semana de trabalho , na fila do café de manhã, em uma comutação no metrô lotado, nunca quando eu abro meu e-mail sem fim eu pausei, olhei para os céus e sussurrei: #ThankGodIt’sMonday.”

Curiosamente, durante um evento com um representante do co-working, tive a oportunidade de ouvir sua declaração de que 85% das pessoas gostam de ir para o escritório para encontrar mais gente e conversar, trocar contatos. Disse que elas preferem sair de casa para ter essa vivência no escritório. Eu ri e disse que eu deveria ser parte desses 15% restantes que odeia sair de casa e se dá muito bem com home office. Mas, realmente, apesar de existirem movimentos como o Officeless que ajudam trabalhadores e empresas a tornarem suas atividades mais remotas, ainda se trata de uma exceção à regra.

E assim como nossas escolas também, em grande parte, não abandonaram sua lógica fabril de formar operários, muitas empresas continuam reproduzindo uma estratégia trabalhista e de produtividade semelhante ao início do século passado. Se estamos vendo cada vez mais tecnologias e serviços capazes de automatizar nossas tarefas e empregos, como podemos continuar reproduzindo os mesmos erros que antes levaram os Luditas a quererem quebrar as máquinas, com medo que estas lhe tirassem seus empregos?

O que acontece agora, porém, é que enquanto alguns jornalistas podem se sentir ameaçados ou ofendidos ao vislumbrarem a possibilidade latente (e já aplicada em redações como do Washington Post) de se usar inteligência artificial para a confecção de matérias, no meu caso, eu fico mais do que contente: nenhum jornalista que se preze merece ficar dando notinhas curtas em esquema de pirâmide invertida, se preocupando com SEO que vai manter a página no topo da busca do Google. Se, na faculdade, muitos glorificam o trabalho investigativo e os sapatos sujos de Gay Talese, essa é a hora.

Mas o que acontece é que produtores de conteúdo como a página One37pm, que possui uma newsletter focada em negócios, acabam por disseminar um pensamento e um estilo de vida a ser seguido. Em sua descrição, o site se diz ambicioso, durão e esforçado ou, como no original em inglês, “hustle”. Segundo a página, esse estilo de vida se baseia em “uma performance ao vivo que intensifica sua criatividade… uma sessão intensiva que faz suas endorfinas correrem… um visionário que expande sua forma de pensar.” Isto é, como explica Erin Griffith, significa que viver assim é estar constantemente em um modo de trabalho, seja quando vai a um show ou à academia: tudo tem propósito de ser uma inspiração ou um meio para chegar ao fim de retornar ao trabalho.

Para Ryan Harwood, chefe executivo de uma das empresas de apadrinhamento da One37pm, hoje não basta aos jovens simplesmente gostar de seu trabalho : eles precisam amá-lo e promovê-lo nas redes sociais, misturar sua profissão à própria identidade. E, como comenta Griffith, não é a toa que o LinkedIn então chegou a criar sua própria versão de stories ao estilo Snapchat para sua rede que é, especificamente, focada em negócios. Cada vez mais fica difícil de se fazer essa distinção e, aparentemente, empresários e empresas estão mais do que inclinados a reforçar esse padrão.

Também como um passo de englobar ainda mais as necessidades de seus clientes para além de oferecer uma mesa e uma cadeira a serem alugados, a WeWork está em vias de se transformar na We Company como uma forma de refletir essa sua expansão nos setores de imóveis residenciais e educação. Segundo Adam Neumann, fundador da WeWork, “a empresa pretende englobar todos os aspectos da vida das pessoas, tanto do ponto de vista físico quanto digital.”

Em outras palavras, como descreve Griffith, o cliente ideal dessa nova empreitada seria alguém tão apaixonado pela estética e premissa da WeWork que, no fim, ele irá querer morar em um apartamento da WeLive, treinar na academia Rise by We e levar suas crianças para a escola WeGrow de manhã. Mas isso não é necessariamente uma proposta nova, visto que algumas empresas no Vale do Silício já oferecem creches e outros serviços semelhantes ao funcionários das empresas ali sediadas. Academias também, por vezes, fazem parte de complexos de grandes empresas, mesmo no Brasil. Contudo, a ideia aqui é exponencializar e tornar isso mais acessível a mais pessoas.

Mas será mesmo que vale a pena abraçar de vez esse mundo corporativo e absorvê-lo como parte da sua rotina para além do trabalho? Obras de ficção científica como High Rise podem indicar que não. E se, outrora, nos moldes tradicionais da jornada de trabalho, com horário de entrada e de saída, era possível de se fazer uma separação da vida pessoal e do trabalho, hoje freelancers já não gozam nem da estabilidade relativa de um trabalho de carteira assinada e nem da “facilidade” em separar vida profissional de vida pessoal sem ter que fazer um esforço administrativo a mais. A questão que fica nesse paradoxo existencial criado pela lógica da cultura hustle é: mas se eu amo meu trabalho e amo o que faço, então qual é o problema em não separá-lo da minha vida pessoal?

O que Griffith argumenta, porém, é que essa cultura do hustle não é inspiracional, mas sim exploradora. Segundo David Heinemeir Hansson, criador da plataforma Basecamp, “a maioria das pessoas que estão sustentando a mania hustle não são as pessoas que estão trabalhando de verdade. Eles são gerentes, trabalham no setor financeiro e são proprietários.” Hansson, que publicou em outubro o livro It doesn’t have to be crazy at work, não só oferece uma tecnologia que organiza e administra equipes e projetos à distância como também defende que longas horas de trabalho não são nem produtivas e nem ajudam na criatividade. Esses mitos que reforçam o excesso de trabalho são, como define ele, uma forma de manter a imensa fortuna gerada por um pequeno grupo de elite da tecnologia.

E assim como se fosse uma versão hipster dos cartazes soviéticos que exaltavam o trabalho, a cultura do hustle também pode funcionar como uma forma de engajar as pessoas em um sentimento quasi religioso — daí também a conexão com algumas das premissas do protestantismo, uma vez que a lógica do hustle acaba por substituir a oração pela produtividade e isso, em última instância, é desumanizador.

Para Aidan Harper, que criou uma campanha de redução de dias de trabalho chamada 4 Day Week, a cultura hustle chega a ser quase como um culto que busca convencer os trabalhadores a corroborar com sua própria exploração, só que com uma mensagem um pouco diferente. “É como se Elon Musk fosse seu supremo sacerdote. Você vai à igreja todos os dias e cultua o altar do trabalho.”

As consequência disso? Griffith traz o caso de Jonathan Crawford, um empreendedor de São Francisco que abriu mão de seus relacionamentos e ganhou mais de 18kg enquanto trabalhava na Storenvy, sua startup de e-commerce. Suas únicas oportunidades de socialização eram em eventos de networking, suas leituras eram sempre sobre negócios e nada do que ele fazia podia deixar de ter um retorno de investimento para sua empresa.

Depois de abandonar esse estilo de vida, Crawford passou a trabalhar de sua própria casa em uma nova firma de investimento. Como lição aprendida, ele repassa para seus colegas que busquem atividades para além do trabalho, como ler ficção, assistir filmes ou jogar videogames. E apesar de parecer muito simples, para essas pessoas, trata-se de um conselho bastante radical e importante, já que essa lógica de total dedicação aos negócios acaba por desqualificar a possibilidade de se fazer algo que não tenha a ver com trabalho.

E o que isso tem a ver com o experimento da renda básica universal? Tem a ver com o que o beneficiário Tuomas Mujara argumentou: uma renda básica ou mínima é uma renda que não é suficiente para sobreviver apenas dela, mas esta pode servir de complemento aos trabalhadores que, desse modo, sentem-se mais capazes de cuidar de si mesmos e assim devolver melhores resultados. Não se trata, portanto, de quantidade de horas trabalhadas ou de dinheiro a ser recebido, mas como alcançar um equilíbrio em que seja possível de se viver uma vida mais digna e emancipar-se do trabalho que está mais próximo de uma punição e um sacrifício pela sobrevivência do que algo que realmente possa se tornar apaixonante e capaz de acrescentar algo ao indivíduo que não seja apenas o retorno financeiro?

Se as novas tecnologias estão mudando a forma como poderemos atuar no mercado de trabalho, também nossa postura diante deste precisa se adaptar, de modo que possamos ajustar nosso papel como trabalhadores à riqueza que podemos e precisamos gerar. Deixamos, portanto, de levar uma vida que se baseia em consumo por preenchimento de vazios para consumir a partir de uma ressignificação das coisas. Passaríamos, então, a consumir por necessidades que realmente temos e não que adquirimos de forma postiça, por exemplo a partir da publicidade ou de convenções sociais.

Mas enquanto continuarmos produzindo novas coleções de moda a cada estação e novos modelos de celular a cada ano, mas sem grandes mudanças tecnológicas, estamos fadados a continuar comprando smartphones que custam 7 salários mínimos e que, na prática, sustentam-se principalmente ao nível do simbólico, apesar de nos sabotar a nível financeiro. Mais do que pensar em soluções financeiras como a proposta da renda básica universal, precisamos rever nossas prioridades e a maneira como absorvemos e aceitamos os valores que o mercado nos oferece e que, por consequência, também nos regula.


UP Future Sight

Periódico sobre comunicação, futurismo e impacto positivo.

Lidia Zuin

Written by

Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.

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